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Nick Krygios, afinal, sente o ténis. Porque odeia perder

O australiano já partiu raquetes, mandou calar adeptos, perdeu pontos de propósito e até admitiu preferir a NBA ao ténis, mas talvez tenha mudado: Stefanos Tsitsipas contou que "ficou em choque" quando perdeu, em pares, com Krygios e o viu a ficar "frustrado e desiludido" com a derrota

Diogo Pombo, enviado ao Euro 2020

Graham Denholm

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A reputação tem o ADN do cimento, quando seca em alguém vai prolongar a sua estadia até sabe-se lá quando e Nick Kryrgios construiu a sua, às vezes a culpa nasce noutros códigos postais mas, no caso do australiano, é inteiramente solteira e assim deverá morrer por ter sido quase sempre ele, só ele, a vender-se como o ténis o tem hoje.

Nick Kyrgios é pirralho excêntrico e extravagante que levanta o braço e diz presente na sala de aula onde o ténis apregoa um código de conduta, passado entre gerações, para encarrilar quem faz carreira de raquete na mão nos eixos do desportivismo, do cavalheirismo, de uma espécie de bom perdedismo e, para sermos basilares, da contenção.

Com os seus 25 anos, o talentoso australiano sempre teve as suas fundações em tudo quanto é contrário a isto: já partiu raquetes e cadeiras e barafustou com árbitros; mandou calar adeptos; deixou de disputar bolas e perdeu pontos propositadamente, por estar farto ou aborrecido; admitiu preferir jogar e ver NBA do que ténis; confessou distrair-se a meio de um jogo com "uma miúda gira" na bancada e até chegou a pedir a um árbitro para acabar o jogo porque queria "ir para casa".

Houve alguns antes dele, mas Krygios é o atual epítome de bad boy do ténis, um descarado encolher de ombros para quem possa ter uma opinião sobre como ele deveria ser, ou fazer com a carreira. Porque toda a gente na modalidade dirá ou já opinou sobre o australiano e agora foi Stefanos Tsitsipas.

O grego, também ele um tenista devedor do que é convencional - filosofa frequentemente nas respostas que dá, tem um vlog no YouTube para divagar sobre os lugares onde pára, mantém um pseudónimo no Instagram com o registo fotográfico das suas viagens e até já produz canções -, foi convidado para o podcast "No Challenges Remaining", no qual lhe perguntaram sobre Krygios.

The Washington Post

E entre andar às aranhas com a noção temporal dos dias por ser um de muitos tenistas que, antes do Open da Austrália, estão confinados a um quarto de hotel, Tsitsipas recordou a vez em que competiu em pares com Krygios, em 2019, no Citi Open, em Washington.

Quando foram eliminados do torneio, contou Tsitsipas, o australiano "estava tão desiludido" e "tão frustrado" que o grego ficou "em choque" e assim o círculo volta à reputação - ele não esperava que o australiano se importasse assim tanto com uma derrota. "Não pensei que fosse reagir assim", disse.

Nick Kyrgios sentiu a derrota, perder mexeu-lhe com as entranhas e importou-se com o insucesso no court. Foi um tenista tocado pela competição e o não ganhar, coisas contrárias à reputação que foi colando a si próprio.

Ele é "hiperativo" e "odeia, mas odeia perder".

Stefanos Tsitsipas, atual número seis do ranking ATP, resumiu depois que Krygios, 47.º classificado, "é a ovelha negra" do circuito, gosta de fazer "coisas imprevisíveis" e de "ter atenção" e "não há nada de errado" em assim. Que há "pessoas que adoram isso, outras que odeiam" e que o ténis "precisa" de jogadores como o australiano: que sejam "entretenimento, divertimento e tenham algo único".

O grego "não diria" que mantêm uma amizade muito próxima, é a suficiente para, às vezes, o australiano "lhe ligar" a "horas completamente aleatórias, tipo à 1h da manhã".

Mas está tudo bem, disse, como bem está Nick Kryrgios a ser como é, desde que, lembrou Tsitsipas, "não falte ao respeito". Enquanto estiver "a respeitar totalmente o jogo" e "fizer as coisas de forma correta", é "muito divertido" ver o australiano no ténis e a jogar ténis.

E, pelos vistos, a importar-se com o ténis.