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Há 20 anos, Steffi Graf ganhou o seu último torneio do Grand Slam. Depois, foi o adeus, a queda, o amor

A 6 de junho de 1999, Steffi Graf ganhava o seu 22.º e último título do Grand Slam, numa final de Roland Garros frente à menina prodígio Martina Hingis que foi mais do que uma simples final: foi um campo de batalha em que aconteceu um pouco de tudo, de reviravoltas a lágrimas e surpresas, num jogo que marcaria um antes e um depois na vida e carreiras das duas jogadoras

Lídia Paralta Gomes

Franck Seguin/Getty

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Batalha desde o fundo do court, uma esquerda demasiado longa de Hingis, bola a cair aos pés de Graf, já fora da linha. Cinco saltinhos da alemã, o punho fechado, um olhar de quase incredulidade para o céu. Era o 22.º título em torneios do Grand Slam para Steffi Graf. E era também o último, só que nós ainda não sabíamos. Nem sabíamos o que se passaria dali para a frente.

Há finais que não são apenas jogos e finais que também não são meras finais. Porque marcam o fim ou o início de qualquer coisa, às vezes tudo ao mesmo tempo. Dizer que a final feminina de Roland Garros de 1999 mudou o ténis talvez seja exagerado. Mas o que aconteceu a 6 de junho de 1999, há exatamente 20 anos, no court Philippe Chatrier, o monumental court principal de Roland Garros, mudou, pelo menos, a carreira e a vida de algumas pessoas - e algumas delas nem sequer estavam a deslizar naquele pó de tijolo.

O que se passou há 20 anos foi a última vitória de Steffi Graf num torneio do Grand Slam, mas para lá chegar houve reviravoltas, lágrimas, surpresas e muitas quebras nas regras escritas e não-escritas do ténis, num jogo de loucos, num torneio épico, que marcaria um antes e um depois para Steffi Graf, a consagrada, e para Martina Hingis, a miúda de 18 anos que estava a caminho de dominar o Mundo.

Graf tinha então 29 anos, quase 30, e vinha de duas épocas pejadas de lesões nos joelhos e nas costas, massacrados de anos e anos de treino intensivo e competição sempre ao mais alto nível, que lhe tinham dado históricos 21 títulos do Grand Slam, algo sem precedentes na Era Open, ela que foi e ainda é a única tenista a conseguir na mesma temporada vencer os quatro majors e a medalha de ouro olímpica, em 1988. Em 1997 e 1998, Graf não havia vencido qualquer torneio do Grand Slam, a carreira parecia em declínio e as adolescentes Martina Hingis, Anna Kournikova, Venus e Serena Williams entravam de rompante pelo circuito.

O seu tempo parecia estar a chegar ao fim.

Mas Graf não queria dizer adeus sem uma última vitória em Wimbledon, o seu Wimbledon, onde tinha conquistado sete títulos. E a temporada foi pensada para esse momento. Graf admitiria mais tarde que o objetivo de jogar Roland Garros era afinar o seu ténis para o torneio de relva. Mas nos quartos de final, a então 6.ª cabeça de série bateu Lindsay Davenport, norte-americana, 2.ª favorita em Paris. E nas meias-finais, uma das suas rivais históricas, Monica Seles, 3.ª pré-designada.

Na caminhada para a final, Graf despachou Davenport e Seles

Na caminhada para a final, Graf despachou Davenport e Seles

Stu Forster/Getty

Nas finais, esperava-a Martina Hingis, número 1 mundial, 1.ª cabeça de série, que com apenas 18 anos já contava cinco títulos em majors, o primeiro dos quais conquistado no Open da Austrália de 1997, com 16 anos e três meses. Hingis, nascida na Checoslováquia, mas suíça de nacionalidade, era um fenómeno de precocidade e também de talento moldado pela mãe, uma tenista esforçada que projetou na filha tudo aquilo que não havia conquistado. E, por isso, ainda nem saída da adolescência, Hingis já era uma competidora implacável, com aquela arrogância particular de quem sabe que pode ter tudo.

E não era uma quase trintona que lhe ia fazer frente. “Steffi teve bons resultados no passado, mas agora o jogo é mais rápido e atlético. Está velha já. O seu tempo já passou”, havia dito a atrevida suíça meses antes.

A marca e a linha

Amplamente favorita para a final, Hingis começou bem e fechou o 1.º set em 6-4. No 2.º parcial, rapidamente saltou para uma vantagem de 2-0. Pelo meio, uma paragem devido à chuva que quase sempre aparece em Paris por esta altura do ano. A final parecia escrita, a miúda atrevida ia derrotar a alemã.

Mas, de repente, tudo mudou. Uma bola de Hingis foi considerada fora e Hingis contestou o lance - a bola parecia, de facto, ter batido dentro das linhas. Nos torneios de terra batida, os árbitros podem descer da cadeira para confirmar marcas, mas a decisão da juíza de cadeira manteve-se: a bola era fora.

Começou aqui o descontrolo emocional de Hingis. Inconformada com a decisão, a helvética caminhou até ao lado de Graf e apontou para a marca. Num desporto de regras e códigos, calcar o court alheio é uma das mais graves violações. O público não mais perdoou a arrogância da jovem de 18 anos e só piorou que Hingis se recusasse a jogar até aparecer a supervisora da arbitragem.

A partir daí, e depois de longos minutos de paragem, a final enlouqueceu. O público, que já estava por Graf, desatou a assobiar e a apupar qualquer jogada ou ponto ganho por Hingis, que não aguentou a pressão. Graf recuperou o break e venceu o 2.º set por 7-5. No 3.º e derradeiro parcial, o jogo de Hingis bloqueou, enquanto a força do público elevou ainda mais a exibição de Graf, excelente como sempre a defender, segura no fundo do court, cirúrgica no jogo de pés e na pancada de direita.

Com 5-2 no último parcial e Graf perto de uma vitória tão saborosa quanto inesperada, Hingis tentou e conseguiu salvar um match point da alemã com um serviço em colher, por baixo, pancada considerada desrespeitosa - uma daquelas regras não-escritas do ténis que quase ninguém ousa tocar.

Foi a gota de água para o público e a final não duraria muito mais. Graf fecharia a partida em 4-6, 7-5 e 6-2, perante o êxtase geral do Philippe Chatrier. Hingis sairia do campo em lágrimas, com o peso da ignomínia em cima dos seus jovens ombros, que até então não haviam conhecido tal humilhação. A suíça só voltaria para a entrega de prémios arrastada pela mãe, a chorar de forma desconsolada e descontrolada - afinal de contas, Roland Garros era o título que lhe faltava para aos 18 anos ter vitórias nos quatro majors, o que seria um feito impressionante. E, admitiu mais tarde, estava tão confiante na vitória perante a alemã que já achava velha para o ténis que até já tinha preparado o vestido com que faria a foto oficial com o troféu.

O adeus e o encontro entre dois craques

“Esta foi de longe a maior e mais inesperada vitória que tive. Foi um dos jogos mais doidos de sempre, teve de tudo”, diria Graf na cerimónia da entrega de prémios. Anunciaria depois que aquele seria o seu último Roland Garros. Tinha escrito a história perfeita para a despedida e não a ia estragar.

Já Hingis, aos 18 anos, tinha mais do que tempo para vencer em Paris. Mas tal nunca aconteceu. A menina que aos 16 anos já vencia os mais importantes torneios do Mundo, com um ténis bonito, fluido, cheio de técnica, entrou numa espiral de derrotas importantes. Em Wimbledon, semanas depois, perderia com estrondo na 1.ª ronda frente a Jelena Dokic. E no US Open chegaria à final, para perder com outra menina, Serena Williams, então com 17 anos e que a partir dali seria uma das grandes dominadoras do ténis, um domínio que ainda hoje dura, apesar de não ganhar qualquer título do Grand Slam desde 2017 – Williams entretanto ultrapassou Graf como maior vencedora de sempre em torneios do Grand Slam na Era Open.

Martina Hingis nunca mais ganhou um título de singulares em torneios de Grand Slam depois daquela final de 1999

Martina Hingis nunca mais ganhou um título de singulares em torneios de Grand Slam depois daquela final de 1999

Al Bello/Getty

Depois vieram as lesões e em 2003, com apenas 22 anos, Martina Hingis anunciaria a retirada do ténis. Ainda voltaria em 2005, com algum sucesso, retirou-se novamente devido a um controlo positivo, para voltar de novo em 2013 para se dedicar exclusivamente aos pares.

Já para Steffi Graf, a vida deu uma volta. Dentro e fora dos courts. Poucas semanas depois da épica vitória em Roland Garros, falharia a conquista do 8.º título em Wimbledon, o seu título mais desejado, ao perder na final frente à norte-americana Lindsay Davenport. A derrota precipitaria um adeus à competição que já estava na cabeça da alemã.

Mas o torneio de Roland Garros de 1999 traria mais elementos dignos de trama hollywoodesca. Porque foi em Paris e no tradicional baile dos vencedores que os caminhos de Steffi Graf e Andre Agassi se cruzariam. Tal como a alemã, o norte-americano vinha de um par de anos complicados, com resultados pobres e vida pessoal atribulada, devido a um badalado divórcio com a atriz Brooke Shields. E, tal como a alemã, acabaria por vencer de forma inesperada, quando muitos já o achavam perdido para o ténis.

Graf e Agassi eram o completo oposto: ela altamente focada, discreta, de quem pouco se sabia quem era fora dos courts; ele extravagante, carismático, material de revista de celebridades. Mas ainda hoje, 20 anos depois daquele Roland Garros e 17 anos após o casamento, são um dos power couples do desporto. Agassi ainda jogaria mais sete anos, nos quais ganharia mais quatro torneios do Grand Slam.