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Federer é imune ao tempo e, outra vez, a Nadal

Roger Federer está, pela décima segunda vez, na final de Wimbledon. Onze anos depois, o príncipe da relva voltou a encontrar-se com Rafael Nadal no Grand Slam que mais vezes ganhou e bateu (7-6 (7-3), 1-6, 6-3 e 6-4) o espanhol. Fabricou respostas milimétricas ao serviço e manteve um jogo de serviço seu que encravou a potente direita do velho rival. Federer tem quase 38 anos, mas ainda tem tempo para mais história

Diogo Pombo

Clive Brunskill/Getty

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Rafa já veste calções vulgares, com o comprimento esperado para quem pratica desporto e tem de andar a correr de um lado para o outro. Já não tem fita adesiva em ambas às pernas, pouco abaixo dos joelhos, a segurar-lhe os ligamentos e o psicológico onde havia o receio de os magoar. Tão pouco tem as articulações dos dedos ligadas, as juntas presas com fitas. Já não se tapa com uma t-shirt sem mangas, já não parece um pirata tenístico e já não tem fartura capilar.

O tempo também já avançou contra o cabelo de Roger. Já não tem a fita na cabeça para lhe segurar as pontas longas, ainda a tem, todavia, mais pela força do hábito. Já não aguenta a pele incólume durante vários jogos ou até sets, as gotas de suor escorrem-lhe, cara abaixo, mais cedo. Já lhe custa correr a largura do court em perseguição de uma bola, mais ainda se tiver que lhe bater na passada.

É uma injúria colocar por escrito que Nadal e Federer já não são o que eram, um crime chamar-lhes velhos. Mas factual é que estão mais velhos e forçosamente diferentes.

O ténis entre eles é que se mantém imutável no espetáculo que gera, uma e outra vez, seja qual for a superfície debaixo dos seus pés, embora fique mais especial se for a relva de Wimbledon. O tapete onde, há 11 anos, as boas línguas dizem que eles jogaram o melhor jogo da história e as esperançosas desejaram que, esta sexta-feira, Nadal e Federer voltassem a empurrarem-se até ao sublime.

Ainda há as mil e tantas rotações por segundo na bruta direita nos 33 anos do espanhol. Acode a quase todas as bolas, corre para tudo, saca pancadas que batem na relva e seguem apressadas para fora mesmo quando as dispara em esforço. Ainda há a esquerda cruzada, até com renovada potência, nos 37 anos do suíço, mais avesso ao slice e ávido de subidas à rede para pressionar o rival de sempre e impedi-lo de levar o jogo para velocidades que ele nunca gostou.

Nadal e Federer são exímios um para o outro no primeiro set e obrigam-se a decidi-lo no tie break. O suíço ganha-o (7-6 (7-3)) com o jogo de serviço profundo, a acertar misseís no ‘T’ do quadrado, que tantas vezes o livrou, ao longo dos anos, de ver o espanhol a encarrilhar a intensidade nas suas pancadas.

Shaun Brooks/Getty

Não foi no quando, mas no onde, que Rafa se resgatou na meia hora seguinte. Matutou sobre o mal que o serviço de Roger lhe estava a causar, recuou uns passos e esperou um metro atrás pelos segundos serviços do suíço. Buscou o tempo para ajeitar os pés à pancada de direita, puxar o braço atrás e disparar bolas que fizessem correr as pernas do outro lado da rede.

Foi avassalador. Tornou o jogo desconfortável para Federer, a superioridade moeu a cabeça do suíço e Nadal comeu vivo o segundo set (6-1). O seguinte iria sempre ter a hipótese de abrir uma fossa: ou rei do pó de tijolo aproveitava o rombo para pisar ainda mais Federer, ou o dono da relva reagia e devolvia à raquete a consistência magistral a apontar bolas para o outro lado da rede.

Roger acordou-se da letargia e a esquerda voltou a ter tiques de infalível. As bolas cruzadas já caíam, de novo, em sítios impossíveis. As subidas à rede eram correspondidas com pancadas para fechar o ponto enquanto os passing shots de Nadal já não fugiam tanto do alcance do suíço.

Não decalcou uma diferença tão funda com a que o espanhol vincou antes, mas quebrou-lhe o serviço por duas vezes e teve fases em entrou na bolha, em que ligou o God Mode e, simplesmente, não falhava pancadas. As duas maiores - e mais espetaculares - trocas de bolas do encontro bateram-se neste terceiro set (6-3), que deu ao quarto alguns laivos de poder vir a ser o último set.

A sensação cresceu, muito, quando Federer ruiu o chão ao serviço de Nadal, logo à segunda oportunidade. As respostas do tipo que nunca grita, jamais grunhe, ao saque iam consistentemente parar em cima da linha e aos pés do potente touro. O espanhol não era capaz de acelerar os pontos na segunda pancada. O suíço conseguia arruiná-lo logo à primeira vez que Rafa tinha de devolver uma bola.

O espanhol ainda reagiu, estabilizou-se, voltou a ser leve nos pés e nos pequenos passos para se embalar nas direitas potentes. Atinou o primeiro serviço. Resistiu, de novo, à constância avassaladora, à qual a única reação que lhe parecia ser possível era mesmo essa: apenas resistir. Nadal ainda evitou uma segunda quebra de serviço, salvando-se de dois match point, parecendo adiar só por um jogo o regresso de Federer à final que mais rima com o maior colecionador de Grand Slams deste mundo.

NIC BOTHMA/Lusa

Mas há sempre um "mas'.

E o de Nadal foi agigantar-se perante a adversidade e escalar o seu nível de jogo até pancadas semelhantes às que produzira, em massa, durante o segundo set. Notou-se que entrou, de rompante, na cabeça de Federer, que até um smash diretamente para fora bateu, quando a tensão no ar já pesava toneladas. Os velhos e bons rivais aguentaram-se um ao outro em vantagens que nos fizerem lembrar aquela final, aquele embate, aquela história que tinham escrito há onze anos.

Por momentos, o tempo recuou. Mas o tempo vai estender-se para quem mais pesa na idade. Roger Federer está na final de Wimbledon, vai tentar ganhá-lo pena nona vez. Vai continuar a resistir, graciosamente, ao tempo.

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