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Um Azar do Kralj

Um Azar do Kralj está de mau humor. Este Benfica europeu joga para evitar a descida de divisão. Somos o Carcavelinhos da Liga dos Campeões

O Benfica perdeu na Rússia com o Zenit (3-1) e Vasco Mendonça não gostou nada do que viu - ou do que não viu, no caso de Pizzi, por exemplo: "Os amantes dos fenómenos naturais podem ficar descansados. Em breve terão nova oportunidade de viver este momento. Basta consultarem o calendário de eclipses lunares, solares e de Pizzi até final do ano"

Vasco Mendonça (Um Azar do Kralj)

Alexander Demianchuk

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Vlachodimos

Todos os adeptos sabem que será difícil o Benfica europeu levantar a taça, mas espera-se, no mínimo, que apresente a atitude de quem deseja vencer a prova. Este Benfica europeu joga para evitar a descida de divisão. Serve a introdução mal-humorada para dizer que, apesar do jogo de pés assustador, Vlachodimos foi capaz de evitar males maiores, ainda que não conseguisse impedir o maior dos males, neste caso o compromisso por mim assumido de assistir ao jogo de hoje e escrever acerca do mesmo para a Tribuna. Houve momentos em que o guarda-redes do Benfica foi um futebolista profissional a tentar reagir pragmaticamente à hecatombe, outros em que pareceu um cidadão assaltado pela barbárie, incapaz de saber a quem acudir primeiro, e ainda alguns instantes em que fez lembrar aquele meme do homem munido de uma vassoura a tentar remover a água da praia.

Tomás Tavares

Fala-se muito em jogadores saídos do Seixal. É uma forma de descrever a sua deslocação no espaço e assim consagrar uma ideia de evolução profissional expressa através de um caminho. Há quem tenha saído do Seixal e hoje resida em Manchester, há quem já esteja em Madrid, e há quem, apesar do potencial, ainda não tenha passado de Corroios mas subitamente dê por si no fogo cruzado de uma noite de realismo mágico, perdão, trágico, em São Petersburgo.

Rúben Dias

Aos 52 minutos de jogo vi Ruben Dias gritar furiosamente “VAMOS!” para os colegas em seu redor, que olharam para ele angustiados e perguntaram “PARA ONDE?”. Rúben percebeu então que ele próprio não sabia bem, mas indicou um caminho que parecia levar ao meio-campo adversário, até ele próprio se perder e acabar a fazer pontaria à própria baliza.

Jardel

Este Vicentino Syrah Tinto 2016 deixa-se beber muito bem. Aromas bem definidos de frutos silvestres e falhas de marcação. Muito equilibrado, pelo menos até ao primeiro gole. Acompanha lindamente carnes vermelhas e sonhos destruídos. Final persistente.

Grimaldo

A candidata do LIVRE Joacine Katar Moreira é autora de uma das melhores frases desta campanha eleitoral. A propósito da sua gaguez, Joacine argumentou de forma brilhante, explicando que gagueja quando fala mas não quando pensa. O que me leva a indagar: suponhamos, por breves instantes, que alguém gagueja violentamente em ambas as circunstâncias e tem ainda a agravante de apenas falar com os pés. Imaginem que tinham de passar uma hora e meia a tentar perceber o que essa pessoa diz.

Fejsa

Há quem diga que o jogador do Zenit faz falta sobre Fejsa no lance do primeiro golo, mas não é verdade. O que eu vi foi o corpo do próprio Fejsa a pedir-lhe que desista. Enquanto o cérebro do sérvio tenta acompanhar o lance consciente do erro potencialmente fatal, o corpo de Ljubomir resiste à tentação de disputar a bola, sucumbindo propositadamente à gravidade enquanto suplica por uma viagem rápida até à residência sénior mais próxima.

Gabriel

O que causa maior perplexidade ou preocupação não é o facto de Gabriel ter regressado aparentemente mais pesado da sua passagem pelo departamento médico. O que assusta é que, mesmo com peso a mais, Gabriel tenha sido o membro mais esclarecido e agressivo do coletivo de Amélias que hoje embaraçou o Sport Lisboa e Benfica.

Taarabt

Adel passou o último ano a trabalhar arduamente para reconquistar treinadores, colegas e adeptos. Não fará dele Bola de Ouro, mas permitiu recuperar um homem hoje grato pelas oportunidades que a vida lhe concedeu e disposto a devolver em futebol. As receções orientadas procuram o outro, para com ele partilhar a alegria de ali estarem, enfim, juntos. A forma como guarda a bola é uma tentativa quase infantil de prolongar os bons momentos, é o brinquedo que não quer devolver. A sua progressão no terreno não é feita em corrida. É uma coisa meio elétrica e sôfrega, relâmpago de uma criança saltitante que já decorou o caminho para casa. Até os passes errados se aceitam. São a ânsia de quem percebeu que todos merecem uma nova oportunidade, mas que só se vive uma vez e o tempo é curto para chegar à baliza adversária. E tudo isto, pergunto eu, para quê? Para de repente dar por si em São Petersburgo, rodeado de uma floresta de pés urbano-depressivos que parecem jogar contra ele? Escondam o vodka, por favor. Temo o pior.

Pizzi

Os amantes dos fenómenos naturais podem ficar descansados. Em breve terão nova oportunidade de viver este momento. Basta consultarem o calendário de eclipses lunares, solares e de Pizzi até final do ano.

Rafa

Houve um ou outro lance em que o confundi com o Pizzi. Não há maior humilhação numa noite europeia.

Seferovic

Se tem marcado naquele cabeceamento aos 4 minutos, talvez a história deste jogo tivesse sido diferente. Talvez, quem sabe, estivéssemos agora a insultar os jogadores por terem desperdiçado a vantagem inicial. O quê, alguém acredita que era possível ganhar a jogar assim? Juízo.

Caio Lucas

Algures entre um craque brasileiro de marca branca e um daqueles tipos que encontramos no paredão da Caparica a dar toques com uma bola de voleibol. Vi-o benzer-se antes de entrar no relvado. É importante. Deus encontra-nos nestes momentos e oferece conforto. Só não lhe peçam novas ideias de jogo.

Vinicius

Não dava para esperar muito de um futebolista que está tão habituado a ganhar jogos da Champions como eu.

RdT

Fosse tudo tão fácil como mudar o nome na camisola para desatarmos a ganhar jogos na Champions. RdT estreou-se a marcar com um petardão colocadíssimo e nem sequer pôde celebrar, tal era a vergonha que ia acontecendo no relvado. Benfica europeu? Bem dizem alguns jogadores quando explicam que as equipas se transformam nos grandes jogos. De acordo. A jogar assim somos o Carcavelinhos da Liga dos Campeões.

O Benfica e as noites brancas na Europa

Continua difícil a vida do Benfica, que depois da derrota em casa na estreia, voltou a perder na Liga dos Campeões, em casa do Zenit por 3-1. Se nas Noites Brancas de Dostoiévski, o jovem e sonhador narrador se apaixonava por Nastenka, o Benfica parece ter-se apaixonado por um discurso vão sobre uma tal de “dimensão europeia”. Só que esta demora a chegar