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Um Azar do Kralj

Chuta daí, caramba! (por Um Azar Do Kralj)

Ok, não foi bem isto que todos dissemos, mas percebem a ideia. Foi há precisamente dois anos que Eder rematou para a eternidade e Portugal se sagrou campeão da Europa. Vasco Mendonça escreve sobre o momento que nos mudou para sempre

Vasco Mendonça, Um Azar Do Kralj

Dan Mullan

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Faz hoje dois anos que deixámos de imaginar como é ser cidadão de um país capaz de ganhar uma grande competição de futebol sénior.

A seleção portuguesa é uma coisa muito bonita porque não é a melhor, mas é capaz de ganhar aos melhores, e o sabor dessas vitórias é muito melhor. Dura mais tempo. Se fosse um vinho, seria um final de boca doce e persistente. É por isso que dois anos depois, faz hoje certinhos, ainda celebramos como se tivesse acontecido ontem.

A seleção portuguesa é uma coisa muito bonita porque representa o país inteiro. Os seus credos, as suas etnias, as suas manias, a sua fé inabalável no melhor desfecho, ou até a convicção enternecedora com que muitos dizem, no momento da derrota, que já estavam mesmo a ver. Mas nem todos viram o mesmo. Duas pessoas viram outro destino.

Foi uma coisa que aconteceu como todas as grandes vitórias portuguesas ao longo dos tempos. Os cínicos que me perdoem, mas não estou a falar convosco. Ninguém pediu permissão para navegar por esse mundo fora. Ninguém perguntou se dava para fundar este país e defendê-lo. Porque é que o Éder haveria de ter pedido licença antes de marcar aquele o golo?

O futebol pode ter muitos activos tóxicos, mas deu-nos essa gana toda. É a nossa fortuna e a nossa ruína. Por um lado, perguntamos retoricamente em que outra ocasião viram 40 mil portugueses cantar o hino como no Terreiro do Paço durante este Mundial? Será que alguma outra ocasião na vida portuguesa o justificaria?

Pois.

Aceitemos então, como deveríamos aceitar que Fernando Santos é a melhor coisa que aconteceu à nossa seleção em muitos anos. Porque nos devolveu identidade sem nos privar da nossa loucura que permite chegar longe, chegar vivo à mãe de todas as noites, à festa de todas as festas.

Primeiro que tudo, é preciso chutar. Seja de onde for. Momentos antes do pontapé de Éder, um homem na bancada expressou visceralmente esse desígnio, essa missão nacional: aquilo que todos desejamos, hoje e sempre, retirar desta vida portuguesa. Queremos um golo, uma vitória, queremos ficar roucos de alegria, rir às gargalhadas dos nossos prognósticos de derrota, chorar de alegria com a nossa sorte, queremos a festa toda a que temos direito, custe o que custar.

É por isso que o lema se mantém vivo como se tivéssemos ouvido ontem pela primeira vez. Ontem, hoje, e sempre, no campo como na vida: chuta daí, caramba (não era bem isto, mas percebem a ideia).