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Um Azar do Kralj

Crónica de um benfiquista em casa que não quer o Benfica campeão (por Um Azar do Kralj)

Vasco Mendonça não sabe muito bem por onde começar. Porque tudo isto é muito complexo e difícil de gerir. Há caos, indefinição. Felizmente, diz este benfiquista, também não há futebol, ou melhor, neste momento não há forma de estragar o futebol português, com comunicados e guerras de bastidores

Vasco Mendonça (Um Azar do Kralj)

João Girão

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Pediram-me um texto para mantermos a máquina a funcionar e uma aparência de normalidade, apesar de estarmos todos ligados a outras máquinas, neste caso aos ecrãs que nos permitem acompanhar contagens meio doentias que parecem transformadas num desporto: dizem-nos quantos são, de onde são, que idade têm, qual poderá ser a sua sorte.

Estamos todos um bocadinho sem saber o que fazer, à espera de uma boa notícia ou de um indicador que nos dê ânimo. É um tempo especialmente complicado para os Goalpoints da vida, que em vez de expected goals gostariam de conhecer taxas de comorbidade.

Não está fácil. Ontem à tarde dei por mim, de pantufas calçadas, à procura de um link para assistir a um jogo da liga nigeriana. Sinto que foi um dos momentos mais degradantes dos meus 38 anos de vida. Foi bom ver o Enugu Rangers regressar às vitórias fora de casa frente ao Dakkada FC. Hoje à tarde, amigos, há liga bielorrusa e joga o BATE Borisov, uma daquelas equipas que parecem uma invenção da UEFA para perderem contra equipas portuguesas na fase de grupos da Liga Europa.

Se dormir bem esta noite e conseguir acordar cedo, há dois jogos emocionantes da liga australiana. Não brinquem. Eu ia citar aquela canção e dizer que “hoje há conquilhas, amanhã não sabemos”. Mas é que nem isso.

Pensem assim. Hoje há brócolos. Amanhã não sabemos.

Uma parte de mim pensa: antes assim. Não vou mentir. Estes dias sem futebol português têm sido um bálsamo. Por um lado, falta a bola a rolar. Por outro, não há foras de jogo polémicos. Não sou insultado nas redes sociais há quase duas semanas. É um recorde desde que comecei a participar n’O Dia Seguinte.

Estão a ver aquela imagem do smog antes e depois do coronavírus numa cidade da China? É o que acontece ao futebol português quando não há polémica estéril para fazer isto tresandar a esgoto.

Não há futebol, é certo, mas também não há como estragá-lo.

Ainda não sei o que vos diga porque tudo isto continua a acontecer e porque, enquanto escrevo isto, o meu filho mais novo me pede para regressar às brincadeiras com legos enquanto o mais velho exige saber o que acontecer às pokéballs que eu já não consigo ver à frente.

Não sei se isto fará de nós pessoas novas, mas, já que temos tempo para pensar, espero por exemplo que a estrutura do Benfica aproveite estes dias em casa para reflectir acerca do tal projecto europeu.

Espero que o Lage não se tenha desgraçado em maratonas de canal Panda e consiga descobrir as respostas para algumas das perguntas que nos apoquentam. Espero que o Gabriel se ponha fino. E espero acima de tudo que o meu clube se recuse a tentar ganhar este campeonato na secretaria. Quero lá saber quem é o campeão. As taças ganham-se dentro de campo. Se não há jogos, não há campeão. Se outros quiserem mesmo ir por aí, levem a bicicleta à vontade.

Eu aguardarei, conforme instruções superiores, no sofá, até que a bola volte a rolar.