Tribuna Expresso

Perfil

Ténis

Federer e Nadal, os comparsas a puxarem pela união entre homens e mulheres no ténis

Os dois lendários tenistas que, entre eles, partilham 39 torneios do Grand Slam, fizeram mais uma demonstração pública de amizade esta semana, alinhando-se na opinião de que a ATP e a WTA, entidades que regem os circuitos masculino e feminino de ténis, se deviam unir

Diogo Pombo

Julian Finney/Getty

Partilhar

Ser genialmente majestoso a bater na bola com uma raquete e direcioná-la, nos mais variados jeitos e feitios, para onde lhe der na real gana, não significa que alguém terá a mesma capacidade para ser incrível a executar outras coisas nesta vida, mesmo que sejam rudimentares quando comparadas.

Há dias, o mítico e ainda bem no ativo Rafael Nadal, para quem o ténis não esconde segredos, estava com o telemóvel esperto à frente da cara e mais de 44 mil pessoas a rirem-se não dele, mas com ele, pela incapacidade demonstrada para incluir um amigo na conversa virtual, via Instagram. Ao fim de não sei quantas tentativas e de toda a gente a olhar para os olhos compenetrados de Nadal, eis que a cara invade o ecrã de rompante.

Era o surpreso Roger Federer, com as suas feições estupefactas, a perguntar "já estamos?" enquanto o espanhol suspirava um "finalmente".

À gargalhada que ambos soltaram seguiram-se sorrisos para a câmara, a animação da cavaqueira e a conversa sobre como estavam as famílias, o que têm feito e como estão a lidar com o confinamento. Foi uma mini-tertúlia entre os dois mais titulados tenistas da história e caras da maior rivalidade que o ténis já teve, que em nada invalida o que, sobretudo recentemente, têm vindo a demonstrar - o facto de serem amigos.

Ora, antes da crise de covid-19 os confinar em casa, já iam trocando umas piadas nas redes sociais e até partilhando os courts. Em setembro do ano passado, na Laver Cup, torneio criado por Federer, jogaram e treinaram na mesma equipa. Em fevereiro, defrontaram-se na Cidade do Cabo, África do Sul, onde bateram o recorde para o encontro visto por mais gente ao vivo (51.954 pessoas) na história do ténis. Sempre com sorrisos e trejeitos de amigalhaços à mistura.

Depois de tudo isto, e de as organizações que mandam no ténis anunciarem a criação de um fundo de apoio aos jogadores mais afetados pela crise, o por norma contido Roger Federer foi ao Twitter deixar uma pergunta no ar: "Estou só a imaginar, mas serei o único a pensar que agora é o momento para os ténis masculino e feminino se unirem e juntarem num só?".

Julian Finney/Getty

Ficando a pairar, a questão foi respondida por muita gente e o suíço ainda se preocupou em corresponder a três pessoas, polvilhando mais um pouco da sua opinião sobre o assunto.

Federer acha que a junção da ATP e WTA "provavelmente já deveria ter acontecido há muito tempo". Considera "demasiado confuso para os adeptos" que haja "sistemas de ranking, logos, websites e categorias de torneio diferentes". Pensa que há a hipótese de o ténis sair destes tempos "difíceis para qualquer desporto" com "um organismo forte em vez de duas entidades enfraquecidas".

Uma das respostas veio de Rafael Nadal, que teclou educadamente para dizer que, "tal como" Federer sabe "pelas discussões" que tiveram, o espanhol "concorda completamente que seria ótimo sair desta crise global com a união do ténis masculino e feminino numa só organização". Com direito a 🎾👍🏻 e tudo.

A mais recente prova de consonância entre os amigos que partilham 39 torneios do Grand Slam conquistados e cuja voz é capaz de mover muitas vontades no ténis recebeu logo o apoio de alguns outros nomes da modalidade. Billie Jean King foi das primeiras a responder. "Concordo e digo o mesmo desde os anos 70. Uma voz, homens e mulheres unidos, sempre foi a minha visão. A WTA sozinha é um plano B. Fico feliz por concordarmos", escreveu a americana, ganhadora de 12 majors.

Outras mulheres reagiram à opinião do suíço. Simona Halep, número dois do ranking feminino e vencedora de Wimbledon e Roland Garros, garantiu que Federer "não é o único" a pensar assim. Rennae Stubbs, australiana que se retirou com sete Grand Slams na bagagem, disse "concordar a 100%", defendendo que "o ténis precisa de um só circuito" e que "ambos seriam mais fortes juntos".

Lá para o meio, houve o simples "sim" do sempre ilegível Nick Kyrgios, que não esclareceu se a palavra era em resposta direta à pergunta de Roger Federer, nesse caso discordando da opinião do suíço, ou se concorda com a posição e o termo único serviu para o anuir. Há coisas que nem a amizade entre duas lendas ajuda a esclarecer.