Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Um Azar do Kralj
Vasco Mendonça (Um Azar do Kralj)

Vasco Mendonça (Um Azar do Kralj)

Cronista da Tribuna Expresso

Mostrem o jogo de 1991 ao Rafa. Por favor

Como é possível que, num clube com uma história tão rica e grandiosa como a nossa, os atletas entrem em campo sem saber que história devem fazer respeitar? Por isso, digo a quem tem responsabilidade nestas coisas: se, em 5 anos, não foram capazes de explicar ao Rafa a história do Benfica e garantir que ele não faz esta triste figura de perdedor na antevisão de um jogo decisivo, tentem pelo menos educá-lo para o mais elementar exercício de comunicação com os adeptos, que está inscrito nos deveres da sua relação contratual com o clube. Podemos não ganhar, mas sempre nos poupam ao desrespeito

Vasco Mendonça (Um Azar do Kralj)

Neal Simpson - EMPICS

Partilhar

É sempre assim todas as manhãs de jogo, pelo menos desde que o Miguel me convidou para aquele grupo de WhatsApp. Acordo e, muitas vezes antes ver as capas dos desportivos, verifico se o João já passou por lá para deixar a sua mensagem. São poucas palavras, sempre as mesmas, e dizem tudo sobre o dia que se avizinha:

🚁 adoro este cheiro a vitória logo pela manhã 🚁

Não interessa que estejamos a viver um momento angustiante. A expectativa nunca muda. Ninguém é educado como benfiquista para acordar a pensar em outro desfecho. São muitas as razões porque isso é assim, mas podemos fixar-nos numa absolutamente fundamental: quem veio antes daqueles que hoje jogam ou torcem pelo Benfica, e ajudou a fazer do Benfica aquilo que é.

Desengane-se quem acha que, quando falamos disto, estamos a pensar apenas na parte puramente desportiva. Não, a verdadeira história não é apenas feita de vitórias nem se passou apenas dentro de campo. É muito maior do que o resultado de um jogo. É, como dizia o Tiago nesse mesmo grupo de WhatsApp, a história do antigo estádio da Luz feito com as doações dos sócios. É a história de um clube em que muitos adeptos sacrificam o seu dinheiro para manter as quotas em dia. É a história de um clube que foi, para muitos, um reduto de liberdade e democracia num país subjugado a outro regime. É a história dos emigrantes para quem o Benfica é a sua casa longe de casa, um estado de alma com morada seja onde for que joguemos, que lhes devolve um sentido de identidade cada vez mais ameaçado. É a história da casa do Benfica que me recebeu como se fosse um membro da família. Foi e continua a ser, para muitos, um orgulho em ser português.

O Benfica é tudo isto e muito mais, e só é possível compreender o Benfica quando se percebe que, de cada vez que alguém chuta à baliza ou mete o pé pelo nosso emblema, está a fazer a sua parte para para reforçar ou fragilizar aquilo que escrevi. Nem mais nem menos. É ainda mais assim quando o clube enfrenta períodos de insucesso desportivo que testam a resiliência de todos. No final, feitas bem as contas, ganhemos ou percamos, é esta réstia de dignidade que procuramos. Foi por isso que tantos de nós saíram de um empate no Dragão satisfeitos apesar do mau resultado. Satisfeitos na medida em que sentimos que fomos o Benfica que veio antes de nós, e que só assim poderemos ser o Benfica que ambicionamos.

Por muito que os sócios e adeptos sejam os guardiões inabaláveis de um clube, é inevitável que a história deste modo de vida nascido de uma agremiação desportiva, e a ideia que daí ficará para as próximas gerações, se escreva diariamente. É por isso que me ofende a forma como um dos nossos melhores jogadores, o Rafa, se refere à nossa vitória lendária em Londres, há quase 30 anos. Diz ele que, “sendo sincero”, não sabe o que se passou, não procurou, nem viu nada sobre o assunto. Não estou a distorcer a afirmação. Um atleta que representa o Sport Lisboa e Benfica desde Agosto de 2016, perante uma das piores prestações desportivas das últimas décadas, num jogo importantíssimo para uma das poucas aspirações que nos resta, afirma que não se recorda de um dos jogos mais presentes na memória colectiva de quem vai assistir ao jogo desta noite.

Isto não é só sobre o Arsenal - Benfica de 1991, mas deixem-me contar-vos uma pequena história. Há uns meses ajudei a fazer a campanha de um candidato à presidência do Benfica. Um dia cheguei à sede de campanha e descobri que o Isaías estava lá. Agora reparem: tenho 39 anos, 2 filhos, considero-me uma pessoa sociável e extrovertida quanto baste para abordar qualquer pessoa. Ainda assim, precisei de 2 dias para meter conversa com ele. Quando finalmente ganhei coragem, disse-lhe que era um dos meus jogadores favoritos e que todos os meus remates em miúdo foram uma tentativa de o imitar, os que foram à baliza e os que foram para o pinhal. Depois disse-lhe que em tempos escrevi um texto sobre ele. O Profeta sorriu e disse para eu lhe enviar o texto. No dia seguinte, agradeceu-me as palavras. Foi o segundo melhor momento daquela campanha e um que guardarei para sempre. O melhor, partilhado com todos, foi ver o Vítor Paneira subir a um palco durante uma pandemia num pavilhão em São Domingos de Benfica e falar com os benfiquistas presentes como se fosse, afinal, o mesmo Paneira de sempre, disposto a deixar tudo em campo. No final fui ter com ele e disse-lhe o que achava que todos os benfiquistas gostariam de ter dito: independente do resultado eleitoral amanhã, obrigado por um momento que nunca mais esquecerei. E o Vítor Paneira agradeceu-me encavacado, como se não tivesse feito mais do que a obrigação dele. Sabe Deus quantas vezes revi a intervenção dele desde então.

O que me devolve ao início: ninguém gosta do cheiro a derrota logo pela manhã. E é esse o problema da afirmação aparentemente ingénua do Rafa. Para quem, como eu, lê aquilo, é como se começássemos a perder. O Rafa reagiu como se fosse apanhado desprevenido. Como se um jogo contra este mesmo adversário em 1991 fosse o mais irrelevante dos temas. E eu pergunto: como é possível que isto aconteça no Benfica? Será esta uma expressão adequada da identidade do clube que deve ser praticada diariamente por todos, em especial pelos que nos representam no relvado? A resposta é obviamente não, mas o tema parece-me bastante mais profundo e preocupante.

Num primeiro nível de leitura, importa perceber como é que coisas destas acontecem. Eu não espero que o Rafa e todos os jogadores adormeçam na véspera com uma camisola do Isaías vestida, mas seria bom que pelo menos percebessem o diálogo permanente que estabelecem com a massa associativa e restantes adeptos. Não é preciso ser um génio da comunicação para compreender isto. Depois: uma estrutura hiper-profissionalizada como a nossa, em que a preocupação com a comunicação interna e externa do clube não deveria ser uma nota de pé de página mas sim uma obsessão doentia, tem a obrigação profissional e o dever institucional de salvaguardar a reputação e a identidade do Benfica em todos os momentos. Tem a obrigação profissional e o dever institucional de garantir que todos os que representam o clube respeitam os adeptos. Ignorar a história do Benfica, em qualquer dia das nossas vidas, é desrespeitar os adeptos. Fazê-lo com uma afirmação difundida em dia de jogo é brincar com esta merda.

O segundo nível de leitura é aquilo a que o jornalista Rory Smith se referia no New York Times como o último reduto de um clube de futebol moderno: a sua identidade. A identidade é uma consequência da história e do presente, e resulta também muito do cuidado que uma organização - moderna como a nossa - tem para com os seus pergaminhos. Diz o Rory Smith que os clubes com uma identidade forte podem não ganhar sempre, mas os seus adeptos, como aqueles que estão dentro de campo, sabem o que vai a jogo de cada vez que o árbitro apita. Sabem o que é defendido. Sabem que, a cada investida do adversário, estarão lá os nossos para nos fazer a dobra.

Mas, se este comportamento não for sistematizado e repetido, parte da identidade perde-se. Não é lirismo. É mesmo uma erosão do clube que é nosso. Ponham-se no lugar dos jogadores como fazem a cada jogo. Todos sabemos que quando alguém diz “até eu marcava aquela” a probabilidade de isso ser verdade é muito reduzida. Mas também sabemos bem o que levamos para cada jogo enquanto adeptos, e isso é do mais genuíno e visceral que pode haver: seja a rivalidade com o FCP, seja a lenda dos nossos maiores atletas, ou uma noite lendária em Highbury, o que nós queremos é arrepiar-mo-nos por sentir que, de facto, eles honram os ases que nos honraram o passado.

Pergunto então: como é possível que, num clube com uma história tão rica e grandiosa como a nossa, os atletas entrem em campo sem saber que história devem fazer respeitar? Por isso, digo a quem tem responsabilidade nestas coisas: se, em 5 anos, não foram capazes de explicar ao Rafa a história do Benfica e garantir que ele não faz esta triste figura de perdedor na antevisão de um jogo decisivo, tentem pelo menos educá-lo para o mais elementar exercício de comunicação com os adeptos, que está inscrito nos deveres da sua relação contratual com o clube. Podemos não ganhar, mas sempre nos poupam ao desrespeito.