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Um Azar do Kralj

Confessem, já tinham saudades do insulto, da difamação e do ódio contra o Benfica, o inimigo público n.º1 (Um Azar do Kralj)

Vasco Mendonça escreve a propósito do que sucedeu ao mural Cosme Damião e daquilo que ele diz ser um ódio sempre presente, de norte a sul, ao clube de que é adepto: o Benfica. E pergunta a Fernando Gomes onde andou este tempo todo, antes de concluir que era preciso erradicar a violência verbal e física do futebol

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Já tínhamos saudades. Não falo do futebol, essa nota de pé de página no grande complexo industrial do futebol português. Sentíamos falta do resto: do insulto, da difamação, do ódio, da irresponsabilidade, do assassinato de caráter, das teorias de conspiração, e, finalmente, do vandalismo com que hoje acordámos, ao ver aquilo que uns delinquentes fizeram ao mural da rotunda Cosme Damião.

Esta é uma intervenção paga por adeptos anónimos que nada mais quiseram do que honrar a história do seu clube. São adeptos do futebol e da sua história. Em Portugal, a descrição de Javier Marias cumpre-se de forma diferente: o futebol é a recuperação semanal do lamaçal.

Ainda ontem Fernando Gomes, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, falava de um novo começo e da importância de começar bem. A sua reflexão, que chega em boa hora, procura lançar as bases para uma intervenção de todos os actores - clubes, atletas, dirigentes, parceiros - no sentido de dotar o quadro competitivo nacional de melhores condições de subsistência.

Compreende-se que a situação de emergência social e económica seja o principal foco da sua reflexão, apesar de não ter tanta fé na capacidade de regenerarmos o nosso futebol, de tão pouca que tem sido a vontade demonstrada ao longo dos anos.

Aliás, apetece perguntar também: após tantos anos de auto-elogio ao nosso futebol, onde andou este espírito crítico? À espera de uma pandemia? Bem sei que o sucesso das nossas selecções é uma improbabilidade estatística, mas há muito que as fragilidades do quadro competitivo e dos seus modelos de financiamento eram visíveis. Ainda assim, só posso fazer votos para que essa reforma possa ser operada e assente fundamentalmente numa maior convergência.

Permitam-me acrescentar, humildemente, um tema a esta reflexão. O futuro do futebol português, também como indústria criadora de sucesso desportivo, emprego e crescimento económico, depende de mais um factor: a cultura desportiva é, seguramente, um deles. Sobre isso, creio que muito pouco foi dito pelo presidente da FPF, apesar de todos sabermos que este é dos principais problemas.

Que futuro terá o futebol português se, a cada dia que passa, perde competitividade e civilidade? Feitas bem as contas, o discurso mobilizador de ontem coincidiu no tempo com o regresso das equipas aos relvados de treino, mas tanto a reflexão de Fernando Gomes como o regresso dos protagonistas foram imediatamente ofuscados pelos seus piores adeptos, com duas evidentes manifestações de ódio a norte e sul, ambas tendo o Benfica como alvo.

Sempre o Benfica, esse inimigo público número 1.

Parece haver um convencimento em determinadas facções do fanatismo futebolístico de que Portugal seria um país mais limpo e puro sem o Benfica, que a única coisa que impede esta indústria de prosperar é o Benfica, e que, portanto, estabelecida essa verdade indesmentível, toda a qualquer manifestação como as das últimas 24 horas encontram de imediato correspondência em tentativas de atenuar aquilo que está escrito a letras garrafais nas tarjas a norte ou no nosso mural Cosme Damião: que o futebol nacional só encontrará paz e progresso no dia em que conseguirem enterrar o Benfica, ou no dia em que desaparecer de vez.

Infelizmente para os que odeiam o clube, esse dia não chegará.

Jorge Valdano chama ao futebol o jogo infinito, mas isto é outra coisa. É um ódio sem fim. Resta ao Benfica conviver com esse ódio e utilizá-lo como fonte de energia para este regresso ao futebol, concentrando-se naquilo que mais interessa: condicionar os seus adversários dentro do campo, fazer respeitar os seus pergaminhos institucionais e, quem sabe, fazê-los odiar-nos ainda mais.

Ah, e recuperar o mural Cosme Damião imediatamente, como já o fez. Esta última medida parece-me a mais fácil, mas é também a mais simples de anular. Os delinquentes porfiarão.

Diz Fernando Gomes nos últimos parágrafos da sua carta que este tempo contém um aviso: as pessoas conseguem viver sem futebol. Acho que é uma reflexão de extraordinária importância, se pudermos torná-la consequente. A bem ou a mal. “É verdade que viverão pior, que serão mais pobres, que lhes faltará o prazer estético, a emoção, a alegria, a comunhão, a paixão. Mas viverão.”

Poderá faltar isso tudo, Doutor Fernando Gomes, mas o que não falta seguramente é esta convivência diária com o ódio que aparentemente se tornou essencial à sobrevivência do futebol português. Que o regresso do futebol se faça frontalmente contra o ódio e a delinquência. E que todos os que há uns dias apareceram juntos em nome do futebol sejam parte dessa mudança.

É que, à data de hoje, o regresso do futebol faz-se com uma só certeza: os seus verdadeiros apaixonados, que estimo serem cada vez menos, parecem ter que estar dispostos a passar pelo lamaçal para voltar ao seu lugar na bancada.

Um dia, não há mural que sobreviva.