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Ténis

Paula Badosa "esteve num buraco", sofreu com ansiedade e depressão, mas agora "vive um sonho"

Campeã do torneio Roland Garros júnior em 2015, a espanhola foi, desde nova, comparada a Sharapova, que sempre idolatrou. Mas "as pessoas meteram-lhe muitas coisas na cabeça" quando ainda "era muito jovem" e Badosa não conseguiu lidar com as expectativas, sofrendo uma "crise pessoal". Paula deu a volta por cima e está a ter em 2021 o seu ano de afirmação: entrou no top-30 do ranking, ganhou o seu primeiro título WTA e agora está na final de Indian Wells

Pedro Barata

Matthew Stockman/Getty

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Sejamos sinceros: o gosto por um jogo de direitas profundas, o cabelo aloirado, os olhos cristalinos, a altura acima da média face às restantes jogadoras, a gestualidade muito expressiva no court, até mesmo algumas feições faciais, a roupa escolhida para jogar... Há muito de Maria Sharapova em Paula Badosa. E há muito da lendária tenista russa na espanhola não só por questões que estarão relacionadas com a genética, mas também porque Maria sempre foi a grande referência de Paula, a jogadora que ela, de tanto apreciar, quase chegou a imitar em certos aspectos.

À medida que Badosa ia crescendo, aqueles que acompanhavam a sua progressão foram-se apercebendo dessas semelhanças e enchendo - ainda mais - a cabeça da adolescente com a comparação. Quando, em 2015, venceu o torneio júnior de Roland Garros, Paula, então com 17 anos, assumiu "ser uma grande fã" do estilo de Sharapova. E as páginas dos jornais espanhóis encheram-se com comparações entre a jovem Badosa e a lenda Maria.

Gonzalo Arroyo Moreno/Getty

Mas já Theodore Roosevelt avisava que "a comparação é o roubo da alegria". E a adolescente Badosa rapidamente se apercebeu disso. "De repente, caí a pique. Geraram-se umas expectativas demasiado elevadas à minha volta. Dizia-se que seria a próxima Muguruza, a próxima Sharapova... Mas, no final de contas, elas são grandes jogadores que ganharam torneios do Grand Slam e eu só tinha 17 anos", disse, em 2020, ao "El País".

Paula não conseguiu aguentar o peso das expectativas depositadas em si. O salto de jovem promessa para tenista que tinha de competir ao mais alto nível do profissionalismo foi demasiado grande para si e a sua cabeça pagou esse preço. "Diziam-me que no ano seguinte já deveria estar entre as melhores e eu não estava preparada para assumir isso. As pessoas meteram-me muitas coisas na cabeça quando eu ainda era muito jovem. Até àquele momento ninguém me conhecia, e a partir dali parecia que tinha de ganhar todos os jogos".

Meses de dúvidas e de cabeça a andar à volta no mundo de viagens solitárias e competição feroz que é o ténis profissional levaram-na a ter "muita ansiedade" e a "sofrer uma depressão". Na referida entrevista ao "El País", Badosa conta que "esteve num buraco" e que não se encontrava "preparada sob o ponto de vista físico e mental" para a alta competição, o que a levou a ter uma "crise pessoal. "Pensava que nada do que estava a fazer tinha sentido".

Clive Brunskill/Getty

Até que, em setembro de 2018, Paula, pouco antes de cumprir 21 anos, ligou a Xavi Budó, o homem que durante muitos anos foi tutor de Carla Suárez, uma das melhores jogadoras espanholas da última década. "Ela disse-me que estava destruída e que não sabia se queria continuar a jogar", revelou, também ao "El País", o treinador, que revela que Badosa era "muito auto-destrutiva, emocional e extremista", parecendo um "brinquedo estragado" de tanto ter sido comparada e alvo de expectativas irreais.

Pouco a pouco, Paula foi reencontrando o seu ténis, graças a um "trabalho de recuperação mental, feito pouco a pouco", não só com Budó, mas também com psicólogos que a acompanharam. Badosa "nunca tinha vontade de jogar" e, com a ajuda dos profissionais, "recuperou a auto-estima" e a "força para avançar", num esforço que teve como base "mudar comportamentos no quotidiano".

E, em 2021, os frutos do trabalho estão a ser colhidos, com a atleta a viver os meses da sua consagração definitiva no circuito WTA: começou o ano na posição 70 do ranking, e agora é a 27.ª da hierarquia; venceu, em Belgrado, o primeiro torneio WTA da sua carreira; chegou aos quartos-de-final de Roland Garros, a sua melhor prestação de sempre num major; e acaba de derrotar a tunisina Ons Jabeur para chegar à final de Indian Wells, na primeira vez que chega à partida decisva de um torneio WTA 1000.

Paula, com o troféu do Serbia Ladies Open, em maio

Paula, com o troféu do Serbia Ladies Open, em maio

Srdjan Stevanovic/Getty

A vitória frente a Jabeur foi o seu quarto triunfo seguido frente a tenistas do top-15 mundial. Na final de Indian Wells, Badosa enfrentará Victoria Azarenka, antiga n.º1 mundial e duas vezes vencedora do Australian Open, o que significa que, se vencer o torneio, a espanhola fá-lo-á deixando pelo caminho três antigas vencedoras de Grand Slams, dado que já bateu Barbora Krejcikova e Angelique Kerber.

Depois de travar duras batalhas contra si mesma, Badosa desfruta agora tentando derrotar as melhores jogadoras do mundo. A jogadora assume o "orgulho" por tudo o que tem conseguido, frisando que "mentalmente" sente "uma grande confiança", acreditando "em cada ponto e em cada dia". "Estou muito emocionada por estar na final. Ainda mal consigo acreditar, é uma sensação incrível", resume.

Filha de pais ligados ao sector da moda, Paula nasceu em Nova Iorque, mas cedo se fixou com a família na zona da Costa Brava, em Espanha. Badosa garante sentir-se "parte americana", o que torna ainda "mais especial" estar a viver um dos melhores momentos da sua carreira em Indian Wells, competição disputada na Califórnia.

A espanhola, que já leva 40 triunfos esta época, tornou-se na primeira jogadora do seu país a estar na final de Indian Wells desde Conchita Martínez, que foi vice-campeã em 1992 e 1996. E, a cada vitória, Paula não deixa de recordar onde está a chave do seu êxito, apontando para a sua cabeça num gesto de celebração que já se tornou uma imagem de marca. Badosa não quer esquecer onde está a sua grande mudança.

Quality Sport Images/Getty

Se a vida de Paula tem sido, como ela própria diz, uma "montanha-russa", agora a tenista está no ponto mais alto. Indiscutivelmente uma das melhores jogadoras de 2021, a sua consistência de jogo e agressividade têm-na levado a níveis de competitividade que, há poucos meses, eram difíceis de imaginar. Afinal de contas, só em maio deste ano entrou, pela primeira vez, nas 50 primeiras posições do ranking WTA.

FREDERIC J. BROWN/Getty

O crescimento de Badosa foi feito lentamente, mas recorda-nos da importância da prudência quando falamos de "jovens prodígios" que, na verdade, são mentes adolescentes com as suas dúvidas, medos ou inseguranças. Paula recorda frequentemente a batalha que travou, porque "sofre-se muito em silêncio" e a jogador quer "normalizar" os pedidos de ajuda quanto à saúde mental.

"Passei por momentos muito duros na minha vida: tive depressão e ansiedade quando era muito nova e viver um sonho como este tornar-se realidade é incrível", confessou a jogadora depois do triunfo frente a Ons Jabeur. Paula Badosa continua a idolatrar Maria Sharapova, mas a admiração já não acarreta o peso da comparação, já não é um fardo insuportável. Com a mente liberta, a espanhola tem soltado o seu melhor ténis para mostrar que merece um lugar entre as melhores.