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Um Azar do Kralj

Vi que Nélson Semedo, Ederson, Gonçalo, David Luiz, Renato e Bernardo querem regressar. Benfica: diz-me que é impossível depois de tentares

Vasco Mendonça tem refletido muito sobre o futuro do clube dele. E garante ter uma solução: contratar jogadores feitos, como há dez anos, com Jorge Jesus. Mas feitos no Seixal

Vasco Mendonça (Um Azar do Kralj)

FRANCISCO LEONG

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Há poucos dias um misto de orgulho e melancolia apoderou-se de nós. A data assinalava o décimo aniversário do primeiro título da era Jesus.

Orgulho pela qualidade do futebol praticado. Afinal foi nessa altura que o termo rolo compressor se tornou célebre na luz. Havia gente a usar fraldas em plena bancada porque não queriam arriscar-se a perder um golo ou algum lance ofensivo como há muito não se via na Luz.

Orgulho, também, pela promessa de dias melhores que aquele tempo continha, e que o futuro se encarregou de confirmar com a maioria dos títulos nacionais na década seguinte.

Orgulho, ainda, por termos sido capazes de atrair e reter uma mão cheia de jogadores que, como a equipa de 2013/14, se tornaram referências para quem hoje continua a celebrar mas também a sofrer com o Benfica, que é um outro.

Orgulho, finalmente, por sentirmos, então e agora, que tudo aquilo era muito mais sobre futebol do que sobre outra coisa qualquer. Há dez anos o terreno era diferente, menos acidentado e menos acidentado. Um tipo calçava uns crocs e até era capaz de fazer uma festa aos crocodilos.

Hoje, os jogos ganham-se no lamaçal. A bola mal circula. Todos os jogos parecem-se metaforicamente com a partida dos distritais caracterizada por ocorrências algures entre uma bojarda para o pinhal, o pontapé para o ar, o chavascal de pancadaria, ou a bancada desorientada.

Não me parece que o lamaçal vá secar nos próximos tempos, portanto o último reduto é mesmo jogar à bola e com isso devolver alguma da alegria que esta doença roubou às pessoas.

Nesse sentido, não é difícil acreditar que continuaremos a ser quase sempre melhores do que os nossos adversários nacionais, como, infelizmente, a avaliar por erros de planeamento recente, é difícil acreditar que os traumas principais venham a ser ultrapassados: o confronto direto com o FCP e o regresso a uma grande presença europeia.

A sorte do Benfica é que tem muitas efemérides para celebrar e muitas datas das quais o clube e os seus adeptos se podem orgulhar. O azar é que as efemérides nos relembram de tudo o que já vivemos e da nossa condição actual. Os adeptos querem sempre mais do melhor que já viveram. Todos nós queremos, num certo sentido, mais do mesmo. Até nos fartarmos de vencer, coisa que evidentemente jamais virá a suceder.

E não são só os adeptos que querem mais do mesmo ou se deixam comover com as efemérides e com este clube lindo.

Os atletas que o representaram parecem concordar, e é aí que toda esta conversa pretende chegar. Nos últimos dois meses vimos Nélson Semedo, Ederson, Gonçalo Guedes e David Luiz, entre outros, falarem de um tempo que viveram e que gostariam de recuperar. Todos eles dizem que querem viver isso antes da reforma. Nunca duvido da sua sinceridade porque sei, todos sabemos, o quanto foram acarinhados pelo clube.

Depois tivemos Renato Sanches, que confirmou ter quase regressado por duas vezes. O caso de Bernardo Silva é ainda mais grave: o nosso modelo desportivo, mais financeiro do que futebolístico, colocou um dos maiores talentos esculpido no Seixal a caminho de um principado como se o tivéssemos entregado para adopção, apesar de termos todas as condições para ele viver feliz com o resto da nossa família.

Pois bem, se queremos voltar a sentir o tal orgulho de há uma década, não precisamos de olhar para o futuro em busca de abstracções e muito menos de prometer feitos grandiosos - um Benfica europeu - em relação aos quais pouco ou nada fizemos. Se o objectivo é tornar o Benfica ainda mais forte em Portugal e na Europa, que o façamos seguindo o modelo de há uma década: contratar jogadores feitos, neste caso, jogadores feitos por nós.

Digam-me que é impossível depois de tentarem.

Os seis atletas que referi querem voltar a representar o clube. O desígnio do clube deveria ser o de reter estes talentos. Se não os retém, que os devolva ao sítio onde foram mais felizes, e onde querem continuar a orgulhar-nos. Sobre isto, não devia haver mas nem meio mas. Dizem que este tem sido um período de reflexão.

Pois bem, eu tenho reflectido muito: não tenho saudades nenhumas do lamaçal que se viu interrompido nos últimos dois meses, e estou absolutamente farto que o Benfica não seja tudo aquilo que poderia ser, que a política desportiva não seja, como aquilo que é exigido aos nossos atletas, a de deixar tudo em campo. Estou absolutamente farto que, hoje, a percepção colectiva do Benfica se deixe infelizmente prejudicar pelos enormíssimos danos reputacionais que nos têm sido infligidos, e cujo desgaste teimamos em ignorar.

Há uns dias lia algures - penso que era isto - que há hoje mais pessoas em Portugal nascidas após o 25 de Abril do que nascidas antes. Alguém disse, de forma oportuna, que isso explica parte do esquecimento ou da frágil memória história de alguns.

Pois bem, a história do Benfica não é assim tão diferente. Infelizmente, tem a agravante de viver de muitas efemérides bem mais antigas do que o 25 de Abril. Se queremos que as nossas efemérides europeias não sejam esquecidas, temos de lhes dar sequela, temos de presenciar mais alegrias. Se queremos que o Benfica seja tudo aquilo que nós dizemos que é, o Benfica tem de voltar a ser tudo isso novamente, dentro de campo, onde nada mais interessa a não ser lutar para merecer o orgulho e entrar na história.

Isto não é uma ideia para o mandato, ou para a década, ou para sabe Deus quando. É para ontem. E escusam de lhe chamar ingratidão para com esta direcção. É exigência, e quem não a tiver estará sempre mais perto de perder.