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Um Azar do Kralj

Medo e delírio no Seixal: vai correr tudo bem, a não ser que a trip de mescalina acabe mal (por Um Azar do Kralj)

As dúvidas de Vasco Mendonça: se o clube é dos sócios, acho que perguntar não ofende: será por tudo isto que o presidente quase não abriu a boca durante estas últimas semanas? A que se deve a ausência de qualquer avaliação sobre a época mais desastrosa da sua presidência? Será o novo projecto de Luís Filipe Vieira uma combinação de investimentos milionários aliada à expectativa de que a memória de peixe do adepto resulte na mãe de todas as épocas desportivas, um ano memorável para fazer esquecer a incompetência revelada em todas as épocas perdidas?

Vasco Mendonça (Um Azar do Kralj)

Luís Filipe Vieira tem 68 anos e é presidente do Benfica desde 2003

Tiago Miranda

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Não é por acaso que todas estas contratações parecem saídas de um sonho estranho ou o produto de uma enorme trip de mescalina. Primeiro a parte boa: a mescalina é de facto uma droga do caraças. Provoca sensações de euforia, alterações radicais da percepção, abranda a passagem do tempo, é alegria pura, sinestesia 5 estrelas no Trip Advisor. Uma boa viagem de mescalina e a baía do Seixal vai parecer a baía de St Tropez.

Então porquê a evocação de um filme dos anos 90 em que um duo desbrava Las Vegas sob o efeito de drogas? Lá está este gajo. Deve querer que o Benfica regresse aos tempos do Vale e Azevedo.

Nada disso, caro leitor.

Estou mais interessado nos tempos do Vieira. Eu explico porque é que me sinto sob o efeito de drogas. É que, nos últimos três anos, fui habituado a esperar muito menos. Habituei-me a não perceber muitas decisões, habituei-me a não contar com esclarecimentos sobre algumas dessas decisões, habituei-me a não levar a sério metade do que se dizia, habituei-me a duvidar de boa parte das explicações, e, pior do que tudo isto, habituei-me a lidar com a derrota quando sabia que podíamos e devíamos ter sido melhores.

Foi-me dito até, pasmem-se, em plena emissão da BTV, que talvez a ambição europeia do benfiquista fosse desfasada da realidade. Que o problema era dos benfiquistas. Fui também habituado a reconhecer que os melhores dribladores do Seixal não estavam nas alas ou no corredor central, mas na administração da SAD.

Em suma, habituei-me a um Benfica pior. Portanto, tenho algumas dúvidas sobre esta súbita mudança.

Como devem imaginar, antes de escrever uma linha já sabia que este texto seria caracterizado como uma demonstração de anti-benfiquismo.

É a vida.

Ao longo dos sete anos em que fiz piadas, muitas inclusivamente criticando o actual presidente, fui aplaudido por demonstrar que os benfiquistas sabiam rir de si próprios. Concordei muitas vezes. Hoje, se fizer uma piada sobre uma das novas contratações ou sobre esta direcção, sou qualificado como um perigoso revolucionário que precisa de um tacho no clube porque foi despedido da SIC.

Faz parte das flutuações emocionais do benfiquismo diretivo e é hoje presença obrigatória no boletim informativo enviado pelo departamento oficioso. Um dia, quem sabe, voltaremos todos a ser amigos. Mas permitam-me explicar porque é que algum cepticismo saudável pode não ser uma coisa má.

É que a mesma equipa responsável pelas contratações de Caio Lucas e Dyego Sousa para ajudar o Benfica a cumprir o seu desígnio na última época - ganhar tudo ou perder o fôlego a tentar - escolheu agora Verthongen, Cebolinha, Waldschmidt e Cavani, tudo isto semanas depois de o administrador da SAD ter anunciado à BTV que se gastaria menos dinheiro, meses depois de Vieira ter ido ao seu canal de televisão explicar que os tempos não estavam para brincadeiras, que o Benfica tinha escondidos no Seixal 15 atletas que, juntos, seriam capazes de conquistar o título, que o Benfica era campeão da credibilidade apesar de uma OPA ilegal, semanas antes de mais um processo judicial, desta vez por fraude fiscal qualificada.

Antes disso, em maio de 2019, já Rui Costa tinha explicado ao Record que para sonhar com um título europeu só com uma base da formação no onze titular. Mais ou menos na mesma altura, Domingos Soares de Oliveira explicava que o objectivo do Benfica seria fazer uma - repito, uma - contratação sonante por época, um jogador de topo mundial, sempre com os pés assentes na terra.

Antes disso, em 2018, Vieira explicou que daí a 3 anos a primeira equipa do Benfica teria 80 a 90% de jogadores de formação. Antes disso, em 2003, 2006, 2009, 2012, 2015 e 2018, Vieira anunciou que o Benfica seria o maior clube do mundo, vencedor de títulos europeus. Isto sem contar com os anúncios de um “novo ciclo”.

Por isso, quando percebo que não é uma miragem, que chegou mesmo uma mão cheia de jogadores até há pouco tempo considerados impossíveis ou financeiramente inviáveis, que a narrativa da administração mudou para permitir viabilizar esta possibilidade, apesar de o presidente e de diretor terem apontado sempre noutra direcção, é normal que uma pessoa se sinta meio entontecida e se questione sobre o que hoje permite a realização destas operações, qual o plano de negócio para essas mesmas operações num clube que até aqui não as conseguiu por alegada ideia de política desportiva e por uma desejável racionalidade financeira.

Se o clube é dos sócios, acho que perguntar não ofende: será por tudo isto que o presidente quase não abriu a boca durante estas últimas semanas? A que se deve a ausência de qualquer avaliação sobre a época mais desastrosa da sua presidência? Será o novo projecto de Luís Filipe Vieira uma combinação de investimentos milionários aliada à expectativa de que a memória de peixe do adepto resulte na mãe de todas as épocas desportivas, um ano memorável para fazer esquecer a incompetência revelada em todas as épocas perdidas? É este o projecto? Parece uma daquelas construções junto à praia que foi embargada ou, pior ainda, uma construção majestosa interrompida porque o dinheiro se acabou.

Reparem. Eu gosto tanto de drogas como os demais benfiquistas. Vamos a isso, amigos. Estádio cheio, treinador que sabe, futebol à antiga, nota artística elevadíssima, atropelo sucessivo dos adversários, e o que mais vier. Inebriação a todo o gás. Quem não gosta de uma boa viagem? Vai ficar tudo bem, desde que a trip de mescalina não acabe mal.