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Um Azar do Kralj

O Sporting foi campeão europeu de futsal e Um Azar do Kralj não percebe bem que raio é que isso tem a ver com o Benfica, mas parece que tem

Vasco Mendonça decidiu escrever sobre os festejos sportinguistas a propósito da conquista europeia no futsal, porque durante a festa houve... Benfica: "Até nas suas mais importantes vitórias os rivais perdem as maneiras e aproveitam para demonstrar a sua verdadeira e inultrapassável obsessão"

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

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Alguns sportinguistas gostam de dizer que a sua preferência clubística é uma coisa que se ensina às crianças. Dir-nos-ão, com profundo estadismo, que o sportinguismo professa um conjunto de valores essenciais a uma sociedade civilizada, que fará dos petizes, enfim, melhores pessoas. É uma coisa que tem passado de boca em boca e de adepto em adepto até se cristalizar numa soberba intrigante de quem por vezes se comporta como se fosse a única espécie a utilizar talheres à mesa.

Depois, como sempre acontece neste universo de fábulas, vem o embate com a realidade. Olhamos com atenção e pasmamos. Ou então não. Constatamos apenas. No momento de celebrar uma vitória internacional pela qual foram amplamente parabenizados e até recebidos nos Paços do Concelho, os adeptos do Sporting fecham-se no seu pavilhão e cantam a plenos pulmões, alguns até acompanhados pelas suas crianças, que ser do Sporting, esse clube alegadamente distinto, é, e passo a citar, "f***r lampiões".

Milhares de pessoas celebraram o vernáculo. E então? Assim é que é! O idioma, próprio dos eternos rivais do Benfica, inclui um número considerável de portistas (e também já foi usado indevidamente por adeptos do meu clube), mas não pode nem deve ser normalizado ou legitimado.

Eu tenho dois filhos e se me sair uma asneira da boca ao pé deles fico embaraçado. Se isso acontecer a propósito de futebol, a vergonha é ainda maior. Não anseio pelo dia em que tiver de explicar a um filho meu o que leva milhares de adeptos a cantarem isto. Mas, e agora? Os mesmos que pediram para banir adeptos por imitarem o som de um very light no pavilhão da Luz indignam-se?

Zero. Nem um pio.

Claro, esses acérrimos defensores da elevação dirão que nada disto que se passou ontem é parte do problema do futebol português. É só festa rija. Na verdade, dirão, devemos é continuar a basear o argumentário nos múltiplos processos extraídos das capas dos jornais, dos blogues anónimos e a celebrar julgamentos mediáticos como se fossem a nova inquisição. Assim é que é. Até terem de calçar os mesmos sapatos, claro está.

Não é que precisássemos ou desejássemos, mas tudo isto serve, também, para atestar a dimensão do Benfica. Até nas suas mais importantes vitórias os rivais perdem as maneiras e aproveitam para demonstrar a sua verdadeira e inultrapassável obsessão. Que venha maio e nos dê mais uma oportunidade de mostrar como se faz a festa. Não sejamos mais um clube engravatado todo o ano que se assoa à gravata por engano. Quem sabe um dia ganhamos todos maneiras.