Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Ténis

O Open da Austrália dentro de um quarto de hotel: 72 tenistas têm de estar confinados até oito dias antes do torneio

Cerca de 25% dos tenistas que vão participar no Open da Austrália, em Melbourne, estão a cumprir duas semanas de isolamento em quartos de hotel, incluindo o português Frederico Silva. Muitos já se queixaram da falta de condições para treino e do perigo de contraírem lesões por, depois do confinamento, terem apenas 8 dias para treinarem em court, sem restrições até ao arranque do primeiro Grand Slam da temporada, a 8 de fevereiro

Diogo Pombo

Bernard Tomic, equipado e de raquete na mão, fotografado dentro do seu quarto de hotel, em Melbourne

WILLIAM WEST/Getty

Partilhar

O chão alcatifado está marcado com fita branca, são várias linhas retas a indicar onde os pés de Belinda Bencic devem pisar, à vez. De momento a suíça ignora as marcas, mas mexe os pés, uns pequenos passinhos de cada vez, virada para a janela de vidro do seu quarto de hotel e com as duas mãos a segurarem a pega da raquete.

A número 12 do ranking WTA bate uma bola na direção de um de três retângulos colados do vidro, com fita amarela, a bola vai e vem num segundo, Bencic está restrita a nem duas dezenas de metros quadrados mas faz o que pode para se mexer e o possível, no caso, é forçar o ricochete com a parede transparente que mostra o skyline de Melbourne ao fundo.

A alcatifa também é pisada por Pablo Cuevas, no seu quarto o argentino decidiu pegar num colchão, verticalizá-lo e enconstá-lo à parede para bater pancadas de esquerda contra o alvo almofadado. A bola é amortecida e regressa mansa na direção da raquete do 70.º melhor tenista do mundo, que lhe responde sempre com uma esquerda desenvergonhada na força.

O uruguaio e a suíça estão fechados em quartos de hotel em Melbourne, confinados e a cumprirem um isolamento de 14 dias. São exemplos dos 72 tenistas que estão em confinamento por terem aterrado na Austrália nos mesmos três charters (dois no sábado, o outro no domingo) que, entre os passageiros ou tripulação, tiveram quatro pessoas a testarem positivo por covid-19.

Ao todo, 17 voos levaram cerca de 370 tenistas para a Austrália de modo a participarem no primeiro torneio do Grand Slam do ano, escreve o "The Guardian".

Portanto, logo à chegada, esses 72 tenistas tiveram que entrar num período de confinamento do qual apenas poderão sair a 31 de janeiro - oito dias antes do arranque do Open da Austrália.

Frederico Silva, um dos três portugueses no quadro principal do Grand Slam, confirmou ao "Raquetc" que é um dos visados. Ao mesmo site, Pedro Sousa revelou que teve autorização do torneio para começar a treinar em court na segunda-feira. Quanto a João Sousa, não se sabe se chegou a viajar para a Austrália: no sexta-feira, anunciou ao jornal "O Jogo" que ainda não o tinha feito devido a problemas pessoais.

Os jogadores ficarem duas semanas de quarentena já era o esperado devido às restrições impostas pelo governo australiano, logo, o plano da Tennis Australia, organizadora do torneio, era criar uma bolha dentro da bolha para que houvesse condições que permitissem a cada tenista ter cinco horas de treino diário (court, ginásio, etc.), durante esse período. Mas, tendo tantos tenistas partilhado esses espaços fechados com asas - vindos de Los Angeles, nos EUA, e de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos - com os quatro casos positivos detetados até este domingo, os problemas começaram.

Estando confinados a um quarto de hotel, alguns e algumas tenistas recorreram às redes sociais para se queixarem da falta de condições de treino e de alegadas informações contraditórias que a Tennis Australia lhes enviou, antes de viajarem para a Austrália.

Alizé Cornet escreveu, no Twitter, que "os riscos de lesão após uma pausa de duas semanas são enormes". A francesa não é uma das jogadoras a cumprir isolamento restrito ao quarto de hotel, mas, noutra publicação - que entretanto apagou e para a qual pediu desculpas - deixou um desabafo: "Semanas e semanas de treino e trabalho duro a serem desperdiçadas porque uma pessoa testou positivo num avião 3/4 vazio. Desculpem, mas isto é de loucos".

BRENTON EDWARDS/Getty

Houve também relatos de que um dos tenistas a cumprir o confinamento no hotel terá "infringido as regras", segundo o "Sydney Morning Herald", abrindo a porta do quarto para falar com alguém que estava no corredor.

Sorana Cirstea, romena está na 71.ª posição do ranking WTA, confessou não ter problemas em "ficar 14 dias no quarto a ver Netflix, acreditem, é um sonho tornado realidade, até são férias", mas foi uma das jogadores a reforçar um alerta: "O que não podemos fazer é COMPETIR depois de ficarmos 14 dias no sofá. A questão está aí, não na regra da quarentena".

Outra das queixas de grande parte dos ou das jogadores que criticaram, publicamente, a organização do Grand Slam, aponta às diferenças de tratamento entre tenistas, porque apesar da maioria estar hospedada em Melbourne, nomes como Rafael Nadal, Dominic Thiem, Serena Williams ou Novak Djokovic estão em Adelaide, a mais de 700 quilómetros a oeste, com condições mais generosas (onde vão disputar um torneio de exibição antes do Open da Austrália).

O "Punto de Break", contudo, noticiou que o número um do ranking masculino terá enviado um e-mail a Craig Tiley, diretor da Tennis Australia, apelando a que sejam garantidas melhores e iguais condições para todos os jogadores com participação garantida no Grand Slam - e especialmente quem esteja em isolamento no quarto de hotel.

Na lista de pedidos do sérvio, entre outros, terá estado o fornecimento de material de treino para todos os tenistas, permissão para que possam ter contacto com o treinador ou preparador físico e o aumento do número de testes a realizar a cada jogador para que, em caso de resultados negativos sucessivos, se possa encurtar a duração do período de quarentena.