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Um Azar do Kralj

Ides sofrer não como cães, mas como atletas e será duro e fulminante. Chega-me perfeitamente (o clássico por Um Azar do Kralj)

Vasco Mendonça faz aqui a sua antevisão do FC Porto - Benfica sem prognósticos. É para ler

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

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A antevisão de um clássico é um lance de bola parada. Literalmente. De certa forma o jogo já começou, mas a bola não rola. Temos o luxo aparente de poder preparar o lance, juntando as palavras como se tivéssemos estudado; demoraremos o tempo que for necessário no nosso tiki-taka verbal, colocando em prática uma série de princípios tácticos que nos permitam apreciar algo antes de acontecer, qual será ou quem achamos que será o dono do resultado final.

No final, todos os passes são para o lado ou para trás, sob pena de nos comprometermos com uma previsão demasiado optimista que arrisque ser motivo de chacota. Por isso, vou já despachar o tema: ganhamos sim senhor. Menos de 3 é derrota. Está dito.

Resolvido esse problema, falemos do que interessa.

Foi há uns anos, mas a frase conquistou o seu lugar na cultura popular. Uma tarja criada por adeptos do Futebol Clube do Porto para receber o Sport Lisboa e Benfica dizia "ides sofrer como cães". Mais do que uma mensagem circunstancial, este é um desejo ancestral dos adeptos portistas quando jogam contra o Benfica: sofrimento canino.

A afirmação é simultaneamente enternecedora e curiosa. Por um lado, o uso arcaico da nossa língua merece respeito. Já não se conjuga o verbo ir como dantes. Por outro, este desejo de que soframos como cães provoca alguma confusão porque os cães são animais muito bem tratados na sociedade ocidental. Foi uma tentativa grosseira mas divertida de ameaçar o grande rival. Compensou em diversão aquilo que lhe faltou em elevação.

Felizmente, em véspera de clássico, existe no Benfica quem cuide melhor do verbo. Essa tarefa cabe ao treinador principal e estratega de comunicação, mister Bruno Lage. As suas presenças na sala de imprensa são autênticos momentos formativos que dão a conhecer os princípios do jogo, os princípios do Sport Lisboa e Benfica, e os princípios de Bruno Lage enquanto treinador. É muito difícil, quase impossível, suceder-lhe na antevisão do jogo de amanhã. Espero por isso que a equipa permaneça fiel àquilo que temos visto em campo e que, dia após, emerge das suas palavras aos jornalistas, que no fundo são sempre uma comunicação aos adeptos.

Espero a humildade de quem claramente sabe umas coisas sobre isto, mas também sabe o lugar frágil que ainda ocupa no futebol português e portanto não pestaneja perante a oportunidade de reconhecer o valor - inegável - do treinador adversário.

Espero a inteligência com que Bruno Lage tem tomado as suas decisões, peremptoriamente atestada dentro de campo, mas também espero a generosidade e espírito de partilha que fez com que Bruno Lage melhorasse não apenas a comunicação externa do Benfica, mas também facilitasse o trabalho dos jornalistas, que saem da sala de imprensa com menos para dizer ou escrever, porque Bruno Lage já disse tudo.

Espero o pragmatismo encontrado nas suas respostas. Espero a repetida capacidade nos surpreender, que esfume qualquer antevisão porque nem nós esperávamos tanto e tão bom. Espero a obsessão com as ideias-chave. O treino, o processo, a tarefa. Treinar, jogar, repetir. Mas em vez de morrermos de tédio, hoje arriscamos morrer de emoção. Antes assim. Espero a clareza de pensamento que nos tem permitido tomar decisões certas, lance após lance, dentro de campo. Como diz o mister, decisiva é a regularidade.

E escrevo tudo isto porque as palavras contam, e Bruno Lage emerge de todos os momentos do confronto necessário entre a relva e o megafone que tem à frente. A cada dia que passa, um pouco mais líder. A cada dia, um pouco mais capaz de falar por nós todos. Quanto mais ele fala, mais eu fico sem saber o que dizer. E nós benfiquistas esperamos que amanhã não seja diferente, dentro ou fora do relvado, onde quer que os jogadores, o treinador e os adeptos estiverem. Saíamos de lá um pouco mais líderes, com a elevação que melhor nos define.

Por isso, quando penso no Futebol Clube do Porto e na respectiva massa associativa em vésperas de mais um clássico, apenas lhes digo: ides sofrer não como cães, mas como atletas, treinadores ou adeptos do vosso clube. Que seja duro e fulminante. Chega-me perfeitamente.