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“O vírus foi duro comigo. Passei 5 mil horas sozinho. Tenho sorte por estar em campo”: Dimitrov teve covid-19 e já compete, mas não está bem

O búlgaro, atual número 19 do ranking mundial, jogou pela primeira vez ténis após ser infetado com covid-19, mas admitiu que ainda não é capaz de competir ao mais alto nível. Grigor Dimitrov, de 29 anos, confessou até que já não leva "cada dia como garantido"

Diogo Pombo

Srdjan Stevanovic/Getty

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Descrevê-lo como uma rebaldaria será, talvez, um quanto exagerado, mas o Adria Tour que Novak Djokovic organizou, em junho, com a ajuda do irmão mais novo e de Goran Ivanisevic, foi com certeza um desastre em termos pandémicos: realizaram-se duas das três etapas da prova, em Belgrado (Sérvia) e Zadar (Croácia), houve público nas bancadas a assistir aos jogos, sessões de autógrafos com pessoas a jorrarem pedidos, jogos de exibição de basquetebol e futebol e festas fora de horas.

Houve um desleixo generalizado na prova que se concentrou nos Balcãs e o resultado desastroso acabou em Viktor Troicki, Borna Coric, o próprio Djokovic e Grigor Dimitrov, os quatro jogadores que ficaram infetados com covid-19 no torneio que, diria o sérvio contrariador de vacinas, foi organizado "com um coração puro e intenções sinceras" para "passar uma mensagem de solidariedade e compaixão".

O búlgaro Dimitrov, como os outros, exilou-se em quarentena, fechou-se em casa "durante 20 dias", largou o ténis e os treinos e sentiu a perda de olfato. Ficou sem paladar, sentiu dores, "não conseguia respirar bem" e "de repente sentia que precisava de desligar o corpo". A matemática deu-lhe cerca de "5.000 horas sozinho", a matutar para os botões e a não evitar que à cabeça lhe chegassem coisas indesejáveis: "Não importa o quão mentalmente forte és, enquanto pessoa ou atleta, é inevitável que tenhas maus pensamentos na cabeça".

Sabemo-lo porque Dimitrov, mais de um mês após testar positivo pelo bicho mais falado atualmente, reapareceu no Ultimate Tennis Showdown (UTS), torneio de exibição organizado por Patrick Mouratoglou (treinador do búlgaro), em Nice, França, onde o tenista perdeu de rompante com Richard Gasquet e Feliciano Lopez. No final, deu uma entrevista ao site "Tennis Majors" e admitiu que ainda não está preparado "para jogar ténis ao alto nível".

Garante que não tem "vergonha em dizê-lo". Dimitrov apenas treinou durante "uma semana ou 10 dias" antes deste regresso aos courts. Não é capaz de "controlar as pancadas da melhor forma", nota que "o movimento [em campo] está a melhorar", mas tem de "passar horas a trabalhar na forma física".

O UTS nem seria a melhor das provas dos nove para testar o quão débil estaria devido à doença - o torneio impõe apenas 15 segundos de descanso entre os pontos (o normal são 20) e permite coaching (o treinador ter contacto com o jogador, a meio do encontro), o que pode quebrar o ritmo quando, por fim, os tenistas o conseguem engatilhar.

Não sabe se conseguirá participar no US Open, com início a 31 de agosto, desconhece se aguentará "submeter o corpo a um rigoroso regime de treino" até lá. "Vou vendo onde está a minha forma física e não podemos esquecer que a quarentena será uma grande questão para toda a gente. Há muitas perguntas e poucas respostas neste momento", explicou, sem desvendar certezas. Grigor Dimitrov revelou que "já não [leva] cada dia como garantido" - "tenho sorte por estar no court".

  • O Djoker agora é uma anedota

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    Nos primeiros anos no circuito, Novak Djokovic era o folião, o miúdo que imitava na perfeição os seus colegas e fazia rir toda a gente. Nos últimos anos, e em particular nesta quarentena, conhecemos o lado lunar do sérvio, que diz não acreditar na vacinação e que promove pseudocientistas nas suas redes sociais. A organização do Adria Tour foi uma espécie de tempestade perfeita: um torneio de exibição com público, sem distanciamento social, com os tenistas a conviverem em discotecas e jogos de futebol e basquetebol. Resultado: uma debacle com já quatro casos de covid-19 entre os atletas, o último dos quais, o próprio Djokovic, que sai desta crise com a reputação em baixa