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Quem és tu e de onde vieste, Aslan Karatsev?

Nos últimos 50 anos, nunca um tenista chegara às meias-finais no seu torneio de estreia em Grand Slams. Aslan Karatsev é russo, veio da fase do qualifying e, até ao Open da Austrália, tinha uma percentagem de vitória na carreira de 23%. Vai defrontar Novak Djokovic (quinta-feira, 8h30, Eurosport) e tem na equipa um preparador físico português

Diogo Pombo

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Perdão, não leve a mal, a forma como se olha para o desporto e as histórias que tem dentro é focar nos exímios, nos sublimes e nos cronicamente excelsos que, mais do que perderem pouco, neles têm a proeza de ganhar quase sempre, ganhando durante muito tempo, e isso ofusca, influencia a escolha de onde colocar a mira da pá que vai escavar coisas sobre os desportistas, neste caso os tenistas, por isso, perdão.

A pergunta, mais direta e concisa e feita na sala de imprensa em Melbourne, não teve esta introdução, nem sequer qualquer malícia quando um jornalista, candidamente, alertou que “não queria faltar ao respeito” antes de questionar Aslan Karatsev: “Mas, quem és tu e de onde vieste? Sabemos tão pouco sobre ti, se puderes, conta-nos coisas”.

Foi um pedaço de inusitado, outro mais, porque anormal é um tenista acabar de chegar às meias-finais do Open da Austrália, ser portanto um dos quatro melhores do Grand Slam, e quase tudo o que se conhece dele, para quem não tem lupa posta no ténis, são os triviais dados da sua ficha de identificação e o que fez na última semana e meia: cinco jogos ganhos, com apenas três sets cedidos pelo meio, para quem nunca tinha sequer jogado num dos quatro torneios do Grand Slam.

Olhar para Aslan Karatsev não chega.

Ele é russo, vive há 27 anos e bate a esquerda a duas mãos; tem as barrigas das pernas musculadas, dois troncos inchados nos quais assenta o jogo que mantém poderoso ao fundo do court; joga de boné com pala virada para a frente, a sombrear um olhar entre o bucólico e aborrecido, como se nada realmente o possa afrontar.

Ouvi-lo, simplesmente, também não.

Em cada intervenção a que é obrigado em campo, após cada vitória, seguida da presença na conferência de imprensa, Karatsev distribui respostas curtas. É pouco expansivo, nota-se que gosta da sua oratória servida em pequenas doses e bem passada, fica-se estritamente pelo que lhe perguntam e pouco ou nada desenvolve. “Estarei pronto para quem for”, disse, apenas, quando quiseram saber quem preferia defrontar nos quartos-de-final em que acabaria por vencer o búlgaro Grigor Dimitrov.

PAUL CROCK/Getty

Por isso surgiu a tal pergunta, do tal jornalista, para tentar pôr Karatsev a rebobinar um pouco a sua cassete e o russo saciou a curiosidade.

Desbobinou-se, contou como nasceu na Rússia e com três anos se mudou com a família para Israel, onde começou a jogar ténis, lá treinando até aos 12, quando regressou à pátria com o pai. Encontrou um patrocinador em Rostov, cidade que trocou por Moscovo, já com 18 anos, onde começou a trabalhar com Dmitri Tursunov, antigo jogador que o ajudou a mudar-se para Halle, na Alemanha. Mudar-se-ia ainda para Barcelona, antes de assentar em Kiev, nos últimos três anos.

Até que suspirou, “diria que estava a mudar de sítio em demasia”, esboçou um esgar de sorriso possível e deu a entender que hoje tem estabilidade por ter como treinador Yahor Yatsyk, um ex-tenista bielorrusso com quem partilha a idade. Depois, soltou que na equipa “também há um preparador físico, o Luís”, que é português.

É Luís Lopes e vive em Doha, no Qatar, onde conheceu Karatsev em dezembro de 2019 quando o russo lá esteve a competir em torneios Challenger, como contou ao “Raquetc”. O português é Head Fitness Coach da federação local e, no mês passado, viu de perto o russo a vencer os três jogos do qualifying (realizado no país do Médio Oriente devido às restrições de viagem causados pela pandemia) que lhe deram acesso ao quadro principal do Open da Austrália.

Aslan Karatsev tem mostrado em Melbourne o que o preparador físico explicou ao mesmo site. “Durante a pré-temporada, procurámos potenciar a capacidade de resistência dele para que possa enfrentar da melhor forma possível todos os desafios. Fez uma pré-temporada muito boa em dezembro e já tinha feito uma preparação muito boa durante o confinamento”, garantiu.

Em agosto, quando a ATP retomou o circuito, o russo era o 253.º classificado do ranking. Nesse mês, chegou à final de três torneios Challenger na República Checa e conquistou dois. Em novembro, alcançou os oitavos-de-final do ATP 500 de Sófia, na Bulgária, e jogou até às meias-finais de outro Challenger, este em Itália. Estava em ímpeto ascendente, a crescer, a preparar-se para tudo isto.

DAVID GRAY/Getty

Já estava no 114.º lugar quando começou a bater bolas em Melbourne, a arranhar a porta do top 100 que pretendia abrir este ano, a mesma que vai escancarar quando sair da Austrália. Perca ou ganhe nas meias-finais, Karatsev deverá ficar entre os 40 melhores tenistas da hierarquia. E se chegar à final? “Estou a tentar desfrutar do momento, sem pensar muito nisso”, resumiu, outra vez lacónico.

Do outro lado da rede terá Novak Djokovic, colosso sérvio que nunca vira o russo jogar antes deste Grand Slam, impressionado por admissão com o que Karatsev tem feito: “É um tipo muito forte, movimenta-se bem, tem bastante poder de fogo no fundo do court e uma grande esquerda. [Tem] a escola de ténis russa”. Além de Aslan, também Daniil Medvedev está entre os quatro melhores do torneio, tendo batido outro russo, Andrei Rublev, para agora ir defrontar o grego Stefanos Tsitsipas.

A história que vira páginas é a de Aslan Karatsev, o mais velho dos russos, que é apenas o quinto tenista na história a jogar nesta fase de um Grand Slam tendo vindo da fase do qualifying. Ganhou ao francês Alexander Müller, ao italiano Gianluca Mager, ao bielorrusso Egor Gerasimov, ao argentino Diego Schwartzman, ao canadianos Félix Auger-Aliassime e ao búlgaro Grigor Dimitrov.

É o tipo que nem há seis meses tinha o objetivo de, por fim, estar entre a primeira centena de tenistas do ranking e agora, em semana e meia, já garantiu €549 mil em prize money, mais do que os cerca de €513 mil que amealhou em todo a carreira. Aslan Karatsev é um tenista que perdia muitas vezes - em 2017, chegou a repensar a vida no ténis devido a uma lesão no joelho - e agora está a ganhar como nunca.

O percurso que o russo está a fazer neste Open da Austrália será para historiar mais tarde. "Acha que pode ganhar o torneio?", perguntou-lhe outro jornalista, quando Karatsev garantiu a presença nas meias-finais, dando-lhe a oportunidade para retomar a sua cassete da parcimónia: "Vamos ver. Como poderei dizer isso?".