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Um Azar do Kralj

Como Um Azar do Kralj viu o momento em que Grimaldo acolheu Cervi de braços abertos na esquerda como se a Lassie tivesse regressado a casa

Vasco Mendonça adorou a dinâmica entre os donos do lado esquerdo do Benfica durante o jogo com o PAOK mas, por outro lado, teme que o futebol de Zivkovic viva um momento PSEC: Processo de Seferovicização em Curso

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

Carlos Rodrigues/Getty

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Vlachodimos

Revelou um extraordinário sentido de baliza quando assinou o 1-5 aos 87 minutos. Não é assim que funciona? Se não é, devia. As duas defesas de que me recordo, uma aos 35' e esta aos 87', foram o inaugurar do marcador e o fecho da contagem. A última estocada foi bonita, uma espécie de fatality com Shakhov de cabeça tombada e o Scorpion das Laranjeiras a aceder aos cânticos dos adeptos benfiquistas presentes em Atenas, gritando a uma só voz: FINISH HIM.

André Almeida

Os poderes ocultos da UEFA tentaram condicioná-lo com um amarelo no primeiro minuto de jogo, mas André Almeida porfiou até final, às vezes no limite do segundo amarelo, quase sempre contra a vontade dos benfiquistas, demonstrando sem rodeios que será preciso muito mais para o travar, nomeadamente a maioria dos defensores das equipas presentes na Champions.

Rúben Dias

Bonito gesto no final do jogo quando foi à bancada despedir-se dos adeptos do Lyon presentes no estádio. Vai deixar saudades.

Jardel

Reanimou os benfiquistas com um cabeceamento colocado que faria corar de inveja o seu homónimo e evitou in extremis a decapitação em curso de Rui Vitória. A expressão facial do capitão quando o árbitro assinalou penalty aos 48' passou por 3 estados: primeiro questionou-se, tal como nós, se esta noite europeia estava mesmo a acontecer; logo depois, foi invadido por um misto de raiva e resignação perante a mais que provável continuidade de Rui Vitória no clube; finalmente, lembrou-se do prémio de jogo pela qualificação e abraçou os colegas em €xtâse.

Grimaldo

Vejam e revejam o lance individual que está na origem do terceiro golo. Não é de génio porque, vá, isso seria sobrevalorizar o nosso lateral-esquerdo. É um lance brilhante do nosso velho Grimaldo. Recebe encostado à lateral esquerda, talvez demasiado encostado. Um adversário prepara-se para acossar o espanhol. Parece uma daquelas "saídas a jogar" que geralmente acabam com Fejsa a fazer a dobra a alguém na área. Mas não. Grimaldo desenvencilha-se do primeiro adversário e vai por ali fora percorrendo a maior e pior tarja de apoio à Macedónia jamais vista num estádio de futebol. Os macedónios na bancada rejubilam. Grimaldo tabela com Cervi, volta a receber encostado à linha, adquire dupla nacionalidade, rejeita duas chamadas de Sarri, devolve a Cervi e caminha calmamente na direcção de Pizzi para celebrar o golo que ele adivinhara uns 60 metros antes. De vez em quando o Benfica marca um golo assim e uma pessoa não consegue sentir outra coisa que não gratidão.

Fejsa

Colocou meia dúzia de gregos em termo de identidade e residência com obrigação de apresentação regular às autoridades (ele) sempre que pretender visitar o meio-campo adversário.

Pizzi

O melhor lance do Benfica esta época, assim como os restantes que compoem o top 5, só podia ter sido finalizado por ele. É um remate mais difícil do que parece, convertido como se de um penalty se tratasse, por entre uma gincana de pernas que não tiveram outra opção senão deixar passar o maior de Portugal. O festejo esteve à altura: Pizzi pediu algum espaço aos colegas, correu sem bola como raramente faz e deslizou até ao Mónaco para o sorteio de amanhã enquanto batia a pala aos manos de Bragança. É por momentos como este que o Benfica devia ganhar sempre.

Gedson Fernandes

A maioria dos jovens de 19 anos em Portugal nem a cama deles fazem. Não sabem o que querem ser. Acham que o sentido da vida se encontra no Curious Cat. Perdem-se em quezílias inconsequentes no Twitter. Ilustram as suas crises existenciais no Instagram. Seguem páginas de Facebook sem ponta por onde se lhe pegue, como o Azar do Kralj. Enfim. Depois há Gedson Fernandes. Um jovem de 19 anos que aproveitou o mês em que nada se faz neste país e toda a gente descansa do pouco que fez nos outros 11 meses, para completar o sétimo jogo oficial como titular num dos cargos mais importantes a seguir à presidência da República: ser o novo menino de ouro do Benfica. Espantoso como não rejeita a pressão e a responsabilidade por um minuto que seja, nem mesmo com uns gregos prostrados na sua própria casa. Até quando falha nós deixamos seguir. É o benefício da dúvida dado pelo adepto. É a confiança que o rapaz conquistou. Parece que foi ontem, ou há séculos, que o vimos entrar de rompante no nosso meio campo. Não sei. Ainda não percebi bem.

Salvio

Regressou em grande da lesão. Só lhe faltou mesmo dizer adeus a Zivkovic nos festejos dos golos, designadamente dois penalties: um convertido na direção da linha lateral que teve a felicidade de bater no poste; o segundo, que os menos cultos dirão que foi "à Panenka", que na verdade foi marcado à Salvio, naquele limbo tão familiar entre o optimismo e a burrice que tantas vezes testa a nossa fé neste Deus argentino que hoje, como tantas outras vezes, voltou a ser um dos melhores em campo.

Cervi

Tem levado muita pancada, dos adversários e dos adeptos. Fez-lhe bem. Forma carácter. Regressou às diabruras em nome individual, mas brilhou especialmente sempre que combinou com o amigo Grimaldo, que o acolheu de braços abertos no flanco esquerdo como se a Lassie tivesse regressado a casa.

Seferovic

A fé insiste em testar-nos. Podemos negá-la o quanto quisermos, mas os motivos que nos levam a procurar Deus outra vez são amplos e viscerais. Muitas vezes são aqueles infortúnios que ameaçam levar-nos a nós ou àqueles de quem mais gostamos. Outras vezes é a inclusão de um avançado suíço no onze titular. Tudo depende da nossa sorte e da hora a que joga o Benfica. Foi assim que hoje, por volta das 19 horas, quando descobri que Rui Vitória tinha colocado Seferovic a titular, dei por mim a pegar num terço metafórico que tenho sempre comigo e pedi-Lhe que me encontrasse a meio caminho. Não pedi nenhum hat-trick. Bastaria alguma capacidade de fixar os centrais, uma ou outra diagonal capaz de desposicionar o bloco mais recuado do PAOK, alguma capacidade de se movimentar entre linhas e apoiar as incursões dos colegas, e acima de tudo vontade de provar que aquele avançado que vimos arrancar grande exibições há um ano ainda vive. Não sei se foi generosidade para comigo ou para com Seferovic, se para com ambos, mas amanhã de manhã vou à igreja de São Sebastião agradecer.

Alfa Semedo

Alfa Semedo tem ar de quem deve ser muito mais divertido numa festa no Marquês de Pombal do que num jogo de futebol em Salónica. Aliás, é a única razão que vejo para continuar no plantel. Aguardemos.

Zivkovic

O seu futebol vive um momento PSEC: Processo de Seferovicização em Curso. Há ali talento, mas aquela alegria vibrante de bola colada ao pé parece ter sido transladada para a gravata de Rui Vitória, onde não funciona tão bem. Ainda assim, depois de ver a exibição do suíço esta noite, mantenho a esperança.

João Félix

Ainda não respondeu à Maria Inês no Twitter, o que nos parece inaceitável.

  • Diga quarenta e três

    Benfica

    O Benfica até começou a perder em Salónica mas deu a volta ao jogo e saiu do estádio do PAOK com uma vitória por 4-1. Está na fase de grupos da Liga dos Campeões e, não menos importante, enche os cofres com 43 milhões de euros. Quinta-feira à tarde há sorteio