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Nadal não joga para ser quem tem mais Grand Slams

Falta apenas ganhar mais vez um dos quatro maiores torneios do ténis para Rafael Nadal alcançar os 20 redondos de Roger Federer. Depois de vencer o US Open, o espanhol disse que não é isso que o faz sair da cama todos os dias e explicou o porquê de os títulos não serem tudo na vida: "Não sou mais ou menos feliz consoante o número de Grand Slams que tenha"

Diogo Pombo

JOHANNES EISELE/Getty

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É mais do que comum ler ou ouvir um desportista dizer que praticar o que seja é muito bonito, mas o que realmente importa, esteja uma bola envolvida ou o objetivo for fazer algo de extraordinário com o corpo humano, é ganhar. Que esse é o propósito que justifica viver sem tempo para mais nada, pois, se não for possível compararmo-nos a alguém e, logo, ser melhor ou pior do que vivalma, para quê darmo-nos a trabalho?

O seguimento natural desta pergunta seria indicar que a colocassem a Rafael Nadal, o touro enraivecido espanhol sobre quem não é preciso questionar o Google para, em linhas gerais, se saber como terá sido a início da sua relação com o ténis: os pais ou o tio introduziram-no ao à coisa, Rafa tinha jeito para bater bolas com a raquete, gostou, foi praticando e treinando até começar a ganhar aos outros, constantemente, na altura em que se via quem era o melhor.

A mesma moral se poderá retirar, alterando uma ou outra coisa, das histórias de Roger Federer e Novak Djokovic, o suíço e o sérvio que, somados ao espanhol, dão os vencedores de 54 dos 64 Grand Slams jogados desde 2004. Eles ganharam a grande maioria dos torneios que mais importa ganhar no ténis, do tipo de prova que mais é usado para medir o sucesso e separar o trigo dos bons jogadores do joio dos melhores tenistas.

Nadal tem 33 anos, está a ficar sem cabelo, tem um potente estilo de jogo que, com os anos, lhe fustigou os joelhos com inúmeras mazelas, vai casar-se com a namorada de sempre, e acabou de ganhar o US Open pela quarta vez. Ficou com 19 Grand Slams conquistados e perguntaram-lhe se ainda se dá ao trabalho do ténis por querer chegar aos 20 de Roger Federer. Ao que ele respondeu:

"Digo sempre o mesmo: ficaria encantado se acabasse como o tenista que ganhou mais Grand Slams, mas não estou a pensar nisso, não treino para isso, não jogo ténis para isso. Continuo a jogar ténis porque me encanta jogar ténis. O ténis é muito mais do que os Grand Slams e preciso de pensar no resto das coisas. Jogo para ser feliz e a vitória de hoje faz-me muito feliz, mas há umas semanas ganhei em Montreal e também foi um momento muito importante para mim.

Se a nossa competência atrai mais fanáticos e gera interesse, então isso é bom para o nosso desporto. Sinto-me honrado por fazer parte dessa batalha. Mas insisto: não podes estar todos os dias a olhar para o do lado e ver se ele tem um título a mais ou a menos do que tu, porque acabarás frustrado.

Tudo o que consegui na minha carreira é muito mais do que pensei e sonhei, por isso não sou mais ou menos feliz consoante o número de Grand Slams que tenha. O que te dá felicidade é a satisfação pessoal de teres dado o melhor de ti. Nesse sentido, estou muito contente e tranquilo."

Questionaram-no sobre os torneios que mais importam e o espanhol explicou que não é isso a interessar-lhe quando vai jogar ténis, por muito que tudo o que seja linguagem corporal, no court, aparente tê-lo como o tenista contra quem se teria que mover um exército para o demover da ideia de ganhar.

Nadal está a apenas um Open da Austrália, um Wimbledon, um US Open ou um mais do que provável predileto Roland Garros de igualar Roger Federer, que está com 38 anos e, talvez, já com menos para dar do que o espanhol, porque o peso da idade pode ser adiável, mas não inevitável - e mesmo Djokovic, com 16 torneios do Grand Slam, não está assim tão longe.

O espanhol está cada vez mais perto de ser, pelos números, o melhor ou um dos melhores. Mas não é isso que o faz ser feliz.

  • Já só há um pequeno passo entre Nadal e Federer

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    É o 19.º Grand Slam para o espanhol, que derrotou o tenista russo de apenas 23 anos, Daniil Medvedev, na final do US Open, por 7-5, 6-3, 5-7, 6-4 e 6-4. Ao fim de quatro horas e 51 minutos, Nadal ganhou, chorou e ficou mais parte de igualar o recorde de majors conquistados por Roger Federer