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O melhor João Sousa de sempre na relva está nos oitavos de Wimbledon

Sem medo da esquerda, variar o jogo e obrigar quem está do outro lado a correr. Quando João Sousa o fez, começou a aproximar-se dos oitavos-de-final de Wimbledon, onde chega pela primeira vez na carreira após bater o inglês Daniel Evans (4-6, 6-4, 7-5, 4-6 e 6-4). A aventura do português na relva vai agora encontrar Rafael Nadal

Diogo Pombo

Adam Davy - PA Images

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Há pessoas que funcionam melhor quando o mundo, que é o contexto naquele mundo, parece estar contra elas. João Sousa é uma dessas pessoas.

Estando em Wimbledon, um torneio inglês, a jogar no court número um, que é o segundo maior do All England Club, contra um tenista inglês, o público seria muito ou quase todo inglês e, portanto, a favor de Daniel Evans, um tipo que, há um ano, estava a regressar de uma suspensão de 12 meses por ser apanhado com cocaína no sangue.

O desencanto da carreira de Evans virou encanto para os ingleses porque neste tenista com amor por uma esquerda cortada, especializado em bater bolas do fundo do court, sem se mexer muito, está uma história de superação de um calvário, depois de caído na desgraça.

E, durante algum tempo, esse encanto deu ainda mais embalo a um tenista motivado, que mais se motivou ao quebrar o serviço logo no primeiro jogo do encontro. E logo a João Sousa.

O português apanhou um contexto desfavorável e, de início, isso pesou-lhe. Hesitou, fugiu ainda mais à esquerda do que costuma, não arriscou pancadas. Apenas confiava na força da direita, que usava para devolver a bola, mais do que tira-la do alcance de Daniel Evans, tenista que colocava, batia, cortava e multiplicava pancadas para sítios tramados, sim, porque o português lhe respondia mais docilmente do que as bolas que recebia.

João Sousa perdeu o primeiro set (4-6). Mas, a meio do segundo, acordou.

Fartou-se do público entusiasmado com o sucesso local inicial. Acelerou o jogo de pés. A direita de dentro para fora, a que tanto insiste ir buscar, apareceu. Deixou de fugir, como regra, à esquerda. Já tentava as que antes evitava. E as que entraram deram-lhe a confiança que vem do sucesso em algo que se tem medo de falhar.

Ganhou o segundo set (6-4) e ganharia o terceiro (7-5), a variar muito o jogo e a obrigar Evans a puxar pelo que lhe aprisiona as pancadas: o jogar com os pés pesados, a correr ao longo da linha de fundo, a ter que usar a raquete em mais do que passo acelerado. Mas seria derrotado no quarto (4-6), de novo a permtir que Evans controlasse pontos com o slice, outra vez a não o obrigar a pensar enquanto se movia de um lado para o outro.

ADRIAN DENNIS

A negra do último set deixou dois tenistas cansados, mais pesados e erráticos a alimentarem-se de picos de motivação. O primeiro serviço de João Sousa já quase nunca entrava. Daniel Evans perdia a maioria dos pontos em que tinha de sair do seu metro quadrado de espaço.

Eles foram equivalendo, as esquerdas em slice contra as fortes direitas de dentro para fora, espicaçando o público com pontos longos - houve um com 25 pancadas e ambos a acabarem a arfar - e muito desespero. Um não desfazia o serviço do outro.

Sousa sobrepunha-se a Evans nas trocas de bola longas, o inglês menorizava o português quando o ponto se decidia a bater pancadas mais ou menos no sítio onde se estava. Até que a esquerda, a tão de evitar, de fugir e de não tentar pancada que o português menos gosta, deu uma recompensa.

Dessas duas mãos a segurar a raquete saiu um passing shot avassalador, que deixou o português a um break de levar o jogo e forçou Evans a um erro infantil, junto à rede. João Sousa fechou o quinto set de um encontro espetacular e quase que obrigou o inglês a partilharem um abraço.

O jogo foi bom de se ver e muito desgastante terá sido. João Sousa, aos 30 anos, está pela primeira vez nos oitavos-de-final de Wimbledon. Portugal estreia-se nos oitavos-de-fina do Grand Slam de relva. A história está feita. Agora é descansar, porque vem aí Rafael Nadal.