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Um Azar do Kralj

Depois de duas assistências e de um golo, Félix foi a correr para o sangue do seu sangue. Obrigado aos pais e ao Benfica (Um Azar do Kralj)

Vasco Mendonça está emocionado, entusiasmado e rendido com o que viu dentro de campo. E se nos são permitidas sugestões, então é ler o que ele escreve sobre Florentino, Pizzi, Rafa e o renascido Taarabt

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

Gualter Fatia

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Vlachodimos

A exibição até foi segura, apesar dos dois golos sofridos, mas o comportamento de Vlachodimos continua a suscitar dúvidas. Aos 71, já o Benfica caminhava a passos largos para a vitória, e depois de um par de defesas suas, Vlachodimos percebe que o árbitro assinalou um livre frontal a 25 metros da baliza e benze-se. O contexto é tudo nestas coisas. Se a pessoa se benzer antes do início do jogo, não há problema. Se se benzer no regresso do balneário, ok, é mesmo crente. Mas, se um guarda-redes se benze aos 70 minutos de jogo porque há um livre a favor da outra equipa, sou eu quem sente necessidade de se benzer.

André Almeida

Capitão de equipa, referência permanente do jogo ofensivo, quase sempre bem nas tarefas defensivas, tudo isto com o ar de quem parece disposto a passar aqui o resto da carreira. É mau, querem ver.

Rúben Dias

Eu fazia coisas muito mais estúpidas com a idade dele. A minha sorte é que não tinha nenhum árbitro por perto.

Ferro

É tão estranho ver Ferro cometer erros. Tive que rever os lances várias vezes para ter a certeza de que não era um invasor de campo com a sua camisola vestida.

Grimaldo

Nunca gostei especialmente das aulas, mas gostava do parque infantil, do lanche, de jogar à bola com o António Pedro durante os intervalos, de ver os meus melhores amigos todos os dias. Talvez por isso, ao invés de caminhar lentamente na direcção da escola, situada a 300 metros de minha casa, eu saltitava até lá chegar. Nos dias bons, como hoje, o Grimaldo exibe uma alegria que eu só encontrei em mim quando era miúdo, a mesma das papoilas saltitantes.

Florentino

Não é todos os dias que um médio defensivo faz um meio golo com um corte junto à linha do meio campo, mas lá está, não é todos os dias que aparece um Florentino.

Samaris

Voltou a fazer praticamente tudo bem. Talvez se tenha excedido nos calduços ao irmão do João Félix, mas até ele pareceu sentir-se honrado por ser alvo de uma agressão de Samaris. Não é para quem quer, mas sim para quem pode.

Pizzi

Depois de uma tentativa de pontapé de bicicleta que fez João Félix soltar uma gargalhada, falhado um penálti há poucos dias teria sido convertido pelo miúdo, nada como reagir com a humildade só ao alcance dos maiores. Pizzi levantou a cabeça e, ao invés de pensar no próximo jogo, desatou a abrir o livro. Podia dizer que só parou quando assistiu o miúdo Félix, mas não é verdade. Fartou-se de jogar até ao fim.

Rafa

O melhor em campo. Bisou, deu a marcar, fez piscinas por ele e mais meia dúzia, e já no final explicou com um registo sóbrio e o rigor de um operacional do exército, que as indicações que tem são as de seguir atrás do golo em todos os momentos. É uma escolha de palavras admirável, pela obstinação nelas contida e pela coerência com a forma de estar. Rafa joga sempre como se estivesse a marimbar para tudo o que não seja chegar à baliza adversária. Até os festejos de golos parecem por vezes um obstáculo, uma convenção social colocada entre ele e a baliza, rumo ao golo seguinte. Não podíamos estar em melhores pés.

João Félix

Estranho que um miúdo com tanto talento nos pés tenha utilizado os braços para protagonizar o momento mais bonito da noite. Depois de duas assistências para Rafa, de mais uma exibição de encher as medidas, e instantes após um daqueles golos que provoca sonhos molhados aos observadores de clubes estrangeiros, João Félix correu decidido na direcção do sangue do seu sangue e abraçou o irmão mais novo, também ele jogador formado pelo Benfica. Jogador o tanas. Cidadão. Obrigado aos pais e ao Benfica por nos darem este privilégio.

Seferovic

Marcou o 81.º golo da equipa no campeonato, uma marca que não era atingida há cerca de 35 anos, pelo menos com mais cinco jogos pela frente. Feitas as contas, são 81 oportunidades para perder a voz, agradecer a quem meteu a bola na baliza ou a quem os lidera, celebrar esta vida que nos fez benfiquista e talvez, quem sabe, repensar estes assobios aos jogadores.

Taarabt

Não foi a tempo de ser o melhor em campo, mas continua a chegar ao fim dos jogos com o resto da vida pela frente. Extraordinário.

Jonas

Pareceu ligeiramente incrédulo quando viu a bola surgir à sua mercê entre os centrais, pronta para o 5-2. Só assim se explica que tenha falhado escandalosamente.

Jota

Parece estranho dizer isto quando vemos o miúdo entrar apenas nos últimos minutos, mas ele tem tempo. É que, reparem, no tempo do outro Jota, a dobrar, este jovem Jota já seria Manel ou Bernardo a triplicar. A história terminaria, como outras, sempre da mesma forma. Nunca mais lhe púnhamos a vista em cima, até descobrirmos a triste realidade em dobro. Felizmente, esta história terá um final com todas as letras do alfabeto, que é como quem diz, feliz.