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Há uma pessoa no mundo a quem pode perguntar qual é a sensação de ganhar 350 jogos em Grand Slams

Quando, por obra do talento, da vontade, da benção da genética, de uma certa paciência e de muito gosto pelo que se faz, se consegue juntar a genialidade à longevidade, é possível chegar-se a uma coisa assim: à vitória número 350 em torneios do Grand Slam. O feito é de Roger Federer

Diogo Pombo

Matthias Hangst/Getty

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Num minuto entram 60 segundos e em matéria de raquetes, bolas e relva, pode caber, também, um jogo de serviço em branco, caso a mão que segure a raquete que bate na bola e os pés que deslizem sobre o tapete forem de Roger Federer, o insustentavelmente leve tenista, apesar dos seus 38 anos.

Nem uma volta tinha dado o tic-tac ao relógio e o senhor relva já se estava a impor a Lucas Pouille. Mesmo que faltassem horas, mesmo que estivessem para vir muitas bolas batidas, mesmo que o belga desse luta, aquele jogo de serviço que exigiu zero gotas de suor podia ser um prenúncio.

Porque Federer é, pronto, Federer, e nunca é arriscado presumir que o suíço vai ser melhor do que quem está do outro lado da rede, salvo se quem lá esteja tenha um certo nome espanhol, ou um determinado nome sérvio.

Um francês sólido na defesa, constante no fundo do court, acertado nos passing shots, mas muitas vezes hesitante nas subidas à rede e ataque aos pontos de serviço contra, pode não chegar. Lucas Pouille até chegou a conseguir um break a Federer, no segundo set, mas foi apenas um soluço na distribuição de pancadas em cima das linhas do suíço.

Os problemas para Federer surgiram, apenas, no terceiro set. Pouille forçou-se sobre o suíço, alongou mais as bolas, bateu-as para os pés de Federer, limitou-o à linha de fundo. E aguentou o serviço assim como o velho e sábio da relva londrina aguentou o seu.

Forçaram-se mutuamente até a um tie break, coisa que existe para se facilitar as quebras de serviço.

Nesse mini-set com pequeníssimos jogos dentro de um set, Federer aumentou um pouco de intensidade, arriscou responder com o tipo de pancadas que só ele, nesta altura de um jogo, lhe passa pela cabeça tentar, e, pela enésima vez, correu-lhe bem.

O suíço que se endeusa a cada dia que passa venceu o francês que continua a ser dos melhores jogadores do circuito. Roger Federer ganhou (7-5, 6-2 y 7-6 (4)) a Lucas Pouille e não foi, apenas, uma vitória para estar, pela 17.ª vez, nos oitavos-de-final do torneio que já foi seu em oito anos.

Federer ganhou o jogo 350 da carreira em torneios do Grand Slam, que são quatro e têm os courts onde a teoria manda ser mais difícil ganhar jogos. Mas o senhor que molda a prática à sua vontade e desafia a idade (são já 37 anos, 38 em agosto) com o ténis continua a existir para ganhar.