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Serenamente, a vossa campeã

Neste dia, há 20 anos, uma adolescente de 17 anos, musculada e potente, vinda de um bairro pobre, onde membros de gangues viam o pai a treiná-la depois de ele próprio estudar ténis, ganhou o seu primeiro Grand Slam. Entretanto, Serena Williams ganhou mais 22, foi mãe, teve uma depressão e lesionou-se, mas continua a ser a lenda do ténis que desafia a idade

Diogo Pombo

Jamie Squire

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Os americanos são muito afim de expressões que encapsulem pessoas, comportamentos, eventos ou lugares, como Compton. É uma cidade na Califórnia, perto de Los Angeles, muito associada, na década de 80 e 90, a pobreza, tráfico de droga, desvantagem social e outros problemas cuja mescla puxa tantos sítios para o lodo do preconceito e das generalizações.

Porque é isso, também, que os americanos apreciam para se livrarem de demais trabalhos a pensar sobre as coisas, quando descrevem Compton com colarinho azul, aplicando-lhe a descrição de ser uma cidade blue collar. A expressão aplica-se a sítios onde predomina a classe operária e as contas bancárias que pouquíssimo recebem, a cada mês, pelo trabalho diário que têm.

Compton era um lugar repleto de crime, droga a ser vendida nas esquinas, seringas deixadas no chão, gente sem abrigo nas ruas e gangues a reclamar miúdos à deriva.

Também era onde Richard Williams, um pai afro-americano, pobre e Testemunha de Jeová soube, um dia, das exorbitâncias com que o ténis retribuía jogadoras bem-sucedidas, decidiu estudá-lo para ser capaz de o ensinar às filhas em courts públicos, à vista de todos, num meio alheio a este desporto caro, com laivos elitistas, associado a brancos endinheirados. Batia às portas dos clubes de ténis privados e pedia bolas usadas, gastas por outra classe social, para ter muitas com que treinar as filhas.

Viu na raquete um salva-vidas para fora de Compton e treinou-as. Comprou livros e DVDs, aprendeu, depois puxou por elas, foi exigente, obrigava-as a treinar apenas uma com a outra ou com adultos, até terem idade para entrarem em competição com eles. Enviava cartas e comunicados aos jornais locais, inflacionando as filhas e as histórias, de como se tinham que baixar durante os treinos para se esquivarem de balas perdidas das ruas.

E a relatar, talvez, como os membros dos gangues, aos poucos, não perdiam um treino e cercavam o court, protegendo as meninas prodígio, quase admirando potencial infantil - porque eram elas que mais poderiam sair dali.

Da vida que obrigava Serena, a mais nova de cinco descendentes, a trocar de cama a cada dia e de irmã com quem dividir o colchão, pois só havia quatro na casa dos Williams. Ela imitiva Venus no court e no que comia, colava-se a ela em entrevistas e invejava o corpo mais esguio e magro da irmã, quando ainda era pequena, mas já saliente na musculatura.

Deste contexto emergiram as irmãs que pegaram com anormal potência na raquete e, aos poucos, foram precocemente apanhadas na rede de patrocinadores, marcas, torneios e televisões: Venus e Serena tornaram-se as adolescentes sensação da América até a mais nova, a então menos prometedora, cumprir o desígnio que o pai antevira.

Com 17 anos, presa pela timidez de não-acredito-que-isto-acabou-de-acontecer e uma quase vergonha nos olhos, Serena Williams ganhou o US Open. Há precisamente 20 anos.

Ainda equipada, de braços em baixo e mãos entre as pernas, como se a escudassem da exposição, largando por momentos o troféu para a secretária, falou prontamente para a “CBS” e não é tanto o que disse, mas como se apresentou, que o provaram - só tirando-a do court se notava como, realmente, Serena ainda era uma simples miúda.

Era 1999 e tornou-se na segunda afro-americana a conquistar o Grand Slam de Nova Iorque (a primeira, Althea Gibson, fizera-o em 1957 e 1958), por fim a culminar o esforço familiar feito para que as irmãs fizessem de Williams o apelido mais conhecido do ténis feminino.

A adolescente das missangas brancas no cabelo já ganhara o primeiro trio de torneios, nesse ano, era a número seis do ranking, mas não era previsível que entrasse em modo destruidor ali, em Flushing Meadows, onde se joga o último major do ano e se concentra o público mais vocal e barulhento do circuito.

Depois de sobreviver aos três sets para os quais Kim Clijsters a arrastou, Serena Williams cruzar-se-ia, a partir da quarta ronda, só com vencedoras de Grand Slams: livrou-se de Conchita Martinez, ganhou à sua ídolo Monica Seles, superou Lindsay Davenport e, na final, foi melhor do que Martina Hingis. Também ganharia a final de pares, ao lado da irmã Venus.

Jon Buckle - EMPICS

Foi o único dos 23 torneios do Grand Slam que conquistou na adolescência. Seguiram-se os 12 durante os vinte e os 10 enquanto trintona, um recorde seja no masculino, ou no feminino. Enumerar-lhe os feitos é contrariar o propósito deste texto, que era recordar e não prosperar uma carreira que ainda não terminou; portanto, eis o breve resumo.

Serena fez-se um ícone do ténis, a mais vencedora, dominadora, quebradora de recordes e quem mais dinheiro foi ganhando. Tão omnipotente que se chamou ‘Serena Slam’ aos dois anos em que teve todos os majors em simultâneo.

Superou a depressão que a engoliu após o assassinato de uma das irmãs, Yetunde Price, condição que escondeu com um período sabático atribuído a lesões. Voltou, ganhou um Grand Slam já grávida e foi mãe aos 35 anos. Regressou de novo e, mesmo sem Grand Slams desde a gravidez, chegou a quatro finais.

A história da mais campeoníssima das irmãs Williams começou há 20 anos e ainda dura, bem para lá da ingénua previsão do pai que, em 1997, estimou que as filhas deixassem o ténis aos 23, 24 anos, justificando ao "New York Times" o mirrar das estimativas de longevidade de uma forma com um costado de ingenuidade: "Não quero ficar com duas iletradas a mastigarem pastilhas em casa".