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Ténis

Ter um Nadal no teu canto é capaz de ser uma boa ideia

Antonio, mais conhecido por Toni, treinou o sobrinho Rafael Nadal durante 27 anos e com ele ganhou 75 títulos, dos quais 16 torneios do Grand Slam. Em 2017, separou as águas profissionais das familiares e, esta terça-feira, voltou a sentar-se no canto de um tenista - do prodígio Félix Auger-Aliassime, que acabou por perder na primeira ronda do Masters de Monte Carlo

Diogo Pombo

Toni Nadal, em 2017, a sorrir para o sobrinho e mais um troféu (o décimo) de Roland Garros

Tim Clayton - Corbis

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Manacor fica em Maiorca, é lugar alaranjado como o é muita da Espanha, onde se quer fazer a bola saltar e quiçá é por tanto amor nutrirem pelo ténis que o pó de tijolo pinta a maioria dos campos, faz a maior parte dos espanhóis que o jogam especializarem-se nesse pó e a grande fatia dos jogadores, de facto, são mais batidos em terra batida do que outra qualquer superfície. Um dia, as minúsculas sapatilhas de um rapazola de três anos borraram-se lá de laranja.

Antonio viu o irmão Sebástian a chegar ao seu court de ténis com o filho, Rafael, o apelido que os une escreve sozinho o resto da história, sem ajudas, os Nadal representados pelo tio e o sobrinho bateram bolas em família durante 27 anos, o mais velho a treinar o mais novo, designação mais fácil de se aplicar de fora apesar de, por dentro, entre eles, Toni sempre se ter “considerado mais formador do que treinador” de Rafa.

Isso sabemos por sagrado ser o que está escrito. O tio, ao longo dos anos, muito bateu em teclas para ir contando ao “El País”, em formato crónica, o que lhe ia na alma sobre o Nadal de raquete em punho, o ténis, as vivências no circuito e os jogadores com quem se cruzavam, tudo vindo da cabeça que chegou a cursar sobre História, Geografia e Direito e punha doses abastadas de humanismo em cada vez que assumia o papel de escriba.

Numa delas, em 2017, Toni Nadal anunciou que ia cortar o cordão profissional com o sobrinho, chegara a altura, eram já 27 anos a ser “mais irritante do que gentil e mais exigente do que lisonjeador” na fórmula que congeminou para Rafa ir crescendo, ganhando, tudo conquistando e desbravando a rota gloriosa na qual ainda caminha. “Procurei-lhe mais um ponto de insatisfação do que beneplácito, transmiti sempre toda a responsabilidade para ele”, escreveu, torneando a explicação para lá do óbvio, como demonstrou ser o estilo o seu estilo de treinador.

Adam Pretty/Getty

Ou de formador. Toni prefere-o, as pistas para o entender podem estar no facto de ser “mais amante da exigência do que do esforço”, que é prática julgar-se se o truque desbloqueador de quase tudo e tem “pouco resultado se não for acompanhado pela ideia permanente de que há que melhor e evoluir”. Por isso, na beira do sobrinho, foi “um personagem com tendência nula para bajular e sempre disposto a comentar o que é menos agradável de ouvir” - a dizer as verdades, proverbialmente resumindo a coisa.

Desde a época de 2018 que Toni Nadal se centralizou em Manacor, a ocupar-se apenas com ser diretor da academia de ténis de Rafa, visitando-o com parcimónia em algum torneio, em alguma final, o sobrinho entretanto já conquistou outros 11 títulos e quatro torneios do Grand Slam e a presença do tio no júbilo da vitória não era para o formar, seria para o celebrar em família.

Afinal, o último ténis de um com o outro não teve glória. “O Rafael não passou do primeiro jogo da fase de grupos. Tive fé na sua capacidade de resistir, mas a dor no joelho não era suportável”, recordou, já em novembro do ano passado, ao versar sobre o significado do ATP Finals (antigo Masters Cup), torneio de final de época onde se despediram.

Toni dedicou-se por inteiro, daí para cá, à academia de ténis em Manacor, ajeitou-se no sofá caseiro para assistir aos torneios e manteve a frequência dos artigos durante estes três anos e meio, pedaços de texto citados em cima para descrever o homem, resumir o treinador e retratar a pessoa que agora voltou à baila das boxes, aquele sítio dos estádios de ténis onde se senta a entourage de cada jogador que está em court.

Alexander Hassenstein/Getty

Este mês, soube-se que Félix Auger-Aliassime propusera ao tio Nadal um regresso à prática de acompanhar um tenista durante o ano, circuito fora, como fizera com o sobrinho e nunca mais o tentou com outrem. Félix pode não ser Rafa, mas não é um qualquer - canadiano, nascido há 21 anos e atual número 21 do ranking, figura há muito em insufladas expetativas de ser um dos próximos grandes tenistas do planeta, capaz de competir por Grand Slams com os maiores.

É um prodígio, tido nestes moldes pelo rasto que cedo começou a trilhar de raquete em mão. Vivia há 14 anos e 11 meses quando venceu um encontro de um torneio Challenger e virou o mais novo de sempre a consegui-lo; tinha 16 anos no dia em que ganhou o primeiro título sénior; e com a idade atual já vai em sete finais disputadas em provas do circuito ATP. Foi esta promessa a endereçar o convite.

Surgiu “há uns meses”, Félix pediu-lhe se “era possível colaborar com ele”, Toni ponderou afirmativamente, continua a dizer que teve “sorte a vida toda” e retornou ao sozinho, pois “treinou um bom rapaz, que teve bons resultados” e “agora tem a mesma oportunidade” por ver no canadiano um moço “muito novo, com boa educação e hipótese de ser um tenista muito bom”.

Esta foi a conclusão de Nadal após passar 10 dias, em dezembro, a treinar com Auger-Aliassime e a conhecê-lo em Manacor, na academia, para averiguar “se o poderia ajudar, ou não”, areia para os olhos sob o disfarce de justificação, pois logo se denunciou, em entrevista à “Tennis TV” da ATP, quanto ao que realmente pretendia: “Não trabalharia com uma pessoa desrespeitosa ou sem valores. O Félix é um bom rapaz, com boa dedicação. É jovem, tem a possibilidade de se tornar num bom jogador de ténis. Não me interessa se alguém tem um grande talento ou não, importa-me ajudar a melhorar todos os dias”.

A ideia não é fazer de Toni Nadal, com 60 anos feitos, novamente um reboque omnipresente pelo circuito fora. “Juntar-se-á durante os torneios importantes”, esclareceu Félix, todo ele sorrisos a confessar “o privilégio” que é “tê-lo como treinador, mentor e consultor” na equipa que o acompanha para todo o lado durante a época (além de um preparador físico e um fisioterapeuta, Frédéric Fontang é o seu técnico principal).

Coincidência não o foi que tudo se tenha tornado público nas últimas semanas, em que arrancou a temporada de terra batida do circuito e se alaranjaram as lides dos tenistas. Toni Nadal tem e terá os seus quinhões para dar na matéria e a colaboração, falando em torneios, começou no Masters de Monte Carlo que está a decorrer. E iniciou-se com uma derrota: Auger-Aliassime perdeu, terça-feira, com o chileno Cristian Garin (7-6(3) e 6-1) na primeira ronda.

À saída madrugadora seguir-se-ão participações no Masters de Madrid, em Roland Garros e Wimbledon, lugares onde Rafael Nadal também deverá parar, lesões o permitam. Caso o sorteio e os jogos ditem que o espanhol se cruze com o canadiano, o Nadal que há entre eles não estará presente. “Desde o princípio que deixei claro que não me sentaria na box de nenhum. Nunca teria aceitado este trabalho se o Rafa não quisesse”, garantiu.

Não que o sobrinho se arrelie, ou descontente, com a sua nova parceria, disse o imperador da terra batida que não tem "de lhe perguntar sobre quem treina" e assegurou ficar "muito contente" por o tio "estar de volta". E ainda fez chover no molhado, pois está "seguro de que será uma grande ajuda para o Félix". Ter um Nadal no teu canto haveria sempre de ser uma ideia.