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Um Azar do Kralj

Estão a fechar Jonas num caixão como se a relação com o SLB fosse uma burocracia e não uma das histórias mais bonitas de amor

Vasco Mendonça escreve, como é fácil perceber, sobre o mercado de transferências e as noites mal dormidas que lhe provocam. Ele é o Félix que sai, o Salvio idem e o Jota entre a espada e Bruno Lage

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

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Cada dia que passa é mais uma jornada de sofrimento. Entre saídas e chegadas, passando pelas incógnitas, sem esquecer as retiradas, o meu corpo pede uma ida existencial a banhos, um coma metaforicamente induzido, uma hibernação estival, enfim, um dia sem capas de desportivos e as histórias que põem comida na mesa de muitos, tantos, demasiados de nós.

Acordo e a primeira coisa que vejo é a saída iminente de Salvio. Ninguém confirma e ninguém desmente. Toto não publica nas redes sociais há um par de dias, o que é estranho, dado o ritmo prodigioso de blogger de maquilhagem que lhe é reconhecido. Procuro informar-me e nada, ou quase nada. Descubro que Magali tem, ela sim, tirado fotos em que exibe o seu corpo escultural. Uma das publicações especializada nestes temas explica-nos o contexto: "Mulher de Salvio prepara adeus a Portugal com fotografias escaldantes". Portanto, relativamente à saída de Salvio, a única coisa que sabemos é que a esposa do jogador tirou umas fotos semi-nua e isso será uma forma de se despedir dos portugueses. Uma parte de nós quer agradecer a Magali, enquanto a outra lamenta o rídiculo a que nos prestámos.

Viro a página e de repente estão a tentar fechar Jonas num caixão. O avançado brasileiro esperneia, pede uns minutos para se despedir da família e dos benfiquistas, argumenta que ainda não há nada confirmado, que as suas costas talvez aguentem mais uma época, vá, mais um jogo, o último, o da despedida de um dos maiores avançados que os benfiquistas viram vestir o manto sagrado nas últimas décadas, mas os coveiros prosseguem indiferentes, despejando terra em cima de um caixão aberto enquanto falam sobre uma suposta vinda de Jonas a Portugal para se "desvincular", como se a sua relação com o Benfica fosse uma mísera circunstância administrativa e não uma das mais bonitas histórias de amor do futebol português nos últimos anos.

As emoções não terminam aqui. Jota está entre a espada e a parede. Bruno Lage conta com ele, mas só se o miúdo renovar o contrato. Dizem as más línguas que o jovem extremo, conhecido por gostar mais do Benfica do que muitos benfiquistas, quer ter a certeza que vai jogar. Seguimos esta linha de, chamemos-lhe, raciocínio, e tentamos saber se Bruno Lage já confirmou a titularidade do miúdo na primeira jornada do campeonato. À hora em que terminei este parágrafo ainda não tinha obtido uma reacção oficial por parte da SAD. Aguardemos.

Antes pedir mais minutos do que ser crucificado em praça pública antes mesmo de ter calçado. Os minutos vão passando e João Félix continua a desiludir. Não interessa se a época ainda não começou. O miúdo já é um caso perdido, mais um flop do futebol europeu, e eu só desejo que o miúdo saiba reciclar toda esta energia negativa e inveja em torno da sua transferência para transformar o ódio em amor e calar toda a gente.

Quando o dossiê João Félix for finalmente encerrado, e mesmo sabendo que ninguém utiliza dossiês desde 1995, alguém irá aparecer, munido da alegria contagiante de um cliente da Papelaria Fernandes, com um novo dossiê. Desta vez será Ruben Dias, que não consegue encontrar um espacinho na praia tal é a forma como tem sido acossado pelos gigantes europeus. Só descansaremos quando o jogador for vendido, ou se lesionar, ou disser que quer jogar no Benfica a vida inteira. A partir desse dia criticaremos a falta de ambição. Felizmente, nessa altura já o dossiê Florentino será já impossível de fechar, um daqueles dossiês que se tornam irritantes, entupido com folhas cheias de nada e separadores a delimitar cada capítulo de uma novela que já todos conhecemos, como termina e como acaba, ou nunca acaba, e que nos continuam a servir às colheradas.

Talvez fosse mais fácil se já estivesse de chinelo no pé a pensar que o meu único problema nas 24 horas seguintes era preparar as brasas para o almoço. Acordem-me nessa altura.