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Um Azar do Kralj

Fejsa, o médio que já foi um polvo e agora é uma espécie de pota. Com os tentáculos cheios de nós cegos (por Um Azar do Kralj)

Enquanto assistia ao Benfica-Ajax, Vasco Mendonça também viu Pizzi a entrar em campo com um olho no jogo e outro na Arábia Saudita, à espera que Jorge Jesus embarque a qualquer momento

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

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Odysseas

Neste momento, Odysseas já percebeu o que se passa e deve perguntar o mesmo que nós: quantas vezes mais os adeptos do Benfica deverão ser privados da felicidade de ver o seu clube ganhar jogos para que Rui Vitória possa, eventualmente, um dia quem sabe, voltar a ser feliz ao comando desta equipa?

André Almeida

Ainda me lembro da última vez que elogiei André Almeida. Foi a propósito de um cruzamento seu que resultou em golo. Parece que foi ontem. Estou a brincar. Parece que foi há alguns anos. Na verdade só se passaram algumas semanas, mas estes últimos tempos de Benfica parecem anos de sofrimento, e as exibições de André Almeida parecem saídas de um manual de técnicas utilizadas em Guantanamo. A sua passividade no lance do golo do Ajax não só devia enervar qualquer bom chefe de família, como é quase meio golo.

Ruben Dias

Não se espantem com as travadinhas durante o jogo de hoje, em especial no golo do Ajax. Como qualquer benfiquista que se preze, Ruben Dias procurava João Félix nas bancadas para lhe mandar aquele abraço solidário.

Jardel

Depois da expulsão desnecessária frente ao Moreirense, Jardel passou os dias seguintes numa formação intensiva em Técnicas para Lidar com o Insucesso. Reapareceu hoje, emocionalmente mais estável e aparentemente pronto para encaixar o que falta da presente época. É isto que se pede de um capitão: que seja uma figura inamovível, a rocha que persiste nos momentos maus, nos momentos péssimos, nos momentos que não lembram ao menino Jesus, e eventualmente em caso de vitória.

Grimaldo

Depois de ter assistido ao jogo contra o Moreirense em pleno relvado, Grimaldo apresentou-se em excelentes condições físicas e foi talvez dos que mais lutou por um desfecho diferente. Fê-lo quase sempre em registo pilha de nervos, alternando entre tentativas algo atabalhoadas de jogo colectivo e alguns lances individuais resultantes de falhanços do jogo colectivo em que Grimaldo pareceu chamar a si a responsabilidade de salvar o Benfica de Rui Vitória. Já na zona mista, queixou-se das críticas dos adeptos e disse que não as compreende. Curiosamente, não disse isso depois do jogo contra o Moreirense.

Fejsa

Depois de anos a ser comparado com um polvo, pela capacidade de chegar a todo o lado e controlar as operações no meio-campo, Fejsa é hoje uma sombra do homem que todos conhecemos. Esqueçam o polvo. São tentáculos de pota e estão cheios de nós cegos. Tragam-me antes um bitoque.

Gabriel

Perante a ausência de Pizzi, Gabriel foi um dos homens incumbidos de pensar o jogo e dar à equipa aquele ritmo capaz de a conduzir na direcção das vitórias. Falhou com a distinção de um condutor de Uber no seu primeiro dia, mostrando uma dificuldade confrangedora em mostrar o tipo de jogo que já o vimos fazer. Esteve particularmente mal nos três últimos terços do terreno e teve nos pés o golo da vitória. Falhou de forma algo displicente, o que deverá prejudicar o rácio de Rui Vitória nas competições europeias.

Gedson

Sinto que preciso de me apaixonar novamente por Gedson Fernandes, o que é preocupante porque nos conhecemos há poucos meses. É como se as coisas tivessem avançado depressa demais. A paixão fogosa deu lugar a um súbito anúncio de noivado e Gedson parece agora apostado em mostrar que pode ser um bom chefe de família, quando na verdade todos nós - a noiva desta bonita analogia - só queremos que ele volte a surpreender-nos com uma patetice digna da sua idade. Ao invés disso, Gedson continua equivocadamente a dizer-nos que quer ter filhos, arranjar um cão, pagar as contas e criar um perfil conjunto no Facebook, tudo isto com a euforia existencial de um técnico oficial de contas.

Cervi

Aquele canto mal marcado logo a abrir o jogo é tão penalty como o lance do Sterling contra o Shaktar. Isso ou uma tentativa clara de agressão aos adeptos que pagaram bilhete. Seja como for, a UEFA não pode continuar a assobiar para o lado.

Salvio

Clássico.

Jonas

O corpo humano tem uma inteligência distinta da que é facultada pelo nosso cérebro. O corpo comunica connosco, avisa, confirma, questiona, e às vezes de forma quase premonitória. No caso de Jonas, o seu corpo continua a pedir-lhe que abandone o relvado. Assim que isso aconteceu, a pouca inteligência emocional que restava ao Benfica vestiu um kispo e sentou-se no banco de suplentes, de mãos na cabeça.

Rafa

Carrega em si o fardo existencial de um país - o Sport Lisboa e Benfica - cujo presidente disse ser capaz de vencer um título europeu. Talvez acreditássemos mais nisso se metade das jogadas do Benfica não consistissem em aguardar que Rafa resolva sozinho uma situação que onze jogadores, dois suplentes e uma equipa técnica inteira ainda não foram sequer capazes de compreender.

Seferovic

Apesar da dúvida - preferimos um Jonas a coxear ou um Seferovic fisicamente apto? - o avançado suíço entrou em campo decidido a responder aos críticos. Assim foi. Uma combinação infeliz de factores - as regras de modalidade e o envelhecimento vertiginoso do corpo de Jonas - impediram o regresso do brasileiro ao jogo. Sobrou um tronco suíço. Continuo sem perceber se Seferovic foi descoberto por um olheiro ou por um lenhador.

Pizzi

Os seus olhos não mentem. Pizzi entrou em campo com um olho no jogo e outro na Arábia Saudita, à espera que Jorge Jesus embarque a qualquer momento. Isso - e a histeria dos restantes colegas na tentativa de chegar ao desempate - dificultaram a sua tarefa.

  • Uma 1.ª parte não faz a primavera

    Liga dos Campeões

    Ganhar era uma obrigação e o Benfica entrou bem frente ao Ajax, com uma atitude competitiva a léguas daquilo que se viu na 6.ª feira frente ao Moreirense. Mas na 2.ª parte, sem Jonas e Salvio, voltaram os velhos hábitos, a apatia face à adversidade, a falta de soluções perante um adversário que, ainda por cima, falhou muito. Está muito difícil a continuidade na Champions após este 1-1