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Um Azar do Kralj

Citius deveria ser apenas nome de reforço lituano da equipa B. E eu sinto falta de futebol - e de vergonha na cara (por um Azar do Kralj)

Este é o desabafo de um benfiquista sobre o caso e-toupeira e sobre um pecado, no mínimo, moral do clube

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

Pedro Fiuza

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Em semana de seleções, fui confrontado com uma dura realidade. À hora em que organizo estas palavras, o editor pergunta-me pelo meu texto. Eu gaguejo e suspiro esbaforido pela mais ténue tentativa de conjugar sujeito com predicado. Poderia apesar de tudo ter escolhido um tema com maior potencial cómico, mas não me apetece ser insultado por sportinguistas o resto deste fim de semana. Assim sendo, não me resta outra opção que seja escrever sobre o arranque da Liga CMTV.

A minha opinião sobre a justiça - desportiva, criminal ou poética - é que os réus já me pregaram partidas que cheguem. A justiça é o último reduto desta descrença. A justiça é também, e acima de tudo, uma modalidade que eu não domino nem quero dominar. Ao contrário de muitos (demasiados) benfiquistas que nos últimos dias limparam o pó ao seu diploma imaginário em direito, eu sou apenas um adepto amador - de futebol e pouco mais, leia-se bem. A única defesa que verdadeiramente desejo acompanhar é composta por André Almeida, Rúben Dias, Jardel, Luisão, Grimaldo e pouco mais.

É por isso com algum (demasiado) enfado que registo ter sido chamado da reserva territorial em que tencionava continuar até aos meus últimos dias nesta terra, para me alistar num exército cuja intifada é conduzida com argumentos falíveis que parecem desculpabilizar ou ignorar uma série de evidências patéticas que, caso fossem imputadas a um José Sócrates da vida ou a qualquer dirigente de outro clube, seriam já uma piada de alcance nacional e matéria suficiente para voltar a instaurar a pena de morte em Portugal.

O campo da justiça, entenda-se, é o tribunal. É aí que uma série de reforços sonantes adquiridos pelo Benfica à Abreu ou à Vieira de Almeida irão representar o clube nos próximos anos. Quando o Jonas descobrir os honorários destas sociedades, vai exigir mais um aumento salarial. Mas o verdadeiro problema da justiça enquanto modalidade é que, tal como o futebol português, joga-se maioritariamente fora de campo.

Dos jornais às redes sociais, passando pela taberna, o nosso diz-que-dissismo e a veia conspiratória que pulsa na têmpora da nossa chico-espertice encarregar-se-ão de contar a história e sentenciar o réu. E por réu entenda-se qualquer um. Este texto, creio que já perceberam, não é uma defesa do Benfica. Esse é crescidinho e sabe defender-se. É mais um elogio fúnebre à patetice que é este futebol, esta gente toda, em todo o lado.

Na justiça, como hoje bem sabemos, também não há treinos à porta fechada. E por isso da fama já ninguém nos livra. Gozaram o prato com o Apito Dourado? Habituem-se à toupeira, que tão cedo não volta a esconder a cabeça. O segredo de justiça é como aquela história do morto que matou o vivo. Há sempre um jagunço que trepa as grades e espreita a tática do adversário, que aparecerá estampada no dia seguinte. Quando dermos por isso, já um ponta-de-lança aparece nas nossas costas em horário nobre a explicar tudo o que se passou como se lá tivesse estado.

E esteve mesmo.

É por isso que o Benfica cometeu, no mínimo, um pecado moral ao permitir, enquanto instituição, através de alguns dos seus funcionários, que isto se passasse. Para mim, Citius deveria ser apenas o nome de um reforço lituano da equipa B. Lamento, mas jamais darei para o peditório segundo o qual aqueles que encabeçaram esta telenovela o fizeram com desconhecimento e absoluta ignorância dos restantes. Os tribunais que avaliem quando esse dia chegar.

Até lá, e porque apesar de tudo confio mais na justiça do que na maioria dos dirigentes desportivos, direi que há uma avaliação a fazer, por muito que custe a quem acha que este despacho de acusação é matéria dúbia para ser avaliada apenas pelos tribunais.

Parece-me, acima de tudo, matéria bastante concreta para ser avaliada pelos benfiquistas - que, se não se mostrarem minimamente embaraçados pelo que lá está, deverão dedicar-se à única modalidade para a qual se encontram (nos encontramos) afinal aptos: o futebol. Não sei se é por ser a semana de seleções, mas sinto falta do futebol. E de alguma vergonha na cara.