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“Quero ganhar os quatro Grand Slams e a medalha de ouro olímpica.” A determinação de Iga Swiatek, a tenista mais nova no top-5 mundial

Iga Swiatek tem 20 anos e pode ser uma das estrelas em ascensão do ténis feminino, mas a sua timidez esconde uma determinação e eloquência rara para a sua tenra idade: trabalha há dois anos com uma psicóloga desportiva e admite que está a "aprender a ser uma celebridade"

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MARTIN BUREAU/Getty

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Em menos de um ano, Iga Swiatek ascendeu da 54.ª posição do ranking WTA (a associação de ténis feminino) para o top-cinco mundial, tornando-se na jogadora mais nova a conseguir fazê-lo desde Maria Sharapova em 2004.

É que exatamente nesta altura em 2020, a jovem tenista tinha acabado de vencer o seu encontro da terceira ronda de singulares em Roland Garros (adiado para outubro por causa da pandemia). Poucos apostariam que, uma semana mais tarde, se tornaria na primeira tenista polaca a vencer um ‘major’ (sinónimo para Grand Slam).

Desde então nada foi igual. Swiatek tornou-se na nova estrela do ténis mundial e todas as grandes marcas queriam estar associadas a ela. Depois da sua vitória no pó de tijolo de Paris, a empresa francesa, Tecnifibre passou a ser o seu patrocinador de raquetes. Na altura, a ainda adolescente jogava com uma raquete da marca Prince, mas não tinha qualquer acordo com a mesma. No início de 2021, assinou um contrato com a famosa marca Rolex e também com a PZU, uma das maiores instituições financeiras da Polónia.

Além de todas estas obrigações com marcas e patrocinadores, o seu jogo e postura em court, deixou antigos campeões de torneios do Grand Slam rendidos. Logo após a sua vitória em Roland Garros, Mats Wilander, ex-tenista sueco e campeão de sete títulos do Grand Slam, deixou largos elogios à jovem polaca. “Eu acredito, genuinamente, que Swiatek pode ser a tal. Não vi uma jogadora que seja tão completa em todas as pancadas enquanto constrói os pontos e que bata tão cedo na bola”, disse, na sua análise no canal "Eurosport".

E ainda acrescentou: “Ela bate na bola com muita força e não tem qualquer fraqueza. Tem uma variação de jogo incrível. Ela vai vencer muitos Grand Slams.”

Estilo de jogo e admiração a Rafael Nadal

A verdade é que Swiatek é conhecida por possuir um jogo agressivo, cobrindo bem todo o court. Devido ao seu jogo de ataque, a jovem tem uma grande facilidade de fazer winners, mas também comete alguns erros não forçados. Mesmo assim, a tenista polaca consegue jogar com margem, muito por culpa da sua facilidade em colocar spin na bola, fazendo lembrar o tenista espanhol e também seu ídolo, Rafael Nadal.

Depois de se tornar na nova estrela do desporto polaco, a jovem tenista confessou que o tenista maiorquino foi o jogador que mais a fascinou desde criança, altura em que não via muito ténis ou preferia fazer de conta que era o seu herói de infância na PlayStation. “O tenista que mais me cativou foi Rafael Nadal. Creio que tento copiar o estilo de jogo dele, batendo na bola com muito spin. Um dos meus treinadores disse que isso podia ser um dos meus pontos fortes”, afirmou, citada pela "Bola Amarela", um dos sites de referência sobre a modalidade em Portugal.

Curioso é que dias antes de cumprir o seu 20.º aniversário, Swiatek treinou com Nadal antes do arranque da mais recente edição de Roland Garros, e fez questão de mostrar a sua felicidade na sua conta do Instagram.

Instagram

Influência da sua família

Mas, surpreendentemente, quando competia no escalão júnior (para tenistas até aos 18 anos), a jovem não via muito ténis. Apenas queria ir para um court jogar.

Este sentimento ou desejo começou muito por culpa da sua irmã, Agata, três anos mais velha. Aliás, começou a praticar a modalidade porque queria derrotar a sua irmã, mas isso acabou por não acontecer, porque, aos 15 anos, Agata foi forçada a desistir devido a lesões.

Swiatek nasceu em Varsóvia, a capital da Polónia, em maio de 2001 e o seu pai, Tomasz, um ex-remador profissional que competiu nos Jogos Olímpicos de Seoul, em 1988, foi a sua principal motivação para que ela e a irmã praticassem desportos individuais e tivessem melhores hipóteses de controlar o sucesso.

Mas tanto o seu pai como a sua irmã foram importantes para que se iniciasse no ténis com cinco anos. “Lembro-me que a minha irmã praticava nuns courts em Varsóvia. Na altura, eu não tinha idade para estar numa academia, portanto eu e o meu pai íamos bater umas bolas contra uma parede e jogávamos um contra o outro”, recordou em entrevista um programa de televisão polaco, “Mój pierwszy raz” ("A minha primeira vez", em português).

Equilíbrio entre o ténis e a escola

Até aos 12 anos competiu em torneios internos no seu país, mas, a partir de 2015, começou a participar em torneios no escalão júnior pela Europa. No ano seguinte, já tinha participado no seu primeiro torneio do Grand Slam para sub-18, onde alcançou os quartos-de-final de Roland Garros, tanto em pares como em singulares.

Na altura, Swiatek conciliava os estudos com as competições, algo que fez até acabar o ensino secundário o ano passado, o que tornava difícil ser consistente no circuito internacional de juniores. Nessa mesma altura, a jovem tenista polaca também teve de lidar com lesões graves no tornozelo e no pé e a própria duvidou se conseguiria voltar a jogar ténis. “Foi muito duro, achei que não voltaria a competir. É muito complicado recuperar de uma lesão, especialmente mentalmente”, admitiu, citada pelo "Bola Amarela".

Contudo, foi em 2018 que chegou o seu momento alto em juniores. Em junho, chegou às meias-finais de Roland Garros, onde também acabou por ganhar na vertente de pares. Umas semanas mais tarde, sagrou-se campeã sobre a relva de Wimbledon, conseguindo assim o seu primeiro título do Grand Slam em sub-18. Confessou que “estava tão zangada por ter perdido em Paris, que [usou] toda essa frustração em Wimbledon, onde acabei por ganhar.” Acabou a sua carreira de juniores no top-cinco do ranking da Federação Internacional de Ténis (ITF).

A jovem polaca só começou a participar em torneios do circuito WTA em 2019, onde nesse ano acabou por terminar pela primeira vez na sua carreira no top-100 mundial, ao alcançar a 4.ª ronda no maior torneio de terra batida do circuito, a sua superfície favorita. Acabou por ser totalmente trucidada pela romena Simona Halep, mas soube saborear essa experiência, mesmo estando “super stressada e nervosa”, como confessou, em conferência de imprensa.

Pode estar a competir ao mais alto nível, mas Swiatek é apenas mais uma jovem da sua idade.

Até 2020 conciliava os estudos com os torneios em que participava, algo que a própria confessou “ser extremamente difícil”, mas contou com a ajuda e compreensão dos seus professores. “Ando numa escola privada e os professores ajudaram-me muito, mas quando regresso dos torneios tenho que pôr a matéria toda me dia”, contou ao "WTA Insider".

Swiatek é uma rapariga de números. Adora matemática e até esteve indecisa se iria tirar uma licenciatura, porque desde pequena que os seus pais lhe incutiram a importância de ter uma boa educação. Mas, fora do ambiente escolar, a jovem polaca adora ler — viaja sempre com livro longo para se manter entretida, revelou durante a mais recente edição do maior torneio norte-americano de ténis. Também gosta muito de ouvir música, especialmente Pink Floyd ou o “Thunderstruck” dos AC/DC, porque “antes dos jogos é bom ouvir algo mais agressivo”, explicando assim porque entra sempre em court com os auscultadores nos ouvidos.

Cameron Spencer/Getty

Ganhando consistência

Tudo isto são rituais que lhe têm ajudado a manter a sua consistência e a lidar com a pressão na sua primeira temporada a tempo inteiro. Depois da sua espetacular vitória em Roland Garros o ano passado, Swiatek tornou-se famosa no seu país, levando com que a sua equipa, liderada pelo seu treinador desde 2016, Piotr Sierzputowski, fizessem ajustes aos planos de treinos para que a jovem se sinta mais confortável e concentrada.

Muitas vezes, isso inclui organizar treinos fora do seu país natal. Mesmo assim, Swiatek sente a pressão. “Gostaria de me sentir mais aliviada, mesmo que tenha feita uns bons jogos e ganhado o meu segundo título em Adelaide, continuo a achar que não é suficiente. Sei que está errado, mas é assim que funciona o meu cérebro”, revelando o seu nível perfecionismo, ao "WTA Insider".

Embora a tenista de 20 anos não tenha conseguido replicar o sucesso em Roland Garros este ano, a jovem polaca começou a temporada chegando pela primeira vez à 4.ª ronda do Open da Austrália e, depois, conquistando o seu segundo título de carreira, em Roma, dando uma autêntica bicicleta (6-0, 6-0) à ex-número mundial, Karolina Pliskova.

Já no torneio parisiense, ficou-se pelos quartos-de-final, mas confessou que não estava nas melhores condições para esse encontro. Tanto em Wimbledon como em Flushing Meadows (local onde decorre o US Open) chegou à 4.ª ronda — tornando-se na única jogadora do circuito feminino a conseguir alcançar a segunda semana em todos os Grand Slams.

Lidar com a pressão

Mas a subida no ranking tem afetado o estado mental de Swiatek, que não gosta de ser o centro das atenções, como já fez questão de referir em conferências de imprensa. É que a jovem polaca é algo introvertida e preza muito a saúde e bem-estar mental, estando a ser acompanhada quase a tempo inteiro por Daria Abramowicz, a sua psicóloga desportiva desde 2019, algo a que os pais não estavam muito recetivos no início. “Trabalho com uma psicóloga há dois anos. Apenas penso que a força mental é uma das coisas mais importantes no ténis neste momento, porque todos jogam a um nível altíssimo. Mas, os melhores são aqueles que se conseguem superar em momentos de maior pressão”, refere o site oficial de Roland Garros.

Toda a pressão e mediatismo à sua volta tem-se revelado, por vezes, demasiado para a tenista de Varsóvia. Entre Roland Garros e a participação nos Jogos Olímpicos de Tóquio, Swiatek confessou que não conseguia dormir bem, porque ao adormecer só via bolas de ténis. Depois de chorar uns 15 minutos após a derrota na 2.ª ronda do torneio olímpico, regressou a casa e tirou uns dias de férias, onde até teve tempo para arranjar as unhas, algo que admitiu não fazer com muita frequência.

Por enquanto, Swiatek brinca que “está a aprender a ser uma celebridade”, mas parece gostar da adrenalina. Ressalva que não presta muita atenção aos rankings e que está “focada em seguir o seu próprio caminho”, como disse durante o US Open deste ano. Agora, o seu caminho levar-lhe-á até Indian Wells, no deserto da Califórnia para um dos principais torneios do circuito WTA.