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Um Azar do Kralj

Membros de uma claque do Benfica terão agredido violentamente membros de uma claque do Sporting. E o meu Benfica nada diz e nada faz

Vasco Mendonça, de Um Azar do Kralj, escreve sobre os dois incidentes: não deveria ser necessário um adepto acabar esfaqueado para que a relação de um clube com as claques fosse revista, ou para que a postura pública dessa mesma claque fosse reavaliada

Vasco Mendonça (Um Azar do Kralj)

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Há algumas semanas escrevi um texto em que falava da hostilidade para com o Benfica e de alguns anseios vividos pelo futebol portugês, não apenas os financeiros mas os culturais, que poderiam retirar a competição e os seus meandros do pântano em que se encontra.

Mantenho, no essencial, aquilo que escrevi. Na minha opinião, a hostilidade existe e contamina a discussão no espaço mediático, com danos reputacionais para o Benfica e para muitos dos direta ou indiretamente visados. Eu serei seguramente um dos menos prejudicados por este tema, mas, a título de exemplo: se perguntarem à milícia das redes sociais, há anos que eu recebo uma avença do Benfica para dizer aquilo que o clube quer. Infelizmente, o meu banco tem insistido em negar-me o acesso a esse valor e as minhas opiniões continuam a divergir frequentemente das da direção, mas que isso não impeça a malta de prosseguir, pelo menos até o dinheiro cair na minha conta.

Perguntará o leitor mais crítico: isto é exclusivamente culpa das tais milícias digitais? Não, não é. O meu clube também tem culpas no cartório. Nem tudo o que o Benfica tem sido nos últimos anos é dignificante ou merecedor do orgulho que procuramos numa instituição com a importância social e cultural do Benfica. Seria importante, por vezes, admitirmos isso. Essa quota parte de responsabilidade - empresarial, social, cívica - estende-se a muitos temas, mesmo quando tal não é explicitamente exigido. E ninguém deve ser imune a críticas. Acho que é um exercício saudável. Se o encararmos de forma construtiva, talvez consigamos melhorar um bocadinho.

É por isso que sinto necessidade de revisitar o tal texto de há poucas semanas e dizer que lhe faltou contexto e que mereceu parte das críticas que lhe foram feitas. Faz parte. Ganha-se uns, perde-se outros. Mesmo que a tal hostilidade exista e que isso pudesse ser uma observação legítima, o que dizer das semanas que lhe sucederam? Que a realidade se encarregou de colocar o meu texto no devido lugar e pôr a nu as suas fragilidades.

Por duas vezes, membros de uma claque do Benfica terão agredido violentamente adeptos de uma claque do Sporting. Sobre isto, poucos desmentidos, algumas tentativas de explicar o que se passou responsabilizando os agredidos por uma suposta provocação, muita vergonha, e, até ver, nenhuma reação oficial do clube. Dei por mim quase a desejar que a malta voltasse a vandalizar propriedade privada. Entre isso e esfaquear adeptos, prefiro umas paredes sujas.

Não que a escolha deva ser esta, claro. Numa altura em que o futebol tenta aprender a viver sem adeptos no estádio sabendo que vai inevitavelmente falhar, porque futebol sem adeptos não é exactamente futebol, a escolha também não deveria ser a de uma modalidade sem claques, como às vezes se grita, mas sim a de uma claque expurgada, tanto quanto possível, dos seus activos tóxicos, que pelos vistos são alguns.

É um bocadinho triste escrever isto sabendo que a) será imediatamente contestado por alguns como sendo um ataque ao meu clube ou b) porque não deveríamos ter que recordar tão elementares regras de convivência entre adeptos, mas eu escrevo na mesma: não deveria ser necessário um adepto acabar esfaqueado para que a relação de um clube com as claques fosse revista, ou para que a postura pública dessa mesma claque fosse reavaliada.

Escrevo isto, repito, desejando tudo menos o fim das claques. Sei bem que ajudaram muitas vezes o Benfica a chegar ao fundo das redes adversárias, que já galvanizaram muito adepto em comatose, já disfarçaram os lugares vazios na bancada, e já calaram muitos outros que, contra a sua própria natureza, assobiam os atletas que deveriam ajudar a chegar à vitória. Mas a tal hostilidade de que eu me queixo jamais irá diminuir enquanto esfaquear adeptos for uma aparente nota de pé de página no quotidiano do futebol de português, uma espécie de mal menor com o qual temos de conviver para ter adeptos vibrantes nos estádios.

O trade off para termos claques nos estádios não pode ser este e esta deveria ser uma preocupação cívica de todos os clubes, incluindo do meu. É verdade que não tenho uma varinha mágica, mas já muito se disse sobre o que pode melhorar: clubes mais vigilantes, claques mais vigilantes, e punições muitíssimo mais severas. Seria um bom começo.

Se nada for feito, o problema manter-se-á e continuaremos a ter vítimas. É por isso que não me poderei voltar a admirar se a hostilidade aumentar.