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Cori Gauff, o novo fenómeno precoce do ténis por quem o US Open ignora as regras

Existe uma regra que limita o número de torneios que as tenistas com menos 18 anos podem jogar, durante uma época, a bem da precocidade do talento. Cori Gauff tem 15 e já esgotou a quota de 10 provas e três wildcards para 2019, mas, como os Grand Slams têm quase regras próprias, o US Open ignorou a regra, convidou a americana que virou profissional aos 14 e a número 140.º do mundo vai poder jogar em Nova Iorque

Diogo Pombo

TPN

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A suíça Martina Hingis era um poço sem fundo de talento precoce, vindo sabe-se lá de onde, que a tornou coleccionadora-mor de recordes por ter sido a mais nova tenista a fazer uma série de façanhas: tinha 14 anos há duas semanas quando, em 1994, bateu a primeira bola no circuito ATP, com 15 anos e nove meses ganhou, em pares, um Grand Slam, na relva de Wimbledon.

Aos 22, já com idade para não se ter que ralar com as bebidas alcoólicas e a lei nos EUA, os tendões nos joelhos obrigaram-na a retirar-se. Entre 40 títulos em singulares, já tinha os sete majors da carreira conquistados.

A americana Jennifer Capriati, outra imberbe fantástica de raquete na mão, era uma recém-adolescente, acabada de entrar nos teen years, quando, em 1990, se estreou em torneios ATP. Tinha 13 anos e 11 meses. Aos 14 foi semifinalista em Roland Garros e com 235 dias em cima desse número de anos de vida tornou-se a mais jovem tenista a entrar no top-10 do ranking. Aos 16 anos levou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Barcelona.

Com 18, decidiu carregar no botão de pausa do ténis. Durante 15 meses não foi avistada nos courts, mas foi notícias pelos desvarios errantes em que a polícia a apanhou: roubou um anel de uma joalharia e detida foi por estar em posse de marijuana. Depois, chegou a dar entrada em clínicas de reabilitação. Tropeções num percurso que a devolveria ao ténis para, em 2001, conquistar o Open da Austrália e Roland Garros.

Os ossos, ligamentos e tendões de Hingis minaram-lhe a carreira que, já em fase pôr-do-sol, em 2007, teve um teste positivo por cocaína num controlo anti-doping. A vida de Capriati nas horas em que não estava a jogar ténis tremeu-lhe a constância no percurso desportivo.

Apesar dos títulos, feitos e conquistas que apareceram, por comum bom-senso, antes do tempo previsto, elas são dois casos geniais de precocidade - como o foram Monica Seles, Steffi Graff, Gabriela Sabatini ou Arantxa Sánchez Vicario, todas donas de um Grand Slam antes do vigésimo primeiro aniversário.

Todas terão contribuído para que, em 1994, a WTA criasse umas regras especiais para tenistas aventureiras no circuito antes de o cartão de cidadão as reconhecer como adultas. Regras a que Cori Gauff não obedece, bom, porque os torneios do Grand Slam ainda fazem o que lhes apetecer.

A Age Eligibility Rule criou-se para que tenistas com menos de 18 anos tenham o número limitado de torneios que possam jogar. O objetivo de base era evitar a sobrecarga, o stress competitivo, o peso de um calendário completo e a pressão, muitas vezes empurrada pelos pais, nas vidas de jogadoras adolescentes. As tenistas citadas em cima brilharam e ganharam quando ainda eram rapariga, mas todas se retiraram, mesmo que provisoriamente, antes de chegarem aos 30 anos.

Cori Gauff é americana, profissional desde os 14 anos, tem uma incubadora de jeito para o ténis no corpo e saltou para o conhecimento comum, dentro e fora do ténis, quando ganhou a Venus Williams na primeira ronda de Wimbledon, em julho, onde se tornou a mais jovem de sempre a qualificar-se para o quadro principal da relva mais mitológica do ténis.

Coco, como é alcunhada, tem 15 anos.

Ela já não deveria estar a aparecer na televisão, vestida com equipamentos da New Balance onde, bordado ou colado, está o logótipo da Barilla, marca desportiva americana e empresa alimentar italiana que já lhe rendem à volta de 1 milhão de euros anuais. Pela Age Eligibility Rule, a americana já tinha esgotado o plafond de 10 torneios esta época e três wildcards (Miami, Roland Garros e Wimbledon) a que as 15 primaveras lhe dão direito.

Este ano, a americana tem apenas 15 jogos feitos no circuito profissional, distribuídos por 12 torneios. Para lá do limite porque, com o tempo, a WTA criou exceções meritórias à regra: tenistas com 15 anos podem competir em, até, mais quatro provas, dependendo dos resultados em torneios anterior e, ainda, no circuito júnior, onde Gauff foi número um e venceu dois Grands Slams (Roland Garros e US Open).

Mas não haveria voltas a dar aos wildcards. Gauff já aceitara os três possíveis.

Sendo quem já é, e sendo o US Open o Grand Slam que é - gerido pela Federação Internacional de Ténis (ITF) e não pela WTA (o circuito feminino) -, o torneio apenas respeita as regras se quiser. Portanto, ofereceu um wildcard à adolescente americana, ela aceitou e vai fechar a época a estrear-se no quadro principal da prova.

Roger Federer, o príncipe imaculado do ténis, concordará com o convite por discordar da existência das regras que, por definição, proibiriam esta situação caso não se tratasse de um Grand Slam. “Já disse à WTA para aliviarem o regulamento. Acho que [um limite] pode colocar pressão extra nos torneios que possam jogar. Por alguma razão, o melhor período da tua carreira pode ser entre os 14 e os 20 e, assim, estão a retirar uma oportunidade”, argumentou o suíço.

Ele disse, também, que não, não opinou desta forma por Cori Cauff ser agenciada pela Team8 e a empresa ter como dono o senhor dos 20 torneios do Grand Slam conquistados. Porque, sim, até Federer já se agarrou à exceção que é a imberbe tenista americana.