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"Ninguém vai passar fome". Dominic Thiem não vai contribuir para o fundo de ajuda aos tenistas

Há cerca de duas semanas, Novak Djokovic propôs um sistema de contribuição proporcional ao lugar que ocupam no ranking, para que os tenistas que mais dinheiro ganharam com prémios de jogo ajudarem quem está fora do top 100. Dominic Thiem, número três do mundo, não concorda com o sistema, porque não acredita que "alguém esteja a lutar para sobreviver" e prefere "dar dinheiro a pessoas ou organizações que realmente necessitem"

Diogo Pombo

PHILIPPE LOPEZ/Getty

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Dominic Thiem é austríaco, um valente de um tenista e dos que está imediatamente abaixo dos trintões que vão prolongando o trinómio mais vencedor que já se viu no ténis. Por arrasto, eles vão estendendo no tempo o facto de estar no degrau inferior ser o equivalente, ainda, a ter uma montanha no meio. Thiem já esteve perto, mas nunca ganhou um torneio do Grand Slam, enquanto Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic contam 56 conquistados em conjunto.

Não que, entre os três, haja uma amizade comum e profunda, mas, há coisa de uma semana, todos se uniram no apoio à criação de um fundo de apoio aos tenistas do ranking mundial com menos meios e posses, que é como quem diz dinheiro. A ideia veio de Djokovic, que propôs um sistema no qual todos os jogadores do top 100 contribuíssem proporcionalmente com dinheiro, mediante a posição que ocupam. Pouco depois, a ATP anunciariam a criação do fundo.

Por esta ordem de ideias, Thiem, que é o atual terceiro melhor do ranking, seria dos que mais contribuiria para ajudar quem compete nas periferias dos torneios mais badalados e faz por ir juntando as migalhas dos prémios de jogo, que são o maior ganha pão dos tenistas. Mas o austríaco não concorda com o sistema idealizado por Djokovic e que tem sido respaldado pela maioria dos jogadores mais populares do circuito.

Disse Thiem, em entrevista ao jornal "Krone", que "nenhum tenista está a lutar para sobreviver", nem mesmo "os que estão muito mais abaixo" no ranking. "Ninguém vai passar fome. Não vejo porque deveria dar dinheiro a esses jogadores. Prefiro dar dinheiro a pessoas ou instituições que realmente necessitam", reforçou.

Thiem, de 26 anos, argumentou que "há muitos jogadores que não colocam o ténis acima de tudo o resto" e "não vivem de forma profissional". Garantiu que "nenhum dos jogadores top" teve a vida facilitada no ténis - "ninguém nos entregou nada, tivemos de lutar para ir subindo" - e resumiu que "não há uma profissão que dê garantias de que vai correr bem e que vais ganhar muito dinheiro".

Só esta temporada, o austríaco amealhou pouco mais de 1.6 milhões de euros nos três torneios em que participou (ATP Cup, em Brisbane, Open da Austrália, em Melbourne, e Rio Open, no Brasil) até meio de março, altura em que a pandemia de covid-19 paralisou o desporto.

Por comparação, durante esses cerca de três meses de época, Federer jogou apenas no Open da Austrália e acumulou cerca de 658 mil euros, Nadal recebeu 1,2 milhões de euros entre a ATP Cup, o Open da Austrália e o Open do México, e Djokovic acumulou à volta de 4 milhões, muito por ter vencido o primeiro Grand Slam da época, fora a participação também na ATP Cup e no Open do Dubai.

Apenas um dos semi-deuses do ténis recebeu mais em prémios de jogo do que Dominic Thiem, precisamente por lhe ter ganhado na final de Melbourne, em janeiro. O austríaco, contudo, não foi o único a criticar o fundo de ajuda a jogadores.

John Millman, australiano que ocupa a 43.ª posição do ranking, questionou a demora em haver uma preocupação comum com os tenistas que estão entre os lugares 250 e 700. "Porque foi preciso haver uma pandemia global para nos apercebermos disto? Seguramente, ao longo dos anos em que os prémios de jogo para quem está lá em cima poderiam ter sido distribuídos um pouco melhor...", escreveu, no Twitter, apesar de não mencionar qualquer recuso em contribuir para o fundo.

Depois, houve quem tenha de olhar bem para cima para avistar Thiem no ranking e vindo criticar as palavras do austríaco, como Dustin Brown, o dono das baloiçantes rastas, que costuma dar um ar de si nos torneios de relva. "Em 2004, quando comecei, vivia numa autocaravana, a sobreviver de semana a semana com dinheiro que ia ganhando", recorda, dando conta que "perder à primeira ronda de um torneio com um prémio de jogo de 10 mil dólares" era o equivalente a receber 117,50, menos impostos.

Brown recorda que "encordoava as raquetes" de outros tenistas "a troco de cinco dólares", para amealhar mais algum dinheiro. "Se a pandemia e o congelamento do ténis tivesse acontecido nessa altura, ter-me-ia custado a carreira", resumiu, também no Twitter, o alemão com ascendência jamaicana que é o 239.º tenista do ranking.