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O melhor jogo de sempre, 11 anos depois

Foram quatro horas e quarenta e oito minutos, cinco sets e três interrupções por causa da chuva. Roger Federer era o número um do mundo há 231 semanas seguidas, Rafael Nadal era o bruto, top-spinado e canhoto tenista que colocava o maior desafio, até então, à carreira do suíço. Os dois jogaram em modo-deus, o espanhol ganhou pela primeira vez em Wimbledon e a balança começou a equilibrar-se. Onze anos depois, os maiores tenistas de sempre reencontram-se, esta sexta-feira (a partir das 13h, Sport TV) na relva

Diogo Pombo

AFP

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Era o sítio onde parecia ser imbatível, inqualificável na aparente não existência de esforço, na ausência de suor. Roger Federer nunca perdia na relva impecável de Wimbledon. Parecia um relação imaculada, feita para com pinças: para o court e o torneio mais antigos, de maior tradição e aprumo no detalhe, o tenista mais perfeito na estética, sem pontos fracos visíveis, cavalheiresco até numa bruta pancada de esquerda.

O fenómeno suíço, em julho de 2008, era magistral na mesma dose em que já se tornava uma ameaça: a elegância de Federer em todas as pancadas, a metamorfose constante que tinha na raquete a bater em qualquer bola, qualquer que fosse o tipo de pancada, tinham-no há 231 semanas a liderar como número um do mundo.

Eram quase quatro anos e meio de domínio total, absoluto, régio. Viessem os Roddicks, os Philippoussis, os Hewitts ou os Agassis e os Sampras, nos seus brilhos já decadentes, o maior número de bolas indefensáveis vinham sempre do mesmo lado da rede. No fim de um jogo de ténis ganhava quem nunca gritava, quem raramente fazia cara feia nas pancadas - quem, enfim, se chamava Roger.

Roger Federer, viciado na procura da pancada perfeita em cada bola, tinha já conquistado 12 torneios do Grand Slam. O suíço chegou a outra final de Wimbledon, a sexta consecutiva quando já o vencera as cinco anteriores. A relva era o seu domínio, mas, um mês antes, encontrou um problema: “Tinha perdido em Roland Garros, contra o Rafa, de forma terrível”.

David Ashdown/getty

Nadal era o equilíbrio encontrado pelos deuses à supremacia desmesurada que Federer estava a impor no ténis. Se o suíço era divinal em relva, o espanhol era sobrenatural em terra batida. Endeusaram-nos, cada um no seu território, sublimes numa superfície em que não parecia haver pessoa que os contestasse.

Mas, nesse verão, a diferença de um deus para o outro foi demasiada para o derrotado suportar o vencedor: três sets limpos em Roland Garros, com um 6-0 a fechar.

O quarto Grand Slam de Nadal, então com 22 anos, colocou ainda peso na luta que dera, um ano antes, em Wimbledon.

The game

Nunca uma vitória na relva predileta custara tanto ao suíço e, em 2008, num jogo que ficaria para a história, chegou a parecer que um deus estava a roubar a divindade ao outro: os dois primeiros sets deram um duplo 6-4 ao espanhol e quando o terceiro estava em 5-4 para Federer, a chuva caiu.

Roger e Rafa estiveram à espera mais de uma hora à espera, no mesmo balneário, a falar com os treinadores, um a matutar na história que estava a umas bolas batidas de distância, o outro a ser despertado pelo iminente fim de um reinado. “A paragem de chuva, provavelmente, acordou-me. Pensei: ‘Se vou perder este jogo, pelo menos perco com estilo’”, admitiu, muitos anos depois, no documentário “Stroke of Genius”, feito sobre esta final.

Federer recusou-se a ser atropelado na própria superfície. Tomou as pancadas dos sets iniciais, esqueceu-as, voltou ao court e reencontrou-se com o seu lado de artista. Ganhou o tie-break do terceiro set e elevou-se, mais ainda, em modo Deus, no espetacular quarto set em que salvou um match-point com uma esquerda que viria a ser o ponto preferido da sua carreira.

A magnitude do momento deu tensão ao braço de Nadal, que pareceu acusar o peso da história. "Os dois melhores passing shots do torneio, sem a menor dúvida, apareceram nos últimos dois pontos", ouviu-se de Andrew Castle, o comentador da BBC para a final.

O artista que sabe combater ergueu-se na luta contra o combatente que também tem arte, nas palavras de Pierre Paganini, eterno preparador físico de Federer. E ambos chegaram ao derradeiro set no limite de uma missão que se retira das palavras de Nadal - em cada ponto, em cada bola, ambos preocupados em "fazer mal ao adversário".

Eles atingiram-se, em pontos sucessivos, pelo quinto set adentro. O nível de ténis elevado por dois tipos a superarem-se para tentarem superar o outro foi extraordinário. O serviço de Federer dava-lhe a base consistente para bater as pancadas perfeitas; o braço esquerdo de um Nadal - que em tudo é destro, menos no ténis- não lhe falhava. “Estava preparado para competir até ao fim. Ele podia ganhar-me a final, mas não seria eu a perdê-la”, pensou, segundo o que diria no mesmo documentário.

Com 2-2 no último set, as nuvens voltaram a conspirar com chuva. A paragem durou cerca de meia hora. À hora a que os ingleses já estariam jantados, dois monstros do ténis ainda jogavam. Às 21h, o diretor do torneio já pensava em suspender a final e pedir a toda a gente que retornasse na segunda-feira, enquanto Nadal e Federer se igualavam até ao 7-7.

Pool

A luz natural estava prestes a morrer e a de Federer também. O suíço ainda salvou três pontos de break, não evitou um quarto e quando Nadal o quebrou, serviria depois para o momento icónico: o próximo monstro do ténis ganhava ao fenómeno no seu próprio quintal. A hegemonia faraónica de Federer era ameaçada por um jovem que acabava de explodir definitivamente na modalidade. Já não era, apenas, o rapaz do pó-de-tijolo.

A última final de Wimbledon sem um teto amovível no court central terminou às 21h15. A relva estava escura quando Rafael Nadal levantou o seu primeiro troféu de Wimbledon, quando Federer viu o seu futuro antagonista-mor fazer-lhe uma desfeita na sua superfície, um mês depois de o suíço ser impotente na terra batida do espanhol.

Dizem, deste então, que foi o provável melhor jogo de ténis de sempre. Pelo menos, a melhor final. Onze anos passam, o ténis mantém a hegemonia assente em Nadal e Federer (e Djokovic, para respeitar o trio de deuses dos Grand Slams), o espanhol já não se equipa à pirata e o suíço está com menos cabelo.

Eles vão reencontrar-se em Wimbledon para uma meia-final que, se tiver metade do que a decisão de 2008 teve, já valerá a pena acompanhar.

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