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Raducanu perdeu o voo de volta de Nova Iorque, mas está feliz por "viver a sua própria viagem" sem "o ladrão de felicidade" das comparações

A tenista de 18 anos é a primeira jogadora de sempre a chegar às meias-finais do US Open vinda da fase de qualificação. A britânica, que além do ténis também brilha nos bancos da escola, subiu quase 300 posições no ranking mundial durante o verão e é o novo fenómeno de popularidade do desporto

Pedro Barata

Matthew Stockman/Getty

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Há quem não goste, mas o cruzamento e o encontro de culturas e nacionalidades são inevitáveis realidades do nosso mundo. E basta olhar para o ténis para o comprovar. Naomi Osaka? Pai do Haiti, mãe do Japão, foi viver para os EUA com 3 anos de idade; Denis Shapovalov? Nasceu em Israel, filho de uma ucraniana e um russo, foi viver para o Canadá antes de ter 1 ano; Bianca Andreescu? Filha de romenos, nasceu no Canadá e foi viver para o país dos progenitores em criança, tendo regressado ao Canadá aos 11 anos.

Até ao começo do verão, poucos lembrar-se-iam de acrescentar Emma Raducanu, filha de um romeno e de uma chinesa, nascida no Canadá e a viver desde os dois anos em Londres, a esta lista. Afinal de contas, a britânica de 18 anos só jogou o seu primeiro torneio WTA, a principal divisão do ténis feminino, no começo de junho, em Nottingham. A 28 de junho de 2021, Raducanu estava na posição 338 do ranking WTA.

No entanto, dois meses e meio depois, tudo é diferente: após chegar aos oitavos-de-final de Wimbledon, Emma subiu a parada no US Open: a adolescente está nas meias-finais do torneio nova-iorquino, tornando-se na primeira tenista, homem ou mulher, da história a atingir dita fase da competição após começar na qualificação (e somente a quarta tenista a fazê-lo no global dos quatro torneios do Grand Slam). É, também, a mais nova semi-finalista do US Open desde Maria Sharapova, em 2005, e a primeira britânica a estar entre as quatro melhores do major norte-americano desde Jo Durie, em 1983.

Tudo tem acontecido à velocidade da luz para a teenager durante o período estival. Emma começou o verão a fazer os exames de matemática e inglês e agora, graças aos resultados que logrou no ténis, tem garantido que, na próxima atualização do ranking, será a melhor jogadora britânica e, pelo menos, a 51.ª do mundo, quase 300 posições acima da sua classificação de junho.

Se a filha de dois trabalhadores do setor financeiro - área em que não descarta, ela própria, vir a trabalhar no futuro - só disputou o seu primeiro torneio WTA em Nottingham, perdendo logo na primeira ronda na competição realizada na primeira semana de junho, foi em Wimbledon que a carreira de Raducanu começou a mudar. A organização do lendário torneio decidiu dar à jovem um wild card (um convite) para participar, visto que o ranking da britânica não lhe permitia aceder ao quadro principal do certame. E, a jogar em casa, Emma surpreendeu tudo e todos.

Raducanu já “mal podia acreditar” quando derrotou a russa Diatchenko na primeira ronda de Wimbledon, tendo de “olhar duas vezes para o marcador no final do encontro porque achava que ainda não tinha ganhado”. Mas o assombro da adolescente, que antes de Wimbledon "nunca tinha jogado diante de mais de uma centena de pessoas", não parou de aumentar, tendo batido a checa Vondrousova e a romena Cirstea, duas jogadores do top 50, para chegar aos oitavos-de-final. “Os meus professores da escola deram-me os parabéns e isso deixou-me muito feliz”, disse após a terceira vitória num dos templos do ténis mundial.

TPN/Getty

Nos oitavos-de-final, Raducanu retirou-se a meio do segundo set frente à australiana Tomljanovic com dificuldades respiratórias, mas o major inglês foi “uma grande experiência de aprendizagem”. E de angariação de popularidade.

À data do começo de Wimbledon, Emma tinha 10 mil seguidores no Instagram e, concluída a sua participação, possuía 364 mil seguidores na rede social. “É engraçado porque o meu Instagram está bloqueado”, disse a tenista nos dias seguintes ao torneio, “devem ter pensado que era um robot ou algo do género que estava a fazer subir tanto o número de seguidores”.

Um mês e meio depois de Wimbledon, Raducanu preparava-se para tentar entrar no quadro principal de um Grand Slam pela segunda vez na carreira. Só que no US Open não teve direito a wild card, pelo que teve de disputar a qualificação. E conseguiu superá-la, o que lhe causou um problema logístico. "Os meus voos de regresso estavam marcados para o fim da qualificação, mas esse é um bom problema para se ter", comentou, sorridente.

No quadro principal, Emma tem mostrado um ténis agressivo, confiante e maduro. Derrotou a suíça Voegele na primeira ronda, batendo, depois, a chinesa Zhang, a espanhola Sara Sorribes e a norte-americana Shelby Rogers, três jogadores do top 50.

Matthew Stockman/Getty

A grande prova de fogo para a adolescente parecia chegar nos quartos-de-final. Raducanu tinha pela frente Belinda Bencic, a suíça que se sagrou campeã olímpica em Tóquio e que vencera 13 dos últimos 14 encontros que disputara. E o começo do duelo dava razão a quem achava que, aos 18 anos e com escassas semanas de experiência na elite, a britânica poderia acusar o momento.

Emma viu o seu serviço ser quebrado logo no primeiro jogo. Dos primeiros 16 pontos disputados, só ganhou seis. Esteve a perder por 1-3 no primeiro set.

Mas, após este início difícil, a britânica arrancou para oferecer um autêntico recital de ténis. Com um jogo agressivo e ofensivo, conseguiu 23 pontos ganhantes e só cometeu 12 erros não forçados, sete deles nos seis jogos iniciais, quando o nervosismo ainda era evidente.

Quando estava a servir para fechar o encontro, Emma começou por cometer uma dupla falta. Logo a seguir, fez um ás, em mais uma prova de ADN de campeã. E, na primeira vez da sua vida que se enfrentava a uma jogadora do top 20 (Bencic é a 12.ª da hierarquia mundial), venceu por 6-3 e 6-4, continuando ainda sem ceder qualquer set em todo o US Open.

A exibição contra a campeã olímpica valeu-lhe rasgados elogios de Martina Navratilova, vencedora de 18 torneios do Gran Slam, que a descreveu como “um produto quase acabado, quando ela deveria estar só a começar”, vincando que Raducanu tem “opções de pancada 99,99% perfeitas e uma altíssima inteligência tenística e mental”.

Segundo Raducanu, a sua “força mental provém da educação" que recebeu. Os pais da britânica “frisavam a importância de ter uma atitude positiva em tudo”, proibindo-a de praticar ténis se “tinha um mau comportamento e explicando sempre que devia respeitar os adversários" e a si mesma. Emma revela que quando está "em situações limite", utiliza os seus "esquemas de jogo habituais" e foco-se só no que pode controlar.

Al Bello/Getty

Segundo o "The Guardian", Raducanu já recebeu, no US Open, cerca de 570 mil euros em prémios, mais do triplo da quantidade de dinheiro que havia encaixado até ao começo do torneio nova-iorquino na sua carreira. Com um ténis entusiasmante, uma conta bancária a crescer e popularidade galopante, Emma, que surpreende pela eloquência nas entrevistas após os jogos (nas quais revela, também, um carisma muito próprio das campeãs), foca-se apenas em seguir o seu caminho.

"Acho que comparares-te a ti e aos teus resultados com alguém é, provavelmente, como um ladrão da felicidade. Cada um tem a sua própria trajetória e esta é a minha própria viagem". Na aventura de Raducanu em Nova Iorque segue-se, nas meias-finais, a grega Maria Sakkari, em duelo a disputar na madrugada de quinta-feira, dia 9 de setembro, para sexta, dia 10.