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Um Azar do Kralj

O Sporting não é o leão que ruge. É um saco de gatos

Bruno de Carvalho, o brunismo e o Sporting são a tríplice relação sobre a qual Vasco Mendonça, de Um Azar do Kralj, disserta no dia em que os sócios do clube que "não é diferente coisíssima nenhuma" votam a destituição do ex-presidente como sócio. Ou no dia em que "os sportinguistas debatem um possível gesto de humanidade como se isso interessasse, como se tal fosse resolver os problemas do Sporting, como se o Bruno C não fosse cobrar presenças assim que sair da casa"

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

RODRIGO ANTUNES

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Ontem celebrámos a maior transferência de um jogador formato no Batuque. É isso mesmo. Zé Luís, o novo pinheiro bravo plantado na frente de ataque do FC Porto, iniciou a sua carreira no clube entretanto celebrizado por alegadamente ter vendido os direitos desportivos de seis fantasmas a Bruno de Carvalho. Não obstante ter formado futebolistas reais, jamais teríamos visto o Batuque FC ou o seu presidente em capas de jornais e noticiários se não fosse Bruno de Carvalho. Mas não entrem tão depressa nessa noite verde.

Somos todos um bocadinho culpados de ter posto o folclore à frente do futebol. Mas isso não faz de nós diferentes. O New York Times também dedica mais capas a Donald Trump do que a qualquer outro presidente norte-americano. O número de assinantes do jornal nunca foi tão elevado. Não me venham com lérias. É isso que cada vez mais nos atrai. O acidente. A novela. O escândalo. O horror. O passo em falso. As dores de costas. O cuspo que afinal era fumo. Os memes. Enfim, a sucessão de brunicados pela madrugada dentro.

Consumiu-nos, a nós e a ele. Poucas foram as ocasiões na história recente do país em que a economia da indignação e da atenção prosperaram tanto. Alguns, no seu recanto mais íntimo, terão desejado que fosse para sempre, porque se divertiam, porque acreditavam que isso seria o fim do Sporting e que tal seria uma boa notícia, ou porque gostam mais dele do que de futebol. Eu cá sugiro um no formato de reality show, "Quem Quer Casar Com Um Ex-Presidente?".

Seja qual for o motivo, é hoje que se decide o próximo capítulo. Apetece-me dizer que hoje se decidirá o último capítulo, mas acho pouco provável.

Não podemos esquecer que o brunismo é uma mutação radioativa do sportinguismo. Eu explico. O brunismo, mas não necessariamente o sportinguismo, é um conjunto de estratégias verbal ou fisicamente violentas que permitem ao sportinguista lidar com umas poucas vitórias de menor importância e muitas derrotas de cariz formativo, ficcionando os méritos da vitória e/ou reais motivos de cada derrota. Não define o clube, mas nasce deste.

Cresceu enquanto política identitária centrada em Bruno de Carvalho e chegou mesmo a confundir-se com o Sporting, porque os adeptos assim deixaram. O seu texto fundador - o Al-Brunão, escrito ao longo de 5 anos no Facebook - consolidou as ideias e capturou muitos fiéis. Resistiu e resiste de uma forma que nos parece até, a fiéis de outros cultos e demais agnósticos, uma estranha forma de vida, uma outra condição humana. Daí que se confunda tanto com o sportinguismo.

Esse clubismo é também definido por uma estranha, até admirável, resiliência que persiste negando a passagem do tempo sem títulos, e até floresce como a vegetação em Chernobyl. Num dia bom, o Sporting Clube de Portugal, o tal clube diferente, é o melhor dos perdedores. Arrisco mesmo dizer: um dia, quando as baratas finalmente morrerem de cansaço e nada mais restar, uma agremiação desportiva emergirá da montanha de entulho pós-nuclear, esbracejando por entre os últimos resquícios da espécie, para se anunciar a Deus ou ao seu novo dono como um injusto vencido, o campeão moral da Taça Declínio Civilizacional 2085.

Tudo isto, note-se, enquanto os seus constituintes se agridem e lutam por um quinhão de poucochinho.

Hoje há muitos que dizem nunca ter apoiado assim tanto Bruno de Carvalho. Até admito que assim seja, mas, feitas as contas, sobrariam os que, sucessivamente, votaram nele contra todas as evidências. Felizmente para muitos desses, o futebol não é assim tão importante quanto fazemos parecer às vezes, a reabilitação é uma opção. É vê-los, arrependidos, pedindo ajuda para regressarem da Síria metafórica erguida no Campo Grande e, se possível, serem readmitidos no espaço europeu. Qual Raqqa, qual quê. Dêem-me uma gamebox que eu nunca mais vos chateio.

É injusto. Apesar de o espectáculo dos últimos anos ter tido espectadores de todas as cores clubísticas, hoje só os sportinguistas decidirão se Bruno de Carvalho continua a ter palco no sentido formal e estatutário do folclore, ou se terá de encontrar outra forma de subsistência.

Se todos fomos espectadores desta telenovela, sinto que todos devíamos uma palavra a dizer. Eu votaria a favor da sua permanência como sócio, porque, lá está, acredito que o Sporting já demonstrou ser capaz de resistir a quase tudo. No entanto, como benfiquista, gostaria de o ver sofrer mais um pouco, e Bruno de Carvalho é o homem certo para essa missão. É que poucas coisas causam mais sofrimento aos sportinguistas do que a sua crónica desunião. Não é só isso, mas é também nessa fractura que se cristaliza o clube diferente que não é diferente coisíssima nenhuma.

Por isso, este sábado os sportinguistas debatem um possível gesto de humanidade como se isso interessasse, como se tal fosse resolver os problemas do Sporting, como se não fosse uma votação para decidir se o Bruno C. sai ou fica na casa. Como se ele não fosse cobrar presenças assim que sair da casa. Como se isto não fosse permanecer, no essencial, mais ou menos tudo igual.

Porque o Sporting, o da eterna luta por quinhões, enfim, o de sempre, não é um leão que ruge. É antes um saco de gatos. Se lhes perguntarem, alguns dirão que a culpa é do Benfica. Sorte a do Bryan Ruiz.