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Um Azar do Kralj

Lembram-se de Paris? Fernando Santos e Ronaldo estavam ambos fora de campo e correu lindamente. É só uma ideia (por Um Azar do Kralj)

Vasco Mendonça diz que muitos dos jogadores desta ridiculamente talentosa seleção se comportam como estagiários na presença do capitão. E vai daí, lança a questão: e se o homem fosse suplente?

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

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Podem pedir quantas vezes quiserem, mas assistir a futebol de selecções em meados de ,arço é um desafio contranatura, até mesmo para um assumido adepto da seleção nacional, essa estranha mas simpática coletividade que junta jogadores de todos os clubes e me fez reconhecer o Pepe como um dos melhores em campo contra a Ucrânia.

Em poucos dias, o benfiquista mais militante foi obrigado a ver Ruben Dias elogiar um dos símbolos do FC Porto e logo depois googlar "entorse tibiotársica" para ter a certeza de que João Félix ainda joga esta época; por outras palavras, dada a elevada procura gerada pelo miúdo, a atividade da selecção nacional obrigou os adeptos do Benfica a enfrentarem, nem que por breves instantes, a possibilidade de nunca mais verem João Félix vestir as cores do Benfica na Luz. Esse deveria ser o verdadeiro desígnio nacional desta concentração da selecção.

Felizmente, descobri entretanto que entorse tibiotársica é um nome pomposo para "talvez jogue contra o Tondela".

Mas não é só a clubite em fase de sintomas agudos que torna difícil assistir aos jogos da selecção. É também, digamos, o futebol. Ao longo das últimas duas décadas, as que eu acompanhei mais atentamente, o futebol das selecções serviu maioritariamente para nos deslumbrar com a qualidade e beleza do futebol jogado até jogarmos contra a França ou Espanha ou outro adversário qualquer e levarmos na pá, ou rirmos por último numa das noites mais felizes das nossas vidas, em 2016.

Uma cavalgada improvável e esteticamente discutível fez de nós campeões europeus e nada mais interessou, nem mesmo o facto de termos chegado lá maioritariamente através de empates. Passaram-se 3 anos e tudo parece estranhamente voltar ao mesmo.

Portugal iniciou nova cavalgada rumo à conquista do Europeu, uma equipa ridiculamente talentosa em que cada um dos intervenientes se comporta em campo como uma criança que se perdeu dos pais numa noite de Agosto na Feira de São Mateus. Ao invés de operar como um coletivo, cada um dos jogadores conduz a bola ansioso por ver uma cara conhecida ou uma ideia de jogo mais clara. Cancelo procura Ronaldo de forma tão desesperada que deixou de saber cruzar ou ganhar a linha, Bernardo procura Guardiola com a sofreguidão de um preso político, Ruben Neves tenta a desmarcação de Jota ou Jimenez, enfim, da confusão emerge ocasionalmente um movimento coletivo que pareceu colocar a equipa na rota da baliza adversária, mas das duas uma: numas poucas ocasiões, a bola morreu nas mãos do guarda-redes ucraniano; nas restantes pareceu morrer nos pés de Cristiano Ronaldo.

Triste condição esta, em especial depois do futebol agradável que se viu na Liga das Nações, demonstrativo de que Fernando Santos sabe o que pode fazer com este grupo de jogadores. Infelizmente, também sabe o que não pode fazer. Ninguém no seu perfeito juízo quererá sentar Cristiano no banco de suplentes, sob pena de perder condições para desempenhar o cargo ou até continuar vivo. Por outro lado, Cristiano parece hoje um elemento a mais nesta equipa, excepto quando decide os jogos e volta a ser o centro do planeta. O problema é quando isso não acontece e nos empatam a vida. Os outros rapazes até têm condições para decidir, mas comportam-se um pouco como estagiários no primeiro dia. Será que só vamos ver esta geração mostrar o que vale depois de Ronaldo se reformar? Seria trágico esperarmos até 2035.

Além disso, perderíamos a oportunidade de reeditar a única dupla que conquistou um título de futebol sénior nas selecções até hoje: Fernando Santos e Cristiano Ronaldo, seu fiel adjunto. Lembram-se dessa noite em Paris? Estavam ambos fora de campo, e correu lindamente. É só uma ideia.