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Um Azar do Kralj

Sinto que falhei. No lugar dos decisores teria tomado a mesma decisão: Vasco Mendonça sobre o fim de “O Dia Seguinte”

Vasco Mendonça escreve sobre o fim do programa de segunda-feira à noite

Vasco Mendonça (Um Azar do Kralj)

Tiago Miranda

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Parece-me que já é público, portanto aqui vão algumas palavras sobre o tema. A direcção de informação da SIC decidiu descontinuar os programas de desporto que assentam em comentadores que representam clubes (Play Off e O Dia Seguinte), vulgarmente conhecidos como ‘os três grandes’.

Trocando por miúdos: a minha última emissão será a 3 de Agosto. Tal como já tive oportunidade de dizer a quem me convidou, compreendo os motivos e o timing da decisão, uma vez que a época desportiva está a terminar e o contexto de pandemia coloca entraves adicionais. Arrisco até dizer que, no lugar dos decisores, teria tomado a mesma decisão.

Os meus amigos e familiares, aqueles que me conhecem melhor, sabem que eu nunca pensei em participar num programa deste tipo e ainda hoje falo disso com algum distanciamento. No entanto, aceitei convencido de que poderia contribuir em alguma medida para melhorar este tipo de formato televisivo.

Bem feitas as contas, é preciso dizer a verdade: sinto que falhei. Seja pela dinâmica do painel de que fiz parte, seja por incompetência minha, seja pelo contexto do futebol português, seja lá por que motivo for, a verdade é que podia ter sido melhor. Ao longo das emissões, procurei conservar o desportivismo, a honestidade, o espírito crítico, e a cordialidade. Nem sempre isso aconteceu, por um motivo ou por outro.

Estes programas são muitas vezes feitos para que nos deixemos levar na vertigem do direto e é difícil não embarcar na confusão quando esta surge. O futebol português é isso, uma gigantesca confusão e berraria. No então, posso garantir-vos que tentei fazer melhor: pela SIC Notícias, pelo programa, e pelo clube do qual sou adepto.

Acho que há um elefante na sala e a SIC Notícias faz bem em torná-lo mais evidente. Muitos destes programas resultam hoje num formato muito condicionado pelas estratégias de comunicação dos clubes. Só quem não esteve lá pode pensar o contrário.

Posso ainda assim garantir-vos uma coisa: tentei sempre partilhar as minhas opiniões e não as de outros. Se coincidiram com as posições oficiais do meu clube? Seria estranho que isso não acontecesse algumas vezes. Se me orgulho de tudo o que disse ao longo de um ano e meio? Nem por isso.

No entanto, procurei dizer aquilo em que acreditava. Não me parece que deva ser de outra forma. Seja como for, nunca me livrei do rótulo de cartilheiro. E nunca mais me vou livrar, porque é assim que a contra-informação e as percepções circulam hoje em dia. É o resultado de um clima tóxico, promovido durante anos por grande parte dos intervenientes, que eu de alguma forma terei patrocinado ao participar neste programa, e que agora importa mudar.

Não obstante, o meu muito obrigado a quem na SIC se lembrou de mim há cerca de um ano e meio. É possível que eu tenha sido, afinal, apenas mais um dos que contribuiu para a necessidade de reformulação deste formato televisivo. Ainda assim, foi uma experiência muito gratificante que não esquecerei.

A todos os que foram desistindo de ver estes programas, compreendo-vos. Quem sabe um dia destes surge a oportunidade de fazer algo diferente com este formato televisivo. Existem bons conteúdos televisivos sobre futebol que conseguem permanecer imunes a estas críticas. Que continuem, com cada vez mais força. A todos os espectadores que foram acompanhando "O Dia Seguinte", obrigado por terem assistido. Vemo-nos por aí.