Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Um Azar do Kralj

Daqui a dias, quando ganharmos três jogos, Vieira dirá que isto lhe custou muito e que não sairá do Benfica antes de ser campeão europeu

Não sei como é que o presidente do clube está a lidar com isto. Ninguém faz ideia. Desapareceu durante o pior período do seu mandato. No momento em que mais era esperado dele, apenas alguns meses após ter sido reconduzido, deixa que um silêncio ensurdecedor se instale

ANTÓNIO COTRIM

Partilhar

Passaram 48 horas e continuo sem inspiração para escrever as habituais notas sobre cada um dos jogadores. Por um lado, não há álcool que chegue nesta casa. Por outro, sinto que não se prescrevem ansiolíticos para o benfiquismo nos dias que correm. Depois, procurar uma explicação de índole técnico-tática para o que se passa dentro de campo, como se fosse só isso, parece-me um exercício masoquista nesta fase.

Estamos todos a passar por isto e a lidar com este período angustiante da melhor forma que sabemos. O Rafa diz que é preciso caprichar na cara do golo. O Darwin escreve um post no Instagram a dizer ao pai que vai saber contrariar a adversidade (espero que sim, miúdo).

Eu vou passear o cão e evito ler os desportivos enquanto imagino uma reviravolta extraordinária na 5ª feira, 11 + 5 jogadores a irem buscar forças que não sabiam que tinham para de uma vez por todas demonstrarem o que sabem fazer e fazerem jus ao emblema que vestem. Ok, não precisam de ter visto o jogo de 1991. Basta jogarem como se soubessem o que é o Benfica.

O presidente do clube, bem, não sei como é que o presidente do clube está a lidar com isto. Ninguém faz ideia. Desapareceu durante o pior período do seu mandato. No momento em que mais era esperado dele, apenas alguns meses após ter sido reconduzido, deixa que um silêncio ensurdecedor se instale.

Desapareceu, mas, ironicamente, está hoje em muitas ruas deste país. “Malditos garotões” que só querem o mal do clube, pensarão os seus mais fiéis apoiantes. Tenho a certeza que daqui a uns dias Vieira nos dirá que lhe tem custado muito e, assim que vencermos 3 jogos consecutivos, voltará a dizer que não sai do Benfica sem ser campeão europeu. Caro Presi, muito sinceramente nesta fase já me contentava se dissesse que não saía do Benfica sem voltar a conseguir um quarto lugar no campeonato. Sempre me pareceria mais provável a sua saída.

Ligo a BTV e vejo alguns a medirem o benfiquismo como se, em vez do chuto certeiro ou da abnegação que conquista metros para chegar à baliza adversária, o benfiquismo fosse afinal a arte da negação e um serviço a prestar à atual direção do clube. Gestão errática? Nada disso, vejam só as arbitragens, se não acreditam em mim perguntem ao António Rola! Comunicação ineficaz? Qual quê, olhem só para o azar que tivemos. Falta de competência nas mais diversas áreas? Meus amigos, ponham os olhos nesta pandemia. Pensamento crítico? Tachistas! Esta gente que se diz benfiquista é uma vergonha para o clube!

E, no entanto, apesar do Benfica que emana de todas estas situações algo embaraçosas, há um outro Benfica que permanece imutável. Se dúvidas restassem, bastava ouvir a edição de ontem do Benfica FM. Já vos explico porquê.

Antes disso, e para que não achem que estão sozinhos, pelo contrário, para que percebamos que somos cada vez mais, posso dar outros exemplos que, hoje, surgem em cada esquina tal como o nome da rua. Podemos ler o Bagão Félix esta manhã, que pede de uma vez por todas uma reacção do presidente livre de demagogia. Podemos ler o Pedro Adão e Silva, que se diz sem palavras e mesmo assim consegue dizer tudo. Podemos ler o Filipe Inglês no Zerozero a explicar porque é que não se desiste do Benfica. Podemos ler os mais diversos benfiquistas pensantes nas redes sociais, cidadãos cumpridores que continuarão a pagar quotas e a assinar a BTV, explicarem aquilo que os angustia dia e noite.

E isso não é um pormenor. Neste momento, isso é tudo. Hoje, perante o silêncio ensurdecedor de um presidente, as explicações insuficientes dos seus vice-presidentes, o insucesso dos atletas e de quem os dirige, sabemos uma coisa. O Benfica é, mais do que nunca, os Benfiquistas. Se não acreditam em mim, ouçam a Lurdes.

[Avancem aqui para o minuto 96: https://www.youtube.com/watch?v=fwEdtd9WjpA]

Bem arredondados, são 15 minutos à Benfica como reza a história. Ouçam todos se puderem. Não conhecia a Lurdes até ontem à noite e agora, depois de a ter ouvido 2 vezes, sinto que esteve sempre por aqui, presente de alguma maneira, a garantir que o Benfica se mantém vivo hoje, amanhã e sempre. Porque a identidade do Benfica, por muito que continue a viver dos feitos grandiosos inscritos na sua história, é também este amor simples que não desarma de uma mulher que, aos 59 anos, decidiu entrar em direto num podcast de garotões para dizer tudo o que lhe ía na alma e falar do que é o Benfica para si: de como a sua vida se rege por isso, dos que estão com ela na bancada, dos que já estiveram e lhe deixaram as memórias vividas de um Benfica que venceu a Taça Latina. E de como hoje sente o Benfica ameaçado por quem lá está.

O Benfica é a Lurdes, é da Lurdes, e deve existir para fazer pessoas como a Lurdes felizes. É curioso que o António Pita, um dos apresentadores do podcast, chamou-lhe Dona Lurdes e a Lurdes fez questão de dizer que não é Dona de nada, que é só mais uma de nós. Felizmente o Nuno Picado, outro dos anfitriões, não se contentou com a resposta e pouco depois chamou-lhe Rainha Lurdes. Parece-me bem. Rainha Lurdes, Dona e Senhora do coração benfiquista.