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Quem ganha quando há dois tenistas que se esmeram se tudo estiver contra eles?

Daniil Medvedev chegou a agradecer ao público, de coração, por o apupar e lhe dar energia para ganhar um jogo. Novak Djokovic já conquistou 17 torneios do Grand Slam a ser, em quase todos, o preterido no carinho distribuído pelos adeptos entre os três melhores tenistas da atualidade. O russo e o sérvio superam-se quando o contexto não lhes quer bem e jogam, este domingo (8h30, Eurosport), a final do Open da Austrália

Diogo Pombo

Getty Images

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Daniil Medvedev está a correr atrás da linha de fundo do court, de um lado ao outro, a locomoção provocada pelo iô-iô que Stefanos Tsitsipas tenta provocar, no serviço. É uma questão de dois, três segundos, o russo responde a um canto do campo e tem logo de acorrer ao outro, para onde o grego bate a bola colocado com pinças, mas sem a força implacável que desejaria. Sobra uma nesga de tempo para o adversário a alcançar, mesmo que à rasca.

Daniil é um humano de 1,98 metros, o corpo esguio e magérrimo que tem fá-lo parecer ainda mais alto do que é. Não tem a musculatura-tipo de um atleta e deveria custar-lhe horrores chegar, em corrida e todo esticado, à bola caída abaixo do nível dos seus joelhos. Já está a berrar quando estica a raquete com os dois braços, mas, de sofrível, nada há na pancada de esquerda que inventa - dali sai um bola tensa, precisa e fenomenal que quebra o jogo de serviço de Tsitsipas, enquanto o russo prolonga a banda sonora do ponto.

Ele grita, o seu “éééé” berrado é uma apoteose auto-concedida a que o público da Rod Laver Arena se junta, meio que a contragosto. Medvedev acaba de reclamar de vez a meia-final, vai ganhar o terceiro de três sets e clama pelo êxtase coletivo, abana desengonçadamente os braços no ar, parece um daqueles bonecos soprados na vertical à beira da estrada enquanto mostra, mais uma vez, o carisma revoltoso que o faz ser o excêntrico tenista que, minutos depois, garante a segunda final de Grand Slam da carreira.

Consegue-o com um público que até podia não lhe querer mal, mas não estava a seu favor. Melbourne é das cidades com mais gregos fora da Grécia, nas bancadas havia muitas bandeiras e um sem número de apoiantes de Tsitsipas, a rejubilar a cada ponto do jogador.

A tal reação gritante e desafiante ajuda a explicar o personagem divisivo, quase contraditório, que há em Medvedev.

Aos 25 anos, é capaz das pancadas mais potentes e espetaculares da base do court, tem um canhão de serviço, uma leveza de movimentos anormal para a estatura que ostenta e uma facilidade em variar as pancadas que lhe permite manipular trocas de bola à discrição quando joga em piso rápido. Mas, para tanto talento, é capaz de ser dos tenistas menos apreciados que há. “É como um mestre de xadrez, um estrategista, está sempre a pensar à frente”, resumiu-o John McEnroe, vencedor de sete Grand Slams no seu tempo, citado pelo “New York Times”,

Daniil Medvedev é respondão e ousado. Se não gosta de algo então costuma demonstrá-lo, desboca-se em críticas e costuma ter pouca água em que ferver. A polémica é outra das pancadas que domina, vinda de um aparente estar nas tintas para o que pensarem dele.

TPN

Há dois anos, a caminho da sua primeira final de um major, no US Open, virou o público contra si próprio ao ser rude com um apanha-bolas, discutir com o árbitro e partir uma raquete. Ganhou esse jogo e, com o estádio que o apupou a ouvi-lo no fim, disse: “Obrigado a todos, porque a vossa energia deu-me a vitória. Se não estivessem aqui, provavelmente tinha perdido. Quando hoje forem dormir, quero que saibam que ganhem por vossa causa”. Acabaria por perder na decisão do torneio para Rafael Nadal.

Já neste Open da Austrália, na terceira ronda, começou a discutir em francês com o treinador, Gilles Cervara, durante o jogo da terceira ronda, quando já tinha perdido os dois primeiros sets para Filip Krajinovic. Às tantas, disse-lhe para o “deixar jogar” e calar-se. O treinador abandonou a arena e Medvedev venceu. “Antes de ele ir embora disse que tinha a certeza que eu ia ganhar, mas que ia sair para me deixar mais calmo”, disse, como se nada fosse, na entrevista feita no court logo a seguir.

É com este estilo ousado que o russo entrou em erupção no último par de anos. Conquistou três títulos de Masters, pontificados pela conquista do ATP Finals, em 2020, onde cimentou uma tendência recente: Medvedev não perde em singulares desde outubro (20 jogos) e, a partir do mês seguinte, ganhou a todos os tenistas do top-10 salvo o único que não podia defrontar, o lesionado Roger Federer.

Redundando, entre eles esteve Novak Djokovic.

É também repetitivo alongar palavras sobre o sérvio, sobretudo quando está em Melbourne. Pela nona vez na carreira ele está a um jogo de vencer o Open da Austrália, o seu Grand Slam predileto, como se a tríade de suprassumos do ténis tivesse combinado entre eles o torneio em que cada um teria as fundações da sua grandeza

Cameron Spencer/Getty

O pó de tijolo de Roland Garros é de Nadal, o tapete de relva de Wimbledon ficou para Federer e o azul rápido de Melbourne é palco habitual aos inícios de ano fulgurantes do sérvio, embora este, em tudo transfigurado pela pandemia, também sacudiu as boas graças que Djokovic costuma encontrar na Austrália.

Começou assim que o sérvio aterrou na ilha, quando tentou manejar o seu estatuto para pedir a Craig Tiley, presidente da Tennis Australia, que melhores condições fossem dadas aos 72 tenistas obrigados a cumprirem duas semanas de quarentena no quarto de hotel, após a qual lhes sobraria apenas oito dias para treinarem, em campo, até ao início do torneio. A atitude caiu mal no goto dos australianos.

Não se tem ouvido o apoteótico apoio nas bancadas de outros anos, que sacava todos os sorrisos a Djokovic. Na meia-final contra a surpresa de seu nome Aslan Karatsev, o público era barulhento a cada tímido esgar de vida do russo, que foi batido sem hipóteses em três sets, confessando Novak estar “surpreendido” com forma como se sentiu.

Porque tinha sobrevivido a uma batalha com Alexander Zverev, nos quartos-de-final - durante a qual partiu uma raquete, frustrando-a três vezes contra o chão. Na terceira ronda, uma lesão abdominal obrigara-o a uma paragem médica contra Taylor Fritz, a quem ganharia, depois, em sofríveis cinco sets e desde então que a sua imponente capacidade física era uma fonte de dúvidas. “Achava que não seria possível jogar sem for, mas consegui”, disse, ao avançar para a final.

Fred Lee/Getty

Mesmo livre de dores, Djokovic não será o tenista em melhor forma. Mas, embora ostentador da melhor sequência atual de desempenho, Medvedev também não defrontou em Melbourne um jogador como o sérvio, que, aos 33 anos, ainda tem o melhor jogo de resposta do circuito e terá outra oportunidade para se aproximar dos dois confrades lendários - se ganhar, fica com 18 títulos do Grand Slam contra os 20 de Federer e Nadal.

Djokovic foi sendo, por muitos motivos, lendário à sua maneira. A forma como, em vários momentos da carreira, mostrou superar-se e arranjar combustível em ambientes adversos, em jogos ou torneios onde o público parecia não o querer embalar, moldou a carapaça sobre a qual o sérvio reclamou muitas vitórias. Daniil Medvedev, se bem que com produto final incomparável, está a fazer crescer a carreira com fortalezas mentais semelhantes: de ‘eu contra o mundo’, ou ‘se mundo está contra mim, então esperem que vão ver’.

É difícil estimar quem terá mais a contrariar em redor, no estádio. Ganhando este domingo, o russo tocará no primeiro Grand Slam da carreira e subirá à segunda posição do ranking que, em 16 anos, só viu Andy Murray a intrometer-se entre os três deuses das raquetes. Perdendo, verá Djokovic a ficar com a nona vitória no Open da Austrália, onde nunca terá jogado com um contexto tão adverso.