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Olga Sharypova diz ter vivido um "inferno" com Zverev. E há quem acredite que não se está a fazer o necessário para investigar o alemão

A antiga namorada do jogador acusa-o de, durante vários meses, a agredir com “grande violência” física e psicológica, levando a russa a tentativas de suicídio. O alemão nega as “acusações infundadas”, mas as críticas à forma como a ATP tem gerido - e, basicamente, ignorado - o assunto sucedem-se

Pedro Barata

Emmanuel Wong/Getty

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Alexander Zverev e Olga Sharypova conheceram-se num torneio de ténis nos Estados Unidos da América, quando ambos tinham 14 anos de idade, em 2011, começando, nessa altura, um romance. Zverev, alemão filho de pais russos, e Sharypova, russa, eram dois jovens tenistas que viriam a ter percursos diferentes na modalidade. Com o passar dos anos, Olga deixou o ténis, dedicando-se à sua formação pessoal, enquanto Alexander (vulgarmente conhecido por “Sascha”) foi ganhando importância crescente no desporto, chegando, aos 20 anos de idade, a ser o número 3 do ranking ATP.

Em 2018, após algum tempo em que a distância impediu um contacto regular, Zverev e Sharypova reuniram-se de novo, começando a namorar. Durante os 13 meses que durou o relacionamento, Sharypova queixa-se da “violência física e psicológica” feita pelo jogador, acusando-o de diferentes agressões em alturas diversas, num conjunto de atitudes que a levaram mesmo a pensamentos e atos suicidas. As acusações de Sharypova foram feitas, sobretudo, em entrevistas à revista “Racquet” em novembro de 2020, e à “Slate”, em agosto de 2021, e em publicações nas redes sociais.

Ao longo dos derradeiros 10 meses, Zverev, que foi semi-finalista no último US Open, tem negado todas as acusações, dizendo que elas “simplesmente não são verdade”. A ATP, organismo que regula o circuito de ténis profissional masculino, tem sido criticada pela sua falta de ação sobre o caso. Milos Raonic, número 33 do ranking, disse à “Rolling Stone” sentir-se “envergonhado e decepcionado" com a atuação da entidade. No passado mês de agosto, a ATP anunciou uma relatório “geral” e “independente”, que fará um “conjunto de recomendações que elevem a protecção da segurança” no circuito, incluindo em questões de “violência doméstica”.

As acusações contra Zverev

A história contada por Olga Sharypova, particularmente nas duas grandes entrevistas que deu ao longo dos últimos meses (ambas ao mesmo jornalista, o prestigiado Ben Rothenberg), contém descrições de enorme violência e pânico.

No dia 28 de outubro de 2020, Sharypova publicou uma fotografia sua no Instagram. Na descrição podia ler-se: “Eu fui agredida e não continuarei calada”. Olga escreveu ter sido vítima de violência doméstica, sem identificar o agressor. No mesmo dia, numa entrevista ao site russo “Championat”, Sharypova acusou Zverev.

Poucos dias depois, foi publicada a entrevista à “Racquet”. No artigo, Olga refere que o alemão foi tornando-se “progressivamente mais violento” durante os 13 meses da relação, tanto “física como psicologicamente”.

Emmanuel Wong/Getty

Segundo Sharypova, as “discussões” entre os dois começaram numa viagem às Maldivas, no final de 2018 (pouco depois do começo da relação), durante as férias de Sascha. Nessa viagem, segundo Olga, ”não houve violência física”, mas a “violência psicológica já era muito dolorosa” para ela, relatou à “Racquet”.

“Eu consigo lidar com mensagens de pessoas que não conheço nas redes sociais a insultarem-me. Mas não quero ouvir isso da pessoa que amo. Foi muito duro e tóxico”, contou a russa, revelando parte do conteúdo do que o tenista lhe dizia. “Tu não és ninguém. Nunca ganhaste nada na vida. Eu sou uma pessoa de sucesso, ganho dinheiro. Tu não és ninguém”, acusa Sharypova de ter-lhe sido dito por Zverev.

De acordo com a russa, o primeiro episódio de violência física aconteceu algum tempo depois de dita viagem às Maldivas. Ao contrário de boa parte das cenas relatadas por Olga, esta decorreu, segundo ela, em casa de Zverev, no Mónaco, após uma discussão entre ambos. “Eu estava no corredor e ele bateu com a minha cabeça contra a parede”, descreveu a russa à “Racquet”, recordando que, depois do impacto, caiu ao chão. Segundo Sharypova, o tenista “assustou-se e começou a mentir”, dizendo que ela é que o tinha agredido primeiro e que ele não lhe tinha feito nada. Olga diz ter pensado: “Eu estou no chão, o que é que estás para aí a dizer?”.

Segundo a russa, este episódio deu início a um “ciclo” que se ia repetindo: “Após cada discussão, eu tentava resolver as coisas. Então ele pedia desculpas e dizia ter-se apercebido de ter errado. Depois, ele começava a culpar-me pelas coisas, e eu passava a culpar-me a mim, pensando que talvez fosse eu que estivesse a fazer algo de errado e que eu deveria calar-me e ouvi-lo. Eu tinha paciência, mas não para tudo. Nalguns dias, eu pensava ‘Qual a razão para que isto esteja a acontecer? Se eu sou uma má pessoa que tu odeias, que tu não entendes, namoras comigo porquê? Então vamos acabar tudo’”, relata Sharypova, que realça a capacidade de Zverev para a “fazer sentir-se mal”, como se ela fosse “a razão para todas as derrotas dele”, a “causa de todos os problemas” do tenista.

Olga diz que, quando estava em Moscovo a passar tempo com a sua família e amigos, Zverev lhe ligava constantemente. Ela dizia-lhe “Sascha, estou com os meus amigos, posso passar algum tempo com eles?” e, segundo o relato de Sharypova, o alemão “respondia que não”, dizendo que ela “tinha de falar com ele”. “Não sou importante para ti? Não me amas?”, questionava o tenista.

Quando ela desligava a chamada, Zverev, segundo diz Olga, “começava a ligar” aos amigos dela, questionando-lhes pela razão “pela qual ela não falava com ele”.

“Todos os meus amigos o odiavam por isso”, diz a russa. A relação com o germânico, frisa Sharypova, levou-a a “não ter tempo para ter uma vida”, pois “sempre” que ela “se sentava num café, passava todo o tempo ao telemóvel” com o jogador. Olga diz não saber “como é que ele tinha tempo para aquilo”, devido à rígida rotina de um atleta de elite, mas que “uma das principais razões” para os conflitos do casal era a acusação que Sascha lhe fazia de “não lhe prestar toda a atenção que ele queria”.

Alexander Scheuber/Getty

De acordo com o relato de Olga à “Racquet”, a “gravidade” da “violência” do germânico atingiu “outro nível” durante a edição do US Open de 2019. A 21 de agosto de 2019, num quarto no 46.º andar do hotel Lotte New York Palace, Sharypova começou a gritar a meio de uma discussão do casal e, “por causa disso”, refere a russa, o tenista reagiu com violência: “Ele atirou-me para a cama, pegou numa almofada e colocou-a na minha cara. Durante alguns instantes, eu não consegui respirar, mas subitamente consegui sair daquela situação. Comecei a gritar e a correr, saindo do quarto”.

Segundo o testemunho de Olga, ela começou a correr descalça pelo corredor do hotel, aproveitando que Zverev não a seguia por “ter medo que alguém o visse” naquela situação, diz a russa. Sharypova, que descreve ter “temido pela sua vida”, conseguiu descer até à recepção, escondendo-se “com medo de que alguém do mundo do ténis” a reconhecesse.

A jovem dirigiu-se à entrada das traseiras do hotel, onde conta que algumas pessoas, vendo-a descalça na rua, a ajudaram a “esconder-se”, enquanto Zverev já a procurava. Sharypova conseguiu contactar Vasil Surduk, um amigo de infância da Rússia.

Anteriormente naquele dia, Olga e Surduk tinham estado a passear por Nova Iorque juntamente com outro amigo. Segundo Vasil, durante esse passeio, Zverev tinha ligado a Sharypova, tendo esta começado a chorar durante a conversa.

Vasil Surduk estava hospedado em New Jersey, na casa da sua madrasta, a cerca de duas horas de carro de Manhattan. Também em declarações à “Racquet”, o russo diz que já estava quase a chegar ao seu destino quando recebeu uma mensagem da sua amiga, pedindo-lhe para que este o fosse buscar, pois “não sabia a quem mais recorrer”, conta Surduk, que levou a sua compatriota, descalça, para New Jersey.

No dia seguinte, Vasil foi levar a sua amiga de volta ao hotel onde esta estava instalada com Zverev, para que ela fosse recolher os seus pertences. Quando Sharypova chegou ao quarto, conta a russa, deparou-se com “os seus pertences espalhados pelo chão do corredor do hotel”. Mas havia coisas que faltavam.

Desde logo, o passaporte de Olga não estava ali, alegando a russa que “Sascha ficou com ele”, o que a impedia de regressar à Rússia. Por outro lado, Sharypova alega que o tenista também ficou com “os presentes que este lhe tinha oferecido”, porque ele “queria ficar” com as coisas que tinha dado à jovem.

No entanto, nas horas seguintes, a madrasta de Surduk (a proprietária da casa onde Olga ficou) teve uma “influência decisiva”, segundo é dito à “Racquet” pela própria, na história. A mulher, que pediu para não ser identificada, convenceu Zverev a ir a New Jersey falar com Olga, sensibilizando a jovem para a ideia de que “o melhor para ela” seria voltar para o tenista.

Apenas três dias depois de Sharypova ter fugido de uma situação em que “temia pela própria vida”, como ela disse, a jovem estava de volta para o alemão. E o seu passaporte “subitamente” estava, também, de regresso para as suas mãos.

Clive Brunskill/Getty

A russa continuou, assim, a viajar com Zverev enquanto este disputava torneios em diferentes partes do mundo. Após o US Open, seguiu-se a Laver Cup, em Genebra, na Suíça. Sharypova diz ter-se sentido em “profunda depressão” durante a competição, “sem vontade de viver” e “pior do que nunca”.

Olga refere que, “a partir do que aconteceu em Nova Iorque”, Zverev “entendeu que era fisicamente muito mais forte” do que ela, e passou a “fazer aquilo” quando já não “tinha nada mais a dizer”.

E, de acordo com as palavras de Sharypova, foi em Genebra que Sascha lhe “deu pela primeira vez num murro na cara”. Olga relata uma situação que “foi um inferno”.

“Ele saiu do quarto depois de me bater, e eu estava emocionalmente a morrer. Eu não entendia as razões para que aquilo continuasse a acontecer. Pensei que não podia continuar a viver assim. Eu não podia continuar com aquela pessoa, mas eu sabia que ele não me deixaria ir embora. Então tomei insulina. Eu sabia que se tu fores uma pessoa saudável e tomares insulina, podes morrer. Então injetei-a sem ter medo. Só queria sair de alguma maneira, porque não aguentava mais.”

De acordo com Olga, Zverev voltou pouco depois ao quarto, estando a russa trancada na casa-de-banho e tendo o jogador apercebido-se do que sucedeu. Sharypova diz que o alemão encontrou um dirigente do torneio, o qual conseguiu convencê-la a abrir a porta (a “Racquet” tentou contactar o dirigente, mas este recusou-se a falar, alegando a obrigação profissional de manter como privados os incidentes que envolvam jogadores).

Segundo a russa, foram-lhe, então, dadas tabletes de glicose para reagir à insulina. Olga conta que, depois deste episódio, esteve “três dias deitadas no quarto de hotel, com as cortinas para baixo, pensando em como tinha estado preparada para morrer”.

Sharypova revela à “Slate” que, naquele momento da relação, “Zverev já não mostrava quaisquer sinais de arrependimento”. Após a Laver Cup, o jogador viajou para a China, para disputar o China Open em Pequim e o Rolex Shanghai Masters.

A 9 de outubro de 2019, a madrasta de Vasil Surduk foi visitar o casal, levando um grande saco de frutas como presente, tendo assistido, com Olga, ao duelo de Zverev contra Jeremy Chardy. Depois, ambas foram arranjar as unhas e fazer tratamentos faciais. Sharypova diz que, enquanto estava no salão de beleza, começou a receber “muitas mensagens de Zverev”.

“Ele enviou-me imagens da fruta perguntando o que era aquilo e questionando-me por estar no salão e não ali com ele”. Quando Olga chegou ao quarto, conta a russa, “ele saiu imediatamente”, dizendo que ele tinha “ficado à espera dela” e que, por isso, “agora ela também devia esperar por ele”.

Quando “Sascha” saiu do quarto, Olga diz ter tomado consciência de que “viria aí outra luta”. E “não tinha energia para isso”. E voltou a injectar-se com insulina.

Zverev voltou ao quarto e a russa estava a reagir pouco. “Ele apercebeu-se que algo tinha acontecido", conta à “Slate” Olga. O germânico mediu os níveis de açúcar no sangue dela, os quais estavam, segundo ela, a “30 miligramas por decilitro”, um valor arriscado para a vida.

O jogador deu-lhe um pacote de açúcar e, quando ela começou a melhorar, Sharypova diz que o alemão a começou a questionar sobre os “porquês das ações dela”, começando a gritar porque “se ela tivesse morrido no quarto dela, seria um grande problema para ele”.

Emmanuel Wong/Getty

No dia seguinte, Sharypova “não tinha sentimentos, nem emoções, nem palavras”, tendo começado a “culpar-se a si própria”, dizendo que Zverev era “a verdadeira vítima” de tudo aquilo.

Naquele momento, a 10 de outubro de 2019, o alemão “atacou Olga com mais violência que nunca”, conta a jovem à “Slate”, naquele que foi o “episódio final”, diz a russa. “Ele começou a dizer para eu arrumar as minhas coisas e me ir f****”.

Sharypova foi tomar um duche, durante o qual Zverev não parou de gritar do lado de fora da porta. Olga diz que “quando saiu do duche”, começou a tirar a toalha e o jogador dizia-lhe para “arrumar as coisas imediatamente e ir-se embora”, isto enquanto a russa ainda estava nua.

A partir desse momento, Sharypova acusa Sascha de a ter “agarrado pelo pescoço e empurrado contra as paredes da casa-de-banho”. “Ele começou a bater-me e eu apercebi-me que não sou um cão para ser batida”, tendo tentado sair do domínio do alemão, que a “estava a insultar enquanto a agredia”, segundo relata Olga. “Ele dizia-me coisas como ‘espero que morras, devias ter morrido ontem, mas não no meu quarto. Não quero problemas, não quero ter de continuar a lidar contigo”, tendo Olga respondido, “a chorar”, que “se quiseres que eu morra, dá-me insulina, eu vou para a rua e pronto. Não consigo mais aguentar com isto”. E Zverev foi-se embora.

Pouco depois, apareceu o pai de Zverev no quarto, segundo conta Olga à “Slate”. E, de acordo com o relato da russa, o progenitor do jogador disse-lhe que ela tinha “até à noite” para se ir embora e que caso não o fizesse, “seria processada”, porque eles tinham “fotografias” da jovem a esmurrar o tenista.

Após este incidente, Sharypova foi ter com a madrasta de Surduk, que ia recebendo mensagens de Zverev com pedidos para que, novamente, esta promovesse a reconciliação do casal. Olga foi viver, durante dois meses, com a madrasta do seu amigo para a casa que esta tinha em Phuket, na Tailândia, enquanto também Sharypova recebia mensagens com pedidos de reconciliação por parte de Sascha.

Até que, no final de 2019, deu-se uma última tentativa de Sascha. Zverev estava na América Latina e ligou à jovem por FaceTime, ajoelhando-se e pedindo-a em casamento. “Se alguma rapariga me disser que teve o pior pedido de casamento de sempre”, diz à “Slate” Olga, “Eu dir-lhe-ei ‘querida, não tiveste. Eu tenho uma história para ti’”.

Sharypova diz que não fala com Zverev desde dezembro de 2019.

A russa nunca apresentou queixa e disse à “Racquet” que não pensa tomar qualquer ação civil ou criminal pelo que acusa o alemão de lhe ter feito, pois “não quer nada dele”. “Apenas quero dizer a verdade”, diz Olga, bem como ser um exemplo para “muitas raparigas nesta situação”, as quais “ficam em silêncio” por “medo do que se diga”.

A reação de Zverev

Alexander Zverev tem negado, sempre, todas as acusações feitas. Uma carta dos advogados do alemão, logo a seguir à primeira vez em que Sharypova acusou o jogador, refere que as notícias são “baseadas em premissas obviamente incorrectas”.

No final de outubro de 2020, o alemão vincou que “há sempre pessoas que não querem o melhor para ti e que te tentam empurrar para baixo quando estás no topo”, referindo que era o seu trabalho “não deixar” que isso o afectasse e que o “mais importante na vida” é “ter um sorriso no final do dia”. “Sinto-me muito bem no campo, tenho pessoas à minha volta que me amam. Provavelmente, serei pai em breve, então está tudo óptimo na minha vida”.

Christof Koepsel

Uma semana depois, nas ATP Finals de Londres, Zverev mudou o seu discurso, desta feita lendo notas do seu telemóvel. “Devo manter-me com o que disse inicialmente: as acusações são falsas. Peço desculpas pelo foco ter saído do desporto. Todos nós amamos ténis e é para isso que aqui estamos”.

Durante o ano de 2021, Zverev continuou a negar todas as acusaões. Na passada edição do US Open, Sascha disse ter os seus “advogados alemães e americanos” a trabalhar no tema, tendo apresentado queixa contra “a fonte e o autor que publicaram as alegações falsas”. O germânico disse ainda que tem “lidado com isto há muito tempo” e que a imprensa deveria ser “justa com ele”, porque “temos falado da saúde mental dos jogadores” e “isto não é saudável" para ele.

ATP, um silêncio ensurdecedor

Dezasseis dias após a acusação inicial de Sharypova a Zverev, a ATP fez um comunicado genérico, no qual, sem mencionar o caso em específico, disse “condenar todas as formas de violência”, esperando que “todos os membros do circuito façam o mesmo”. O organismo disse que, “caso um processo judicial tivesse lugar”, a ATP atuaria, “caso contrário” a entidade “não pode comentar acusações específicas.

Ora, tendo em conta a recusa de Olga em apresentar queixa contra Sascha, este exigência de existência de um processo judicial parecia colocar a ATP de parte.

No entanto, os especialistas alertam que, segundo o regulamento do circuito, os “jogadores não podem, em momento algum, agredir, seja de que maneira for, dirigentes, oponentes, espectadores ou outras pessoas dentro das instalações dos torneios”. Ora, isto inclui os hotéis dos torneios e as acusações de Sharypova contra Zverev em Genebra e Shanghai aconteceram em hotéis oficiais das competições.

A 29 de agosto de 2021, a ATP fez um comunicado no qual parece ajustar a sua posição inicial. No texto, a organização diz que irá promover um relatório “geral” e “independente”, que fará um “conjunto de recomendações que elevem a protecção da segurança” no circuito, incluindo em questões de “violência doméstica”.

“Reconhecemos que temos a responsabilidade de fazer mais”, disse Massimo Cavelli, CEO do ATP Tour. Zverev, durante o US Open, disse “apoiar” este novo “código de conduta”.

A atuação da ATP durante todo este processo (não há evidências de que o caso específico de Zverev esteja a ser investigado) tem sido alvo de críticas. Milos Raonic, jogador canadiano e também antigo número 3 mundial, disse, em entrevista à “Rolling Stone”, sentir-se "envergonhado decepcionado” pela falta de ação da entidade. “A ATP deveria fazer mais para proteger o desporto”, disse o tenista, que acusa o organismo de estar “somente à espera que isto passe”.

De acordo com Raonic, as “próprias regras da ATP” dizem que não se pode agredir pessoas nas instalações dos torneios e que “no passado” houve “outros incidentes que decorreram em hotéis das competições”, os quais foram punidos.

Nikoloz Basilashvili, georgiano que é número 35 do ranking, é acusado de violência doméstica pela sua ex-mulher. No último torneio de Wimbledon, o campeão britânico Andy Murray jogou, na primeira ronda, contra Basilashvili e foi questionado sobre as acusações que recaem sobre o georgiano e sobre Zverev.

“Eu acho que deveria haver um protocolo e um processo quando acusações como esta são feitas. A ATP, a ITF, a organização dos Grand Slams, estas organizações deveriam procurar colocar esses tipo de processos em prática”, disse Muray.

As críticas surgiram também de Darren Cahill, australiano com assento no conselho de jogadores do ATP e que é o treinador da jogador romena Simona Halep, que acusou a instituição de ser “fraca e negligente” a lidar com o tema de Zverev. “Há normas sobre doping, sobre apostas. Certamente que, internamente, é possível investigar isto a um nível, pelo menos, mínimo”, disse, acrescentando, depois, que todos devem ser "mais pró-activos” neste tipo de temas.

Também Martina Navratilova, vencedora de 18 títulos do Grand Slam, se uniu às críticas, dizendo que se trata de uma situação de “diz-que-disse” que “tem de ser resolvida" pois “não há tolerância para este tipo de comportamento”, explicando que “quer acreditar em Zverev”, mas que “neste tipo de situações, tende a acreditar nas mulheres”.

No circuitos ATP e WTA, mundos nos quais os jogadores passam boa parte do ano a viajar à volta do mundo, os seus companheiros e companheiras, muitas vezes, acompanham os tenistas nessas viagens pelo globo terrestre. Ora, os especialistas indicam que esta situação pode aumentar a vulnerabilidade de possíveis vítimas, pois estas estão isoladas de família e amigos, longe de redes de apoio e passando muitas horas solitárias e impessoais em quartos de hotel.

Nos últimos meses, Zverev tornou-se campeão olímpico de ténis e assinou um contrato com a Rolex para ser embaixador da marca de relógios. Já Sharypova teve dificuldades para encontrar trabalho quando voltou a Moscovo porque, como conta à “Slate”, as “empresas procuravam” o seu nome e, ao ver as notícias das suas queixas contra Zverev, “não a queriam contratar”. Essa recusa levou a jovem a apagar os seus posts no Instagram contra o jogador, ainda que mantenha o teor do que neles escreveu.

Recentemente, Olga conseguiu um trabalho “numa boa empresa com excelentes pessoas”, ainda que não queira revelar qual.

E, na entrevista à Slate, termina com uma mensagem para Zverev: “Não consegues dizer a verdade porquê? Não tem de ver comigo, tem de ver contigo. Deves ser honesto contigo próprio”.