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Ténis

Emma Raducanu, o novo projeto de lenda em gestação

A adolescente tenista concretizou o fantástico: vinda do qualifying, é a primeira jogadora na história a conquistar um torneio do Grand Slam. Emma Raducanu esteve em 10 encontros e ganhou todos os 20 sets que enfrentou, os últimos na final deste sábado do US Open, contra Leyla Fernandez (6-4, 6-3). Ah, e só tem 18 anos

Diogo Pombo

Al Bello/Getty

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Ela está agarrada à taça que nem um brinquedo, tem sorriso quase bobo, a cara toda ocupada pelos dentes escancarados pela felicidade no topo do púlpito posto no court central. Quando, do nada, rebentam uns confettis que a gravidade a lutar com a brisa faz sobrevoar sobre a sua cabeça, Emma Raducanu parece fitá-las com franco espanto e autêntica curiosidade.

Está a flutuar em genuinidade, qualidade que se gaba e saúda às crianças intocadas pelas manhas da vida. A britânica já não é uma. Emma é adolescente, mas, em vivência de ténis, continua a ser a imberbe surpresa que, há umas semanas, chegou a Nova Iorque para entrar com a raquete pelas catacumbas da cadeia alimentar de um dos grandes torneios do ténis.

Al Bello/Getty

Entrou pelo qualifying do US Open e, lenta mas seguramente, como se traduz de expressão tão dita no idioma em que se expressa, Raducanu varreu quaisquer tenistas com quem coincidiu no campo. Foram três jogos ganhos para entrar no quadro principal do Grand Slam, mais outros seis para alcançar a final e todo um feito grandioso a ser encadeado.

Ganhou todos os 18 sets que jogou. Nem um singelo tie-break disputou até alcançar o hino à adolescência que foi a final deste sábado. A filha de um romeno e de uma chinesa, vinda ao mundo no Canadá e residente em Inglaterra desde os 2 anos defrontou Leylah Fernandez, de 19 primaveras feitas esta semana, para dar continuidade a uma proeza para tombar queixos no chão com incredulidade.

Emma Raducanu venceu a canadiana de rajada, chegando aos 20 sets conquistados em 10 jogos e agarrando-se ao caneco prateado do major americano. É a primeira tenista na história a reinar sobre um Grand Slam vinda do qualifying e, antes do torneio, era apenas a 150.ª melhor jogadora do ranking

Há um par de anos, estava convencida de que o ténis viraria hobbie extracurricular, nas horas vagas de uma licenciatura em Economia e Finanças. Nos derradeiros segundos da final, "só pensava em não fazer uma dupla falta", admitiria, com as primeiras palavras de campeã. O serviço que entrou foi um ás, Emma estatelou-se no chão e a história ficou gravada nas cordas da sua raquete.

Concretizadas as cerimónias protocolares, o cinquentão Mats Wilander, conquistador de sete majors no seu tempo e hoje uma sapiente voz de comentário e análise para a "Eurosport", pisou o court do Arthur Ash Stadium de microfone na mão e parecia ter sido infetado pelo caráter genuíno da ocasião.

O ex-tenista disse de Emma Raducanu que ela "é previsivelmente boa em tudo o que faz em campo" e este feito "não é um acaso"; como uma cassete em fast-forward, acrescentou que a tenista "se move fantasticamente bem" e "tem uma grande técnica", batendo bolas consigo próprio logo de seguida — "Vai ganhar 10 Grand Slams? Acredito que sim".

A forma como a britânica se escancara agora no ténis, quase vinda do nada, é mesmo isso: Emma nunca jogou, sequer, uma partida com três sets, nem alguma vez esteve num jogo no pó da terra batida, enquanto profissional, mas conquistou o US Open, o mais rico dos Grand Slams e o que alberga que tem capacidade para albergar mais gente. É um prodígio em pessoa

Ah, e Emma Raducano só tem 18 anos.