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O tempo de Djokovic está na Austrália

Melbourne é o quintal do tenista sérvio, que contrariou as previsões e ganhou em três sets (7-5, 6-2, 6-2) a Daniil Medvedev, conquistando o seu nono Open da Austrália em nove finais disputadas. Novak Djokovic chegou aos 18 títulos do Grand Slam, fica a dois de Federer e Nadal, mas passará a ter o recorde do número de semanas passadas na liderança do ranking

Diogo Pombo

Matt King/Getty

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Dezasseis horas e quarenta e cinco minutos podia ser apenas uma contagem de feitio estatístico, um número e nada mais, equivaler a mais de dois terços do tempo disponível num dia é o que o inflaciona, afinal é bastante tempo, um exagero de tempo, porque este tempo é o que Novak Djokovic demorou a chegar a esta final.

Em todas as outras finais de Grand Slams, jamais o sérvio estivera tanto tempo em court, para um cidadão normal de escritório seria o tempo de sono e de trabalho, para Djokovic é a amargura de um percurso que lhe deu uma lesão abdominal e lhe enferrujou a vida em Melbourne. Mas não parece.

Novak entra a ganhar 3-0, o serviço e a agressividade nas respostas tão próprias dele a engatilharem o seu arranque contra Daniil Medvedev que parece preso, com pesos nos pés, os quilogramas da ocasião a emperrarem-no até esse mini-atropelo o alertar para a vida. O russo acorda, devolve o break e iguala em 3-3.

Mas o tão batido sérvio, número um atual e numericamente à procura de encurtar diferenças para os dois comparsas lendários do ténis, puxa o russo para a rede, obriga-o a mexer-se na vertical e não somente na horizontal ao fundo do campo, onde Medvedev lhe causa dano. Pressiona-o e fica com o primeiro set, 7-5, em 42 minutos.

A final entrava no tempo Djokovic, o seu recorde 259-5 em Grand Slams após ganhar o set inaugural é mau tempo para quem esteja do outro lado da rede e Medvedev, de novo, entrou errático, pouco calibrado no primeiro serviço, a mesclar em demasia trocas de pancadas brutais com erros não forçados em bolas altas, junto ao corpo.

Era quase uma dupla personalidade do russo, capaz de aguentar danças de 20 pancadas ou mais com ambos ao fundo do campo, ou jogos de serviço em branco feitos em menos de um minuto, mas, se o jogo lhe facilitava a vida, ele sucumbia ao facilitismo.

Daniel Pockett/Getty

E ruiu perante um Djokovic não infalível, nem sempre espetacular como em outras núpcias, mas todo ele uma constância robótica, e incisivo na estratégia. O chão foi o alvo do russo pouco antes do 6-2, a raquete contorcida contra o piso e desmoldada pela frustração.

Jogar contra o sérvio mecanizado na grandeza é frustrante, Medvedev estava na segunda final de um major da carreira e, por cima, continuou a frustrar-se a ele próprio.

Já de raquete nova tirada do saco, o russo acentuou a sua impaciência e arriscou mais, canalizando o risco para atacar em momentos pouco aptos nos pontos. Medvedev queria furar o campo de Djokovic com pancadas intempestivas, e mais do que isso, fugidas aos dotes estratégicos que muitos adversários já lhe reconheceram. Não era o xadrezista das 20 vitórias seguidas até aqui.

Djokovic quebrou-lhe o serviço pela sexta vez logo no arranque do terceiro set. A final já parecia uma brisa, um sopro sérvio, Novak encurtava o tempo que as previsões adivinham poder ser prolongado pela colisão dos momentos de forma em causa, mas é deste tão particular tenista sérvio que todos estávamos a falar.

Apesar de todas e tantas diferenças, Novak Djokovic foi cortado do mesmo tecido que coseu Federer e Nadal, os outros incríveis desta vida - mais do que ser imune a tendências, adversidades ou pressões, são elas que o puxam para cima e lhe endeusam o jogo.

Darrian Traynor/Getty

No descanso com 4-1, ele senta-se no banco e fecha os olhos, parece meditar, porventura a esvaziar a cabeça de pica miolos como os que Medvedev aparenta ter a rondar-lhe o volante. Com 4-2, o russo ainda esbraceja após um belo ponto seu, é um ato farejador de motivação e o público corresponde-lhe. Mas, logo nos dois pontos seguintes, Djokovic desencantou o tipo de bolas (postas ao canto, chapadas e em força) que amansam qualquer veleidade.

Novak Djokovic fecharia tudo com um smash em suspensão, quase de costas, supostamente o tipo de pancada em que o sérvio é menos forte. O tempo marcava 113 minutos, uma rapidez a culminar a sua morosidade no torneio que continua a ser o seu quintal: conquista o nono Open da Austrália e ganhou todas as finais a que chegou.

É do outro lado do mundo que está o fuso horário de Novak Djokovic e a fertilidade do piso que mais lhe permite estar tão perto, mesmo no encalce dos 20 Grand Slams conquistados pelos outros semi-deuses na Terra. Agora o sérvio tem 18, mas na segunda-feira passará a ter 311 semanas na liderança do ranking, contra as 310 de Federer.

O tempo está com Novak Djokovic, que tem 33 anos e adiou por mais não sei quanto tempo o tempo de Daniil Medvedev, 25. Os dois trocaram palavras amigavelmente elogiosas no final e o sérvio pediu-lhe para "esperar mais uns anos" até começar a ganhar Grand Slams. Haverá tempo para o russo depois de o sérvio esgotar o seu.

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