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Ganhar a Nadal ainda não é uma possibilidade

O português perdeu com o espanhol que muito raramente perde e muito dificilmente perderia contra ele, ou contra quem fosse. João Sousa sai (6-2, 6-2 e 6-2) de Wimbledon nos oitavos-de-final com a melhor prestação de sempre de um tenista português. Com ele, além da história, leva 196 mil euros no bolso

Diogo Pombo

NIC BOTHMA/Lusa

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Um tenista vive, ou tenta viver, o máximo que pode acima do que lhe é possível, porque isso é humanamente possível. Descomplicando, acima do que a técnica e o talento com a raquete na mão lhe permitem, há as possibilidades que se desbloqueiam dentro da cabeça. O estar focado, concentrado e motivado e, por conseguinte, mais confiante, torna bons tenistas em muito bons jogadores durante certos fogachos.

Num set, num jogo ou numa semana de torneio, um qualquer João pode bater bolas com a força e colocá-las com a precisão que, oito vezes em cada 10, o levariam a falhar.

É num destes estado de graça que João Sousa teria que estar, ainda mais, para ser capaz de realmente incomodar Rafael Nadal. E desejar que, por obra e graça de uma noite mal dormida ou de uma cabeça ocupada com um assunto qualquer, tudo corresse mal ao espanhol para o português ter hipóteses à melhor de cinco sets.

E que a sorte decidisse aparecer no court central de Wimbledon. Mesmo não rodando tanto o top spin, não encostando tanto as respostas às linhas, não sendo implacável à mínima pancada menos bem batida, o espanhol continua a pôr bolas em campo e a devolvê-las. Nem Nadal apareceu menorizado, nem a chance caiu do lado da rede de João Sousa: arrancou o encontro a servir e foi logo quebrado, perdeu 6-2 no primeiro set em 29 minutos, chegou a barafustar para o ar e erros não forçados só apareceram no espanhol quando já estava 5-1.

Aí, no jogo de serviço do português, houve uma madeirada para fora de Nadal, uma resposta dele para a rede, uma esquerda demasiado longa, e um ás de João Sousa. Até se viria, depois, uma dupla falta do todo-poderoso da terra batida e seja em que superfície for. Uma miragem que um ínicio de segundo set igual ao primeiro tratou de matar.

João Sousa foi quebrado, atropelado em vários pontos e um visível falhado nas tentativas em que apenas queria devolver a bola, só batê-la para o outro lado. Quando se deu ao risco e tentou colocar o touro físico a correr na linha de fundo, as bolas começaram a sair. O português chegou a fazer encurtar distâncias para 3-2 com estilo, batendo amorties para depois sobrevoar lobs sobre um Nadal já a ter de correr atrás de pancadas.

O toque de bola junto à rede deu aplausos, pontos bonitos e uns murros no ar. Um tal fogacho apareceu e, mais do que levantar o português, serviu para acelerar o espanhol. Nadal carregou na intensidade, voltou a fabricar bolas a que Sousa não conseguia chegar logo à terceira pancada trocada nos pontos e embalou para outro 6-2. Os jogos de serviço do espanhol eram intocáveis para o português.

No que poderia ser o último set em Wimbledon, o português soltou-se nos pés, no braço e na cabeça. Arriscou mais ainda e os pontos alongaram-se. Puxou por si e acabou a puxar ainda mais pelo melhor de Nadal. Chegaram a trocar 20 bolas num ponto. Obrigou o espanhol a ir buscar mais umas quantas coisas geniais lá de onde quer que retire a genialidade que põe na raquete. O espanhol já tinha que celebrar os pontos com saltos para o ar e "vamos!" audíveis.

João Sousa passou o terceiro set a trocar longos, fortes e duradouros pontos com Rafael Nadal, evidência que resume o que se pode elogiar ao português - obrigou o espanhol a dar a melhor versão dele e não se ficar, apenas, pelo suficiente. João não jogou estratosfericamente acima do nível normal neste dia, mas elevou o ténis do país ao ser o primeiro a chegar aos oitavos-de-final na relva mais popular da vida de raquete na mão.

Saíram lado a lado, um a esperar pelo outro, depois de se abraçarem, conversarem e, enfim, se respeitarem. Que é o que vale no desporto e continua a valer entre dois tipos que já treinaram juntos e se dão na medida do possível, que não é bem amizade, mas andará lá perto.

  • O melhor João Sousa de sempre na relva está nos oitavos de Wimbledon

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    Sem medo da esquerda, variar o jogo e obrigar quem está do outro lado a correr. Quando João Sousa o fez, começou a aproximar-se dos oitavos-de-final de Wimbledon, onde chega pela primeira vez na carreira após bater o inglês Daniel Evans (4-6, 6-4, 7-5, 4-6 e 6-4). A aventura do português na relva vai agora encontrar Rafael Nadal