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Um Azar do Kralj

O que se diz a alguém como Jonas? Obrigado? Amo-te? Não sei o que dizer, mas vou tentar (por Um Azar do Kralj)

Vasco Mendonça escreve um longo texto comovente sobre o avançado brasileiro no último dia da carreira dele, no último dia como jogador do Benfica

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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O que é que se diz a alguém que representou o nosso clube cento e oitenta e três vezes, marcou cento e trinta e sete golos e juntou a isso quarenta e duas assistências? Como retribuir a alguém que ajudou, de forma quase sempre decisiva, a conquistar 4 ligas, 1 Taça de Portugal, 2 Taças da Liga, 2 Supertaças, que por 2 vezes foi considerado o melhor jogador da liga e se sagrou melhor marcador em outras duas, e que fez tudo isto ao longo de cinco anos. O que é que se diz? Ajudem-me. Obrigado? Vamos sentir a tua falta? Dá-me a tua camisola? Joga só mais uma época? Amo-te?

Não acontece muitas vezes. Hoje supliquei por uns parágrafos que me permitissem dizer tudo. Até avisei o editor, Jonas. Exigi escrever, e será publicado. Disse-lhe, e passo a citar, "hoje quero caprichar, ele merece". E aqui estou. A grande verdade é que ainda não sei bem o que dizer a quem deu tanto aos benfiquistas, mas tenho uma ideia do que seria em jogo corrido. Quero ajeitar este parágrafo com a parte interior da bota direita, olhar em redor como quem observa o texto acima dos demais e escolher as palavras como se quisesse casar com elas. Quero utilizar as vírgulas como quem guarda a bola, adiando por momentos o prazer de milhões, parar no peito do ponto e vírgula, e fazer da próxima quebra de linha uma oportunidade, mais uma, para gritarmos a plenos pulmões pelo nosso amor, o grande, o enorme, o maior que todos Sport Lisboa e Benfica. Rematarei colocado ao ângulo e as bancadas alertarão a protecção civil. Um parágrafo-golo, sismo 19.04 na escala de Jonas. O problema é que mesmo assim dificilmente te farei justiça, meu caro.

Eu tento fugir da lamechice como tu te esquivas ao marcador direto, mas está complicado. Num futebol com tão poucos heróis, onde os estetas parecem sempre prometidos a quem faz a maior licitação, quero aproveitar as tuas últimas horas enquanto futebolista profissional para te dizer mais meia dúzia de coisas.

Se um dia chegar a avô, quero ser o tipo irritante que enuncia onzes do Benfica como fizeram tantos antes de mim e me ensinaram a grandeza do Benfica. Só uma paixão assim nos leva a decorar nomes de indivíduos e enunciá-los como poemas, ordenados religiosamente de acordo com a posição ocupada durante alguns milhares de minutos num rectângulo de 105 metros de comprimento por 68 de largura. Não sei se um dia chegarei a avô, mas, se a saúde o permitir, sei o que levarei inscrito na memória. Parece rídiculo dizê-lo, mas não foram só os golos ou as assistências. Foi uma singular capacidade de elevação do futebol a hipérbole estética. Foi, em muitos momentos, uma absoluta e peremptória protagonização do jogo, como se mais ninguém soubesse tocar aquele instrumento. E os títulos, duas mãos cheias deles.

Chegámos ao fim satisfeitos, não apenas por temos ganho mas pelo modo como ganhámos. Foi, naquele instante felizmente repetível, tudo, exactamente como o futebol deve ser. Foi algo que adeptos como eu, em 38 anos de vida, poucas vezes terão visto e sentido de manto sagrado vestido. O futebol que trouxeste nos pés deu-nos muito mais do que golos e assistências. Deu mundos ao mundo de futebolistas que te passaram pela vista nestes quase cinco anos. Todos eles foram melhores contigo. Até nós, adeptos, fomos melhores contigo, porque é esse o nosso combustível. Por muito guturais que sejamos, estamos cheios de poesia quando damos na pá a mais um adversário. Se abrandarem a expressão de um adepto a gritar "CHUUUUUUPEM" verão que é afinal um poema. Quanto a ti, pela capacidade de síntese, pelo pragmatismo adornado que sempre te caracterizou, pela ilusória simplicidade de processos, serias um haiku:

Eis que ele recebe
Mata no peito
E o inferno renasce

Não sei precisar o que é esse inferno da Luz, mas estou certo de que são jogadores como tu que fazem os nossos adversários passar pelo inferno. É nos olhos deles que reconhecemos o reflexo das chamas. Azar o deles. Sorte a nossa.

E pensar que em tempos te rotularam de pior jogador do mundo. Demonstraste que estavam todos enganados. Todos os futebolistas que chegam a uma encruzilhada na sua carreira têm, antes de mais, de provar a si mesmos que são capazes, que a sua promessa será cumprida. Acredito que o fizeste por ti, mas rapidamente se provou que o pior jogador do mundo era afinal um dos maiores equívocos da história do futebol e a história cresceu. O teu ressurgimento tornou-se o nosso, e assim avançámos rumo a um tetracampeonato que teria sido impossível sem ti. Portugal, esse Éden do envelhecimento activo que atrai gente de todo o mundo, trouxe este brasileiro para perto de nós. Juntos, envelhecemos e foram alguns dos melhores anos de que me lembro. No futebol jamais seremos felizes para sempre e essa finitude destrói um bocadinho em dias como o de hoje, mas o que não teremos em tempo para viver juntos, nós na bancada e tu no relvado, sobra-nos em gratidão por termos vivido tantas alegrias.

Os teus pés, o cérebro que os guiou em cada momento, e o coração que os fez caminhar até aqui, tiveram mais um mérito que passou despercebido. No meio do pântano em que o futebol português se transformou, foi muitas vezes a forma contundente como o teu talento e inteligência se manifestavam no relvado que obrigou muitos a falar de futebol, porque pouco mais haveria para dizer. Foi talvez por isso que o meu filho Tomás, hoje com 5 anos, traquina de uma memória prodigiosa, me perguntou em boa hora quem era aquele senhor que marcava tantos golos e eu expliquei: é o Jonas, o jogador favorito do pai.

Meu querido Jonas, não sei se ajeitei estes parágrafos como era minha intenção, mas a fasquia estava muito elevada. Falemos por isso do que interessa: posso dizer-te que o Tomás decorou o nome e até hoje permaneces o jogador favorito dele. Ainda não consegui explicar-lhe que daqui a umas horas teremos que nos despedir de ti e que o vamos fazer sem jeito nenhum para as despedidas, por entre lágrimas e gritos tribais, a desejar mais um toque na bola. Também não lhe consegui explicar que neste momento és, para mim, um dos últimos ídolos, e muito menos lhe consigo dizer aquilo que o meu romantismo pressente - que tão cedo não veremos outro igual a ti. Não lhe consigo explicar tudo isso, mas vou tentando explicar-lhe o Benfica, um clube maior do que a vida, que me deu algumas das maiores alegrias que levarei daqui. Não se explica, mas estes anos contigo em campo tornaram muito mais fácil compreender. É, afinal, isso que se quer dos que vestem o manto sagrado. Que beijem a bola, o emblema e os adeptos. Foram 90 minutos perfeitos, vezes sem conta. Inesquecíveis, hoje, e se um dia chegar a avô. Obrigado por todos, por tudo, do fundo do coração.