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Um Azar do Kralj

Nem poeta, nem selvagem, nem sentimental (Rui Vitória, por Um Azar do Kralj)

Vasco Mendonça escreve um texto de emoções várias sobre o treinador do Benfica. Diz que lhe deve boas alegrias, mas aponta-lhe críticas profissionais e de estilo

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

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Ter uma ideia é fácil. Está ao alcance de qualquer um. Ter uma boa ideia dá trabalho. Requer persistência, rapidez de raciocínio e alguma pontaria. Requer também algum critério. Nem todos sabemos o que é uma boa ideia.

Ter uma excelente ideia é muito difícil. Exige treino. Exige disciplina. Implica sofrimento. Testa a nossa resiliência. É física e mentalmente extenuante. Se porventura sobrevivermos a esse caminho tortuoso minado pelas nossas más ideias, se formos os nossos maiores críticos e não baixarmos a cabeça a cada derrota imposta pelo nosso intelecto, talvez tenhamos o que é preciso para chegar à ideia certa.

Ter uma grande ideia que seja aceite sem contestação por milhões de seres humanos durante 1268 dias é praticamente impossível. Mas se fosse fácil não era para ele. Rui Vitória deixa hoje o Benfica, dirá ele, de consciência tranquila, como cidadão honrado e chefe de família.

Passaram-se quase quatro anos desde que as suas vacuidades passaram a povoar as conferências de imprensa do futebol profissional do Benfica e continuo sem perceber se Rui Vitória diz estas coisas porque acha que têm valor intelectual, porque entende que são eficazes, ou porque acha que é isso que as pessoas querem ouvir. Passaram-se quase quatro anos e continuo sem perceber qual é a sua ideia.

Acontece. Às vezes nem precisamos de ter uma ideia. Pode dar-se a sorte de estarmos no sítio certo à hora exata em que outra pessoa teve uma excelente ideia por nós. É meio golo. Há muitas áreas das nossas vidas pessoais e profissionais em que isso acontece. É continuar a correr com a bola e fugir aos adversários directos. Às vezes fugimos inclusivamente do autor original da ideia. É uma ideia de jogo. Se correr bem, é toda uma carreira.

As melhores ideias são assim, mesmo que não sejam nossas. Ninguém lhes fica indiferente. Surpreendem primeiro. Entusiasmam. Se forem bem executadas, não se limitam a encher o estádio. Levantam as bancadas. Convocam manifestações de felicidade. No futebol, as melhores ideias são comícios com o megafone nos pés. Enchem praças da cidade. Pintam um país de uma só cor. Se correr tudo bem, ninguém quer saber de quem foi a ideia.

Rui Vitória sobreviveu no Benfica enquanto soube aproveitar uma ideia superior à sua. Para que não sobrem dúvidas, o autor original da ideia que quase fez do Benfica pentacampeão nasceu com Jorge Jesus. Guardem os vossos rancores para quem se interessar. Assim que o briefing mudou e as adversidades ganharam força, as ideias de Rui Vitória vieram à tona. Foi o que se viu. Quanto mais tempo lhe demos para impor as suas ideias, mais se viu a careca.

A famosa ideia de jogo, um termo que abandonou depois de perceber que isso criaria a expectativa errada nos adeptos, nunca foi mais do que uma versão contabilística do futebol. Rui Vitória nunca foi aquilo que o Benfica e o futebol pedem. Nunca foi poeta nem selvagem nem tão pouco sentimental. A sua principal ideia para o Benfica foi ser uma boa pessoa com um emprego digno, e achar que essa mentalidade funcionalista sobreviveria aos resultados, desse por onde desse. Como se o futebol premiasse a bondade. Uma ideia ingénua.

Na última entrevista ao serviço do clube, Rui Vitória falou de uma cabazada sofrida em Munique como “uma estratégia que não foi operacionalizada”. No mais humilhante momento para os adeptos, a meio da pior época das últimas muitas, Rui Vitória reagiu ao falhanço da sua ideia como se estivesse a apresentar os resultados trimestrais de uma empresa do PSI20. Semanas antes, tinha dito aos benfiquistas aquilo que estes jamais aceitarão: que temos de aprender a conviver com o insucesso.

Nem poeta, nem selvagem, nem sentimental. Como se diz na gíria quando um remate pleno de intenção coloca a bola fora do estádio, talvez a ideia fosse boa. A execução, essa, não podia ter sido pior. Os benfiquistas não precisam de auto-ajuda. Precisam de ver a merda da bola lá dentro. Já nos chega o resto da vida toda para nos empurrar em busca de outras formas de salvação.

Os benfiquistas não querem Tony Robbins nem Deepak Chopra e muito menos o Sun Tzu de Alverca. Queremos um golão do Jonas, queremos os jogadores a baterem com a mão no peito, queremos miúdos e graúdos a beijar o símbolo do clube. Queremos ver alegria em campo, ou verdadeira tristeza quando se por acaso não ganharmos. Os benfiquistas não querem levantar a cabeça e pensar no próximo jogo. Querem que a memória lhes falhe, que a última derrota seja uma memória tão longínqua. Isto não é só futebol. Se for bem jogado, se a bola rolar como quem beija o símbolo, é muito mais do futebol: é uma p**a duma primavera árabe que leva tudo à frente e atordoa os adversários, impõe um novo regime. É uma desmarcação nas contas do adversário e nunca mais ninguém nos apanha.

É o poder de uma ideia.