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Roger Federer, um adolescente como outro qualquer. “Tinha um poster da Pamela Anderson porque estava sempre a ver ‘Marés Vivas’”

Numa conversa com a revista "GQ", houve espaço para tudo: para o suíço falar da retirada, do último ano cheio de lesões e cirurgias, de David Foster Wallace e até da sua adolescência

Lídia Paralta Gomes

TPN/Getty

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A preparar o regresso a Roland Garros depois de um 2020 em que, para lá da pandemia, teve de lidar com duas operações ao joelho direito e meses e meses de reabilitação, Roger Federer sentou-se para falar com a “GQ”.

A conversa começou com a inevitável questão: é este ano, o ano em que completa 40 voltas ao sol, que Federer se retira? Para já, ainda não há uma resposta.

“Não sei. Estou muito descansado com o momento em que a minha carreira está, em que a minha vida está”, começou por dizer o 20 vezes campeão de torneios do Grand Slam, que não está a ter um regresso à terra batida fácil, depois de perder à primeira no ATP de Genebra.

“Sei que neste momento há uma última grande oportunidade para fazer algo grande. A verdade é que é sempre assim quando se ganhou aquilo que eu ganhei”, frisou ainda Federer.

Mesmo com um currículo cheio de vitórias e recordes, com os 40 anos quase a bater à porta, a vontade de ganhar não parece mais suavizada no interior do helvético: “Quero ganhar mais. Se assim não fosse, não teria passado todo o último ano em cirurgias e no processo de andar cinco semanas de muletas e a fazer reabilitação. Eu acredito mesmo que posso fazê-lo de novo. Mas primeiro tenho de provar a mim mesmo que o meu corpo aguenta. Porque a minha cabeça está pronta”.

De ténis puro e duro falou-se quanto baste e a conversa com a “GQ” foi por outros caminhos, seja o seu novo papel como embaixador do turismo da Suíça ou *aquele* perfil que David Foster Wallace escreveu em 2006 para o “New York Times”, “Roger Federer as Religious Experience”, assim se chamava, que ainda hoje é visto como um dos mais brilhantes e requintados textos sobre ténis alguma vez redigidos.

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“Lembro-me de falarmos por uma meia-hora, de sair de lá e não saber o que pensar - se iria sair dali a pior reportagem da história ou algo genial. Porque foi muito diferente. Muito estranho. Quando a peça saiu e fiquei tipo ‘Oh meu deus’”, diz o suíço.

De David Foster Wallace, a entrevista foi parar a um pedaço de relíquia que há um par de anos começou a circular nas redes sociais: uma fotografia de um adolescente Federer no seu quarto de infância, ele de madeixas loiras, já com muitos troféus espalhados, mas ainda nos tempos em que era conhecido pelos seus ataques de raiva em court, trágicos para inúmeras raquetas que não sobreviveram aos momentos de ira, que Federer, revelaria mais tarde, conseguiu controlar visitando psicólogos desportivos - que o ajudaram a deixar de ser apenas um miúdo hiper-talentoso para passar a ser um ganhador em série.

“É a imagem clássica de um adolescente, cheio de borbulhas e com vontade de pintar o cabelo de todas as cores. A minha ideia era a seguir pintar o cabelo de vermelho, mas acabei por não fazê-lo. Cortei, deixei crescer e tive cabelo comprido depois disto”, começou por explicar.

“Tinha o Shaquille O’Neal num poster enorme. Tinha a Pamela Anderson porque estava sempre a ver ‘Marés Vivas’ e ‘Rua Jump 21’. Era o tempo em que caminhávamos com um walkman ou um discman. Os anos 90 foram bons para mim, estava a começar no circuito”, relembrou ainda o suíço, quando falta menos de uma semana para arrancar Roland Garros, torneio que venceu apenas por uma vez, já no longínquo ano de 2009.