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Nick Kyrgios já não é um bad boy

Refila com árbitros, insulta jogadores, às vezes até o público, é multado por mau comportamento e já foi criticado por Nadal e Djokovic. Tornou-se normal ouvir o tenista ser apupado pela sua atitude, mas, desde que se preocupou mais em ajudar a combater os incêndios na Austrália do que, propriamente, a ganhar nos courts, a perceção pública de Nick Kyrgios parece estar a mudar

Diogo Pombo

Matt King/Getty

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Está tacitamente implícito, há todo um manual de regras não escritas, que o ténis é lugar de restrição cavalheiresca, desportivismo inabalável e contenção para quem o praticar a sério, aos olhos do mundo, nos grandes torneios - abafem-se os espasmos de personalidade no court, aceitem-se os desaires, sejamos todos robótico nas reações e comedidos quando desagradados.

E, depois, apareceu Nick Kyrgios.

Sucessor não hereditário de tipos como Ilie Nastase, Jimmy Connors ou John McEnroe, a resposta da segunda década deste século aos exemplos refiladores, quebradores de raquetes, por vezes insultuosos e a todo o tempo desafiantes da ordem tenística, que foram o romeno e os dois americanos.

Cheio de pimenta na língua e malaguetas no comportamento, Kyrgios conseguiu, aos poucos, tornar o temperamento mais conhecido que a habilidade de raquete na mão que, ainda há dois dias, Roger Federer resumiu com autoridade: “O Nick não precisa de melhorar muito no seu jogo, ele sabe que pode ganhar a toda a gente. Tem a direita, a esquerda, o serviço e tudo mais”.

Por simpático e cordial que o suíço seja, contudo, a mencionar o lado obscuro de Kyrgios - “com o Nick, sabemos que o problema está noutro sítio, na sua cabeça” -, essa faceta engolia tudo o resto que o australiano fizesse.

Recapitulando: só em 2019, Kyrgios foi suspenso por quatro e multado pela ATP em 25 mil euros devido a “um padrão de comportamento de ofensas verbais” e antes já ficara com 103 mil euros a menos na conta, no Masters de Cincinnati, por motivos semelhantes.

Desfigurou raquetes, partiu cadeiras, cuspiu para o chão do court, discutiu com árbitros, mandou calar o público, motivou Nadal etiquetar-lhe a expressão “falta de respeito”, disse que Djokovic tem “uma obsessão doentia por ser adorado”; todas estas peripécias, fora outras mais, em cima da reputação de um tenista ultra talentoso que já disse, várias vezes, preferir o basquetebol ao ténis e não estar muito aí para treinar, ser metódico, regrado e, enfim, profissional.

Matt King/Getty

Chamar-lhe bad boy, ou o feio entre os patinhos, foi-se tornando redundante com a armadura de excentricidade que Nick Kyrgios tapou o resto que leva dentro. Mas, no arranque deste ano, com a Austrália a arder em frentes de fogo maiores do que a área de Portugal Continental, pelo menos 24 pessoas a perderem a vida e mais de meio milhão de animais a morrerem, o tenista tomou a iniciativa.

No início do ATP Cup, prometeu doar 200 dólares australianos (quase 125 euros) por cada ás que consiga nos torneios deste verão, no hemisfério sul. Kyrgios deu o exemplo que, sem demoras, foi replicado por tenistas como Alex de Minaur e John Millman, também australianos, muitos outros e eventualmente pela ATP Cup, a prova de seleções que terminou no domingo, em Sydney, onde ele muito jogou para ajudar a Austrália até às meias-finais.

E a energia à volta dele mudou.

Aplausos, incentivos, êxtase coletivo e gritos de apoio nos segundos de silêncio e suspense, entre pontos. Kyrgios foi ouvinte e alvo do tipo de elogios sonoros que antes, nem mesmo em torneios caseiros, era costume receber. A perceção pública do tenista transfigurou-se pelo que ele é enquanto pessoa. “Honestamente, não me importo com o apoio, nem com o que os media dizem. Faço isto porque, genuinamente, me preocupo”, resumiu o tenista, já em conferência de imprensa para o Open da Austrália, que começa na segunda-feira.

O mau rapaz está a ser visto como bom, mesmo que a realidade subjetiva de quem o vê possa, jamais, ter correspondido ao que ele, objetivamente, será. “Lentamente, as pessoas estão a começar a ver quem o Nick é e quais são as suas verdadeiras intenções”, opinou ao “Sydney Morning Herald” o irmão, Christos que gere com a mãe a NK, fundação criada pelo tenista, “Infelizmente, a perceção pública afeta os donativos”.

Nick Kyrgios nunca vestiu a capa de herói do ténis australiano, nem foi o depósito de todas as esperanças e figas feitas por conterrâneos; porém, neste Open da Austrália, em parte também devido à lesão de Alex de Minaur, e à evidência de ser o tenista do país com melhor ranking (24.º), ele deverá ser o adorado - ou o alvo do afeto mais próximo a esse sentimento.

A cabeça de Kyrgios “estará noutro sítio”, já explicou, escrevendo, que nem vai “estar a pensar muito em resultados”. E a mudança parece ter começado aí.