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Um Azar do Kralj

No onze do ano de Um Azar do Kralj cabem Casillas, Bruno Fernandes, Militão e Eliseu. Não nos perguntem porquê, perguntem-lhe como

Vasco Mendonça escolheu o onze do melhorzinho que por aí andou na Liga que o seu Benfica. E entre as escolhas óbvias para este adepto encarnado, há algumas opções surpreendentes como se pode ver pelo título. O Vasco explicar-lhe-á melhor do que nós

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

ANTONIO COTRIM/EPA

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Casillas

É provavelmente o mais importante guarda-redes da sua geração e não há nada melhor do que utilizar este tempo verbal para situar Iker Casillas aqui e agora. Só merece saúde e dias felizes daqui em diante, mas para isso deveria abandonar desde já o Futebol Clube do Porto. Como dizia o outro: winter is coming, amigos portistas.

André Almeida

Extrapolações sobre a sociedade são sempre um perigo, especialmente se vindas de benfiquistas, mas vou arriscar na mesma. Podem brincar quanto quiserem com a fama de jogador limitado. Eu também o fiz, mas conservemos uma pequena noção do rídiculo para enfim elogiar, merecidamente, o capitão André Almeida. Imaginem um país em que a maioria de nós consegue chegar ao nível de André Almeida nas nossas vidas profissionais. Um país em que se ensina André Almeida nos infantários, nas C+S e nas universidades. Um país arduamente trabalhador que marque mais golos, uns de propósito, outros sem querer, porque essa felicidade se conquista. Que sonho lindo esse país imaginário. Chuta André. Cruza. Corre. E celebra, que tu mereces. Temos muito que aprender.

Ferro

A minha memória diz-me que desde Gamarra que o Benfica não tinha um defesa assim, que fosse simultaneamente uma figura de autoridade e um praticante das boas maneiras. Ferro foi empurrado para o onze por força das circunstâncias, com uma aparente moleza trazida da equipa B, mas depressa se tornou um educador das massas, que hoje lhe pedem desculpa por qualquer desconfiança que lhe tenham transmitido, tudo isto enquanto suplicam de joelhos para que ele não abandone o clube. Percebeste, Ferro? Estou a suplicar.

Militão

As duas coisas que mais me agradaram na época de Éder Militão, para além do seu enorme talento, foram as seguintes: em primeiro lugar, o facto de sabermos há meses que o jogador está de saída. É como se os portistas se tivessem apaixonado por uma modelo Victoria’s Secret com uma doença terminal. Apaixonam-se loucamente pelo efémero condenado ao triste final, Não conseguem resistir a aplaudir as ações de Militão e não fazem a mais pequena ideia de como vão viver depois da sua saída. Ainda bem, digo eu. A segunda coisa que me agradou em Militão foi ter sido sujeito a uma daquelas experiências estilo estagiário da McDonalds licenciado na Nova que trabalha uma semana na grelha para saber o quanto a vida custa e conhecer as bases da organização. A diferença é que este estagiário passou várias semanas na grelha, vulgo na posição de lateral direito, para gáudio de milhões.

Eliseu

Reza a história que Eliseu regressou de uma viagem de mota pelos Estados Unidos (fechem os olhos e tentem imaginar esta série da HBO) a tempo de abrilhantar a festa da reconquista, à qual chegou conduzindo uma Vespa, de chapéu na cabeça e óculos escuros, com a felicidade de quem pareceu ter começado a beber muito antes do apito inicial. Os adeptos exultaram e Eliseu não fez por menos, tirando as mãos do volante e erguendo os braços no ar com um troféu que não lhe pertenceu pelo desempenho no relvado, mas que se tornou imediatamente um bocadinho dele. Não sei se estamos perante matéria de facto que justifique morada eterna no Panteão, mas nunca mais será esquecido pelo nosso coração. Resta agora superar as expectativas na próxima época, chegando ao relvado em plenos festejos do #38.

Fejsa

Tenho uma dívida de gratidão para com este sérvio caído em desuso e quero aqui penitenciar-me por ter elaborado, com esforço demasiado, críticas pouco construtivas ao seu desempenho na segunda volta do campeonato, quando dele precisávamos e o seu futebol parecia não aparecer. Dizem-me que é do físico, que já não aguenta, que são vitórias a mais. Percebo. O músculo do adepto não se cansa de ganhar. Cumpre por isso homenagear Ljubomir, como um dos melhores pelo capital acumulado ao longo de todos estes anos. Falam em 3 milhões para a Turquia, mas eu tenho outra sugestão. Esqueçam a venda do passe por inteiro. Ljubomir tornou-se inteiramente nosso. Fejsa é dos benfiquistas. Desmanchemos o jogador e vendamo-lo às peças, que nem o relvado do antigo estádio. Eu fico com o tutano que há muito o definiu como um de nós.

Pizzi

"Sê a mudança que queres ver nos outros." A frase, da autoria de Bruno Lage, foi corporizada nesta segunda volta pelo controverso Luís Miguel, que nem todos os benfiquistas gostariam de ver com uma batuta, mas cuja cantoria todos fez dançar por esse mundo fora na noite de 18 de Maio. Pizzi mudou com Lage e toda a equipa mudou com ambos. Mais do que o maestro, termo utilizado na língua portuguesa, Pizzi foi, como diz a tradução inglesa, o conductor, ou, por outra, o condutor que revelou mãozinhas em quase todas as circunstâncias ao ponto de as estatísticas fazerem dele inquestionavelmente um dos jogadores que mais golos e vitórias produziu neste campeonato. Controverso? Até ao final, responderá ele. Cantem lá agora.

Bruno Fernandes

A única critica negativa que podemos fazer ao desempenho de Bruno Fernandes esta temporada é ele ter jogado de verde e branco. Pode parecer pouco e um adepto imparcial, mas são duas cores que tornam o seu futebol especialmente incómodo. Foi exemplar em tudo, excepto na camisola vestida. Deverá corrigir esta falha já a partir da próxima época.

João Félix

Não passa um dia em que não acorde a pensar “é hoje que ele vai embora”. O meu filho mais velho já percebeu que o assunto é sério. Há uns dias perguntou-me se o João Félix é melhor do que o Jonas, tal é a quantidade de vezes que se ouve falar dele. Se dúvidas restassem sobre o impacto de João Félix neste campeonato, na equipa do Benfica e nos adeptos, basta acompanhar a discussão sobre se 120 milhões são afinal muito ou pouco a pagar pelo passe do mais talentoso finalizador surgido esta época no futebol mundial. Ainda tenho uma ténue esperança de que ele acabe de endireitar os dentes ao serviço do Benfica, mas já me senti mais optimista.

Seferovic

Porque Jonas merecerá um texto dedicado exclusivamente a si no dia em que decidir pendurar as botas e seria quase banal colocá-lo num onze da época. Porque em tempos teríamos aqui um mexicano com máscara de luchador e este suíço não parece ter marketing que lhe valha. Porque foi decisivo neste campeonato, apesar de ter cara de terceiro classificado ou, pior, cara de emprestado por época e meia. Juntos, celebrámos pela primeira vez. Seferovic aprendeu a vencer. Nós aprendemos a gostar dele.

Nuno Pinto

É uma das histórias mais bonitas deste campeonato. Desde Dezembro que não o víamos no relvado porque estava ocupado a enviar um linfoma para o raio que o parta, mas desenvencilhou-se dessa marcação cerrada a tempo de entrar em campo na última jornada. Foram poucos minutos, mas souberam pela vida. Serviu para lembrar que o jogo jogado, o apito, o VAR e o assistente do VAR, todas as tricas e mais alguma, jamais serão uma questão de vida ou de morte. Longa vida ao futebol e a ti, Nuno.