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Naomi Osaka e Jennifer Brady, uma final entre duas atletas em perfeito controlo de si próprias

Para a norte-americana Brady, é uma estreia em finais de torneios do Grand Slam. Para a japonesa Osaka, pode ser a quarta vitória em tantas outras finais de majors. Entre as duas, pontos em comum: ambas têm grandes direitas e grandes serviços. E ambas estão numa espécie de nirvana competitivo que fará da final feminina do Open da Austrália (sábado, às 8h30, Eurosport1) um duro duelo

Lídia Paralta Gomes

Getty Images/Getty

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Em tempos de pandemia, uma cabeça forte pode ser tão ou mais importante do que uma grande pancada de direita ou um serviço eficaz. E é possível que a fortaleza mental, nunca tão antes num limbo ou em estado de periclitância como nestes últimos meses, possa ter sido um factor essencial na hora de agarrar o maior objetivo de toda e qualquer tenista: chegar a uma final de um torneio de Grand Slam.

Para Jennifer Brady, norte-americana de 25 anos, será uma estreia. Isto, per se, não é exatamente notícia - nos últimos nove torneios do Grand Slam houve sete estreantes na final -, mas a forma como deu a volta a uma adversidade inesperada para caminhar segura até ao jogo decisivo do Open da Austrália, em que vai defrontar Naomi Osaka, este sábado, tornará o feito um pouco mais saboroso.

Porque Jennifer Brady foi uma das tenistas obrigadas a permanecer 14 dias sem sair do hotel em Melbourne antes do início do primeiro torneio do Grand Slam do ano, por ter viajado num dos voos onde foram detetados casos positivos de covid-19 à chegada à Austrália. Sem poder sair do quarto, Brady, apenas 23.ª pré-designada Open da Austrália, não perdeu o foco: ao contrário de outros colegas na mesma situação, dispensou o consumo compulsivo de séries ou os jogos de consola, por se conhecer suficientemente bem para saber que isso iria fazer com que descurasse o treino.

“Depois do isolamento estava renovada mentalmente”, disse a tenista ao “New York Times” já durante o torneio, em contra-ciclo a todas as declarações mais ou menos catastrofistas de outros atletas. Brady assumiu que usou os dias de confinamento para ter a pausa que não conseguiu ter em 2020, usando o tempo para se fortalecer fisicamente, mas principalmente para se preparar a nível mental, mantendo uma atitude positiva ao longo dos 14 dias.

E parece ter resultado na perfeição.

Brady, a festejar um ponto na meia-final contra Karolina Muchova

Brady, a festejar um ponto na meia-final contra Karolina Muchova

TPN/Getty

É claro que os caminhos para se chegar a um qualquer estado de nirvana competitivo são dispares e Jennifer Brady teve o seu, também ele bem particular. Nascida a norte, na Pensilvânia, Brady desceu até à Flórida para treinar na Evert Tennis Academy, da 18 vezes vencedora de torneios do Grand Slam Chris Evert - e foi na Flórida que se cruzou pela primeira vez em torneios juvenis com Naomi Osaka, que também se mudou para o estado em criança.

Em entrevista ao site do WTA, já depois de garantida a primeira final de Grand Slam da carreira, Brady lembrou como em adolescente era tudo menos aquela jogadora de ferro que se vê hoje em court.

“Fartei-me de partir raquetes, atirava-as, uma série de coisas. Quando tinha 13 anos dizia algumas asneiras e o meu treinador chegou a ameaçar expulsar-me do court. Não era bonito. Eu atirava raquetes, chorava, queixava-me, era embaraçoso. Sentia-me mal pela minha mãe quando ela assistia. Ela a apoiar-me e eu a portar-me como uma tonta”, revelou a tenista, que chega à final do Open da Austrália com apenas um título WTA no currículo.

Já mais velha, Brady passou por uma fase de menor confiança no seu jogo e talento, que a levou a nova decisão pouco usual. Inscreveu-se na UCLA, em Los Angeles, com o objetivo de jogar, mas principalmente de tirar um curso e encontrar um trabalho mais convencional no final da formação.

Só que a escolha saiu-lhe melhor que a encomenda: Brady brilhou no tradicionalmente competitivo campeonato universitário de ténis, ajudado a equipa de UCLA a tornar-se campeã nacional em 2014. E a certeza que tinha qualidade ajudou-a a acalmar o seu forte temperamento e a controlar as emoções - hoje será muito difícil ver Brady a fazer voar uma raquete.

Osaka e Brady repetem duelo das meias-finais do US Open 2020

Osaka e Brady repetem duelo das meias-finais do US Open 2020

Al Bello/Getty

As boas indicações dadas no circuito universitário e a tranquilidade recém-conquistada levaram então Brady a assumir o estatuto de profissional, deixado UCLA ao final de dois anos para correr o mundo. Este sábado, quando subir à Rod Laver Arena para enfrentar Naomi Osaka, será a primeira mulher vinda do campeonato universitário norte-americano a chegar a uma final de um torneio do Grand Slam desde Kathy Jordan, no Open da Austrália de 1983.

O mundo pode ser de Osaka

A final entre Osaka e Brady colocará frente a frente duas das jogadoras mais físicas do circuito, donas de direitas poderosas e de serviços fortes. Será apenas o 2.º confronto entre as duas enquanto profissionais, pela 2.ª vez em torneios do Grand Slam: há escassos meses, nas meias-finais do US Open, uma muito favorita Osaka precisou de três sets para bater Brady, que na altura ainda andava pelo top 50 do ranking feminino.

A batalha marcou as duas atletas: para Brady, estava a ali a prova que, sim, tinha calibre para lutar com as melhores nos melhores torneios, algo que confirmou neste Open da Austrália, ainda que durante a caminhada não se tenha cruzado com nenhuma top 10. Já Osaka recorda o jogo como um dos melhores da sua carreira. Na final, o triunfo frente a Victoria Azarenka valeria à japonesa o terceiro título em torneios do Grand Slam em outra tantas finais.

Mas provavelmente foi o primeiro em que se sentiu verdadeiramente feliz.

Naomi Osaka, filha de pai haitiano e mãe nipónica, nascida na cidade que lhe dá nome mas criada desde miúda nos Estados Unidos, explodiu para o mundo na célebre final do US Open de 2018, frente a uma Serena Williams que durante o encontro entrou num feio confronto verbal com o árbitro português Carlos Ramos. Meses depois, ganharia o Open da Austrália. Parecia estar ali uma máquina de ganhar, mas pouco depois do primeiro triunfo em Melbourne, Osaka despediu o treinador Sasha Bajin, o mesmo que a havia levado ao topo do ranking e a duas vitórias em majors. Falou-se em questões de dinheiro: afinal que outra coisa poderia acabar com uma parceria tão bem-sucedida?

A verdade é que para Osaka, ganhar não era tudo. “Nunca poria o sucesso à frente da minha felicidade - para mim isso é o principal. Não vou sacrificar isso só para manter alguém ao meu lado”, justificou Osaka. Em termos pessoais, a relação com Bajin estava longe de ser tão perfeita como no court.

Mais que uma tenista, Osaka caminha para ser um exemplo

Mais que uma tenista, Osaka caminha para ser um exemplo

JASON SZENES/Getty

Depois da ligação de trabalho com Sasha Bajin, Osaka foi uma sombra de si própria em campo. Perdeu na 3.ª ronda em Roland Garros, ao primeiro jogo em Wimbledon e na 4.ª ronda no US Open. Deambulou entre grande jogos e momentos de total ausência.

Até contratar o experiente Wim Fissette, no início de 2020.

Com apenas 40 anos, o belga tem no currículo parcerias com atletas como Kim Clijsters, Simona Halep, Victoria Azarenka ou Angelique Kerber e parece ter ajudado Naomi Osaka a encontrar o equilíbrio e o controlo que antes lhe parecia faltar. A pandemia aproximou-os e durante o US Open Osaka abocanhou o mundo, dentro e fora dos courts. Além de vencer o seu 3.º major, uniu-se aos protestos contra a violência policial nos Estados Unidos, na sequência da morte de George Floyd, e surgiu em cada um dos sete encontros com uma máscara onde se podia ler o nome de um afro-americano morto pela polícia.

As imagens correram o planeta, até porque Osaka, número 3 do ranking WTA, é hoje uma poderosa marca, a atleta feminina mais bem paga do mundo. E quer também ser um exemplo. Ajudou ter encontrado algures em 2020 uma certa paz interior, uma dureza mental que atribui à boa relação que mantém com o treinador.

“Agora expresso os nervos que eu sinto, em vez de enterrar tudo cá dentro e tentar lidar com tudo isso sozinha”, disse numa conferência de imprensa durante o Open da Austrália. “Antes media toda a minha existência dependendo se ganhava ou perdia um jogo. Mas agora não me sinto assim”, reconheceu a tenista de 23 anos.

E é difícil negar que a Osaka que antes parecia ter períodos de total apagamento em certos jogos é por estes dias um poço de força mental. A sua caminhada até à final foi tudo menos fácil: na 4.ª ronda salvou dois match points frente a Garbine Muguruza, nos quartos de final despachou a desconcertante Hsieh Su-wei e nas meias-finais manietou Serena Williams, que surgiu em Melbourne em grande forma, depois de uma entrada em falso.

Agora, pode aumentar para 21 o número de jogos sem perder. É certo que em 2020 pouco se jogou, mas Naomi Osaka não perde em campo desde o início de fevereiro do ano passado. E, talvez mais impressionante, pode repetir o feito de Monica Seles e vencer as quatro primeiras finais em torneios do Grand Slam em que participa.