Tribuna Expresso

Perfil

Ténis

Rafael Nadal não é um nome, uma cara ou um número - é uma lenda

Destroçando Djokovic em três sets (6-0, 6-2 e 7-5), Rafa igualou Roger Federer (20 torneios Grand Slam), na sua 100.ª vitória em Roland Garros, torneio que conquistou pela 13.ª vez

Pedro Candeias

MARTIN BUREAU

Partilhar

Um Roland Garros disputado em outubro e no meio de uma pandemia seria sempre uma coisa diferente. A humidade e o frio seriam maiores, o que tornaria o piso mais esponjoso e menos permeável aos top spinners, porque a bola ressalta menos nestas circunstâncias; ainda por cima esta bola, que é de um novo patrocinador e tem um peso ligeiramente superior.

Por outro lado, a ausência de público retiraria alguma carga dramática à questão, mesmo que o torneio viesse a ser decidido entre dois dos três melhores tenistas da história.

O que acabou por acontecer.

Rafael Nadal e Novak Djokovic encontraram-se pela 51.ª vez para discutir Roland Garros num contexto que, à partida, favorecia o sérvio, porque nunca é o favorito dos fãs e porque este pó-de-tijolo não estaria nas condições ótimas para o espanhol.

Depois, claro, Djokovic era o único no planeta que conseguia derrotar Nadal em terra batida com alguma consistência (sete triunfos), tinha um pequeno ascendente sobre o maiorquino no um-contra-um (29 - 26) e ainda não perdera realmente um encontro em 2020 (a desqualificação no Open dos EUA fora uma derrota na secretaria).

Só que Nadal é Nadal, um exercício prático da teoria do mindfulness, uma técnica de concentração da qual Djokovic até se diz adepto. Quem a domina está aparentemente sempre a viver o presente, o que dá um jeitaço quando se joga um jogo cujo objetivo é bater a bola como se fosse ao mesmo tempo a primeira e a última vez que o fizesse.

Portanto, Nadal entrou no Philippe Chartrier e para trás ficaram os encontros com Gaston e com Sinner, e a distância sanitária que o fez sentir-se desacompanhado sem a outrora sempre presente família. O que interessava estava à sua frente, do outro lado de uma rede, e era um adversário que o forçara a reinventar-se em ocasiões anteriores.

E partiu.

Perante um Djokovic estranhamente envergonhado e demasiado preso a um plano de jogo - vários drop shots que bateram na tela ou fora das linhas - Nadal impôs-se rapidamente, errando pouco e disparando certeiro. O primeiro set durou pouco, muito pouco, aliás, e ficou 6-0; o sérvio apenas ganharia um jogo já no minuto 55 da final, no segundo set, que ficou 6-2, acentuando um ascendente inesperado do poderoso esquerdino. No terceiro set, Djokovic respondeu a um break point com outro break point, igualou o parcial a 3-3, soltou um grito de revolta, venceu convincentemente o jogo seguinte e ganhou esperança.

Talvez, talvez fosse possível dar a volta a um tipo que não admite reviravoltas.

Só que a história diz-nos que Nadal só se afunda quando o corpo cede irreparavelmente; estando bem, é como atirar uma bola à parede - esta acabará sempre por devolvê-la. Então, quando o encontro entrou na fase decisiva, Nadal quebrou o serviço ao errático Djokovic - acabou a final com 52 erros não forçados - e fechou a conta com 7-5.

Desta forma, igualou Roger Federer (20 torneios Grand Slam), na sua 100.ª vitória em Roland Garros, torneio que conquistou pela 13.ª vez. Não é um número, é uma lenda. Disse ele: “Honestamente, este não é o momento para pensar nos números, em Roger Federer. Isto é apenas um triunfo em Roland Garros, que me diz muito. Isto é uma história de amor que tenha com esta cidade e com este court”.

Sempre no presente.