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O ensaio de Serena sobre o incidente com Carlos Ramos: “É-nos dito que temos de nos sentar e estarmos caladas, e isso para mim não está bem”

Tenista norte-americana escreveu um longo texto na primeira pessoa para a revista "Harper's Bazaar", no qual revela que foi obrigada a pedir ajuda para ultrapassar a discussão com o árbitro português na final do US Open do ano passado. Muito crítica, diz que as mulheres continuam a ser tratadas de forma diferente pelos juízes homens nos courts. "Quando os homens discutem com os árbitros, são recebidos com um sorriso ou mesmo uma gargalhada pelo juiz, como se estivessem a partilhar uma piada"

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Serena Williams acusou o árbitro português de ser mentiroso e ladrão

Foto Danielle Parhizkaran-USA TODAY SPORTS

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Quase um ano depois, a discussão que Serena Williams travou com o árbitro português Carlos Ramos na final do US Open ainda está bem fresca na memória da norte-americana. Num texto na primeira pessoa escrito para a revista “Harper’s Bazaar”, a tenista volta a acusar Ramos de a ter tratado de forma injusta e revela que para ultrapassar a situação teve de recorrer a um psicólogo.

“Senti-me derrotada e desrespeitada pelo desporto que eu amo, aquele pelo qual dediquei a minha vida, aquele que a minha família mudou, não porque nele fôssemos bem-vindos, mas porque não conseguimos parar de ganhar”, começa por dizer a mais nova das irmãs Williams, antes de relatar os dias que se seguiram à final perdida em Nova Iorque.

“Depois do US Open, voltei a casa na Flórida. Todas as noites, sempre que tentava dormir, questões não resolvidas passavam pela minha mente em loop: como é que me podes ter tirado um jogo numa final do Grand Slam? A sério, como é que podes tirar um jogo a alguém em qualquer altura, em qualquer torneio? (...) Porque é que não posso expressar as minhas frustrações como toda a gente? Se eu fosse um homem, estaria nesta situação? O que me torna diferente? Ser mulher?”, continua.

Terá sido nesta altura que Serena Williams pensou também em quem estava do outro lado. Em Naomi Osaka, que viu o seu primeiro título do Grand Slam ofuscado pela discussão com o juiz português. “Não só aquele jogo me tinha sido retirado como um momento triunfante e definidor havia sido arrancado a outra jogadora. Isso partiu o meu coração. Comecei a pensar outra vez: ‘O que é que podia ter feito melhor? Fiz mal em impôr-me? Porque é que quando uma mulher fica emocional é logo rotulada de doida, irracional, mas os homens são chamados de apaixonados e fortes?’”.

Sem conseguir encontrar paz, Serena Williams admite que procurou ajuda. “Comecei a ver um psicólogo. Enquanto procurava respostas, e mesmo que sentisse que estava a fazer progressos, não estava ainda preparada para pegar numa raquete. E foi então que percebi que só havia uma forma de ultrapassar a situação: estava na hora de pedir desculpa à pessoa que mais merecia”, diz.

Enviou então uma mensagem a Naomi Osaka, pedindo perdão por ter retirado os holofotes da jovem japonesa: “Foi nessa altura que percebi que a verdadeira razão para aquele US Open ter sido tão complicado para mim: não foi por causa das críticas que tive de enfrentar, mas pelo que aconteceu àquela miúda que merecia muito mais naquele momento especial”.

“Em situações como a que vivi, quando os homens discutem com os árbitros, são recebidos com um sorriso ou mesmo uma gargalhada pelo juiz, como se estivessem a partilhar uma piada. Eu não estou a pedir para não ser penalizada. Estou a pedir para ser tratada da mesma maneira. Mas infelizmente esse não é o mundo em que vivemos”, sublinha, antes de explicar que, na sua visão, o incidente exemplifica a forma como “milhares de mulheres em todas as áreas são tratadas todos os dias”.

“Não nos permitem ter emoções, não nos permitem sermos apaixonadas. É-nos dito que temos de nos sentar e estar caladas, o que para mim não está bem. Fico envergonhada por a nossa sociedade penalizar as mulheres apenas por serem elas próprias”.